sábado, 25 de março de 2017

UNIVERSIDADE, PARA QUE E PARA QUEM?

Nos últimos anos tenho refletido sobre qual perfil de universidade deveria nos empolgar e nos envolver. Ou, como dizia Milton Santos, com a ideia de universidade. “...É a partir da idéia sempre renovada de universidade que julgamos as universidades concretas e sugerimos mudanças”.[1]
Fui bastante crítico em alguns artigos que escrevi no Blog Gramática do Mundo, o que não significa ter uma visão pessimista ou negativa do que temos sido e nos transformado. Mas penso que podemos ser melhor, naquilo que deve ser a essência de uma universidade.
Por anos passei lidando com lutas travadas nesse ambiente, na tentativa de encontrarmos o melhor caminho para uma instituição que cumpre um papel importante no desenvolvimento regional e nacional, bem como na formação de jovens que se qualificam para enfrentar com competência o mercado de trabalho.
Não restam dúvidas que a universidade brasileira sofreu impactos significativos a partir de amplos investimentos nos últimos governos. Até o primeiro governo da presidenta Dilma Rouseff. Mas fundamentalmente durante os governos Lula, com o programa de reestruturação e expansão das universidades federais (REUNI). No entanto, devemos refletir sobre a universidade permanentemente, e nos inquietarmos quando não identificamos nela um ambiente de renovação e de enfrentamento com a acomodação.
As universidades brasileiras, e a UFG não foi exceção nessa regra, foram bem servidas nesse processo de expansão. Ampliaram-se significativamente as estruturas, novas universidades foram criadas, houve um aumento significativo de novos cursos e expandiu-se como nunca as vagas, possibilitando que um número maior de jovens tivesse acesso ao ensino superior público e gratuito. Os investimentos em pesquisa foram acompanhados pelo incentivo a criação de novos cursos de pós-graduação, ampliando o número de cursos de mestrado e doutorado. Políticas de inserção social, por meio de mecanismos até então inexistentes, o sistema de cotas para jovens negros e/ou oriundos da rede publica de ensino, abriu caminho para uma maior democratização no acesso às universidades.
Tudo isso foi efetivado por meio de processos complexos de discussão nas instituições, mas com pouca margem de opções sobre como aplicar os recursos. Naturalmente, não se podia vacilar em relação à aceitação, como uma condição essencial para a expansão e modernização das estruturas existentes nas universidades. Mas até em que ponto se planejou, e se analisou como seria futuramente a capacidade dessas instituições em manter o crescimento proposto? Diante de uma crise econômica que sangrava a maioria dos países de todo o mundo, os investimentos federais teriam condições de serem mantidos? Bem, o futuro chegou, e nos deixou diante de uma situação absolutamente complicada quanto aos rumos da universidade. O que fazer?
Neste momento precisamos apontar caminhos diferentes daquele que foi marcado por uma euforia diante da disponibilidade de recursos, que nos deixou anestesiado para analisar de forma competente os riscos que existiam na adoção de algumas exigências focadas na necessidade de ampliar o número de vagas, de criação de novos cursos e de contratação de mais professores como consequência dessas medidas.
Verificamos, num dos aspectos que nos prende especificamente neste artigo, a graduação, que não houve uma análise criteriosa dos impactos que se seguiriam à criação de alguns cursos, principalmente no tocante à existência de um mercado que pudesse absorver os futuros profissionais, além da expectativa em relação à procura pelos mesmos, e isso mesmo visto como uma relação dialética, entre a absorção do mercado e a escolha pelos jovens de cursos que lhes garantissem essa possibilidade.
Mas, o mais grave, contudo, foi a não preparação da universidade para as mudanças em curso, desde a criação do ENEM até a implantação do SISU, que gerou uma espécie de desorganização interna e uma excessiva mobilidade dos estudantes na indefinição sobre qual curso ele desejaria seguir e se formar. Tornou-se comum a troca de cursos até o segundo ano, com o deslocamento principalmente daqueles cuja perspectiva de inserção no mercado, com salários desvalorizados, são mais críticos. Principalmente num ambiente de crise econômica, recessão e retração do mercado de empregos.
Essa situação é ruim para o país, não somente para a universidade, pois traz como consequência a insuficiência de profissionais em determinadas áreas, afetando sobremaneira as licenciaturas, área de formação de professores.
Isso não é um problema restrito a uma única universidade, mas a todo o sistema. Contudo, internamente, cada universidade deveria se preparar para lidar com essas situações. Ao não fazer isso se criou uma situação que torna o sistema mais caro, na medida em que cresce muito a evasão e reduz a proporção entre professor e aluno. A contradição visível é que, muito embora tenha sido reduzido o funil da entrada, já que se ampliaram consideravelmente as vagas, houve uma redução do número de formandos, estreitando-se o funil na saída. Alguns cursos neste ano não conseguiram colar grau de mais do que cinco alunos, sendo preciso que a universidade aglutinasse numa mesma solenidade de formatura até seis cursos, algo absolutamente impensável quando se proporcionou há alguns anos a implantação do REUNI.
São desafios como esses que tornam necessário uma mudança de rumo na UFG. Precisamos redefinir as prioridades, mas é essencial, repensar qual é o sentido dessa instituição, que não somente a formação e preocupação com o mercado. Isso passa por valorizar mais a graduação, estimular os novos estudantes e incentivar os professores a compreenderem que o fortalecimento da qualidade na graduação passa pela boa formação de base dentro da universidade, ou seja, de estudantes de graduação com competência e desejo de prosseguir nos estudos visando uma pós-graduação.
Além do mais, não podemos nos esconder das discussões de questões que dizem respeito à educação de maneira geral, no âmbito da sociedade, porque elas dizem respeito à maneira como aqueles profissionais que formamos serão inseridos na sociedade e no ambiente de trabalho. Participar de discussões sobre, por exemplo, decisões que afetam a valorização dos professores, por meio de questionamentos e/ou sugestões às medidas adotadas pelo estado e município, constitui-se numa quase obrigação, que reforça de maneira ampla o sentido da universidade, da formação de saberes, mas também de identificação com a sociedade. O acompanhamento de reformas, como a do ensino médio, não deve se dar somente a partir de convites feitos para participação em audiências públicas, mas a universidade deve se colocar como protagonista nessas discussões, antecipando-se a decisões que venham a ser irreversíveis, ou quase isso, como aconteceu na recente discussão e aprovação de uma reforma do ensino médio que já tramitava há anos no Congresso Nacional.
Esses são elementos que nos embalam na decisão de disputar a condição de mais do que um gestor. Mas um reitor e um condutor de decisões que não se limitem somente a valorizar os aspectos quantitativos e estruturais, mesmo que sem esquecer destes. Mas também a resgatar aqueles elementos que sempre fizeram da universidade um templo de saber e a uma instituição respeitada e admirada na sociedade.
No próximo artigo abordarei a importância da pós-graduação e as necessárias medidas para fortalecê-la.
É PRA FRENTE QUE SE ANDA!




[1]http://www.adusp.org.br/files/revistas/11/r11a03.pdf

quinta-feira, 16 de março de 2017

A UNIVERSIDADE: DA INTENCIONALIDADE À UNIVERSALIDADE

Prof. Dr. Milton Santos[1]
Nos dias atuais, é praticamente comum, quase em toda parte, a perda progressiva, pelas Universidades, da meta do conhecimento genuíno, o que contribui para despojar a instituição universitária de sua principal razão de ser.
Será essa uma evolução inelutável e irreversível? Talvez valha a pena, para fixar as idéias, retraçar, ainda que brevemente, a história geral do trabalho intelectual. Primeiro houve o sábio individual, aquele cujo conhecimento era elaborado em comunhão integral com a Natureza total. Era uma busca localizada, talvez inconsciente, de universalidade. O sábio individual foi substituído pelas corporações de sábios, nas escolas e nos conventos: o saber se tornava um atributo específico de um grupo treinado para exercê-lo. Chega-se, depois, com as Universidades, a figura do “scholar”, mistura de professor e pesquisador, pago pela sociedade como um todo pra “produzir” livremente o saber, isto é, codificar, do seu ponto de vista, o saber coletivo, inventar, individualmente, novos saberes, ou simplesmente fabricar um conhecimento a ser transferido à comunidade como educação. Mais recentemente, essa figura do “scholar” foi parcialmente substituída pela dos “funcionários da educação”, sem maior compromisso com a pertinência dos temas.
Os sábios, as corporações de sábios, assim como as produções de um saber desinteressadas e verdadeiras acabam se tornando coisa rara, quando a ciência, como serviço às coisas, matou a filosofia como serviço ao homem. O sábio é substituído pelo erudito, o cientista pelo mero pesquisador, o intelectual pelo profissional, se a grande preocupação não é mais o encontro e o ensino da verdade, em todas as suas formas, mas uma atividade parcelada, dominada por um objetivo imediato ou orientada para um aspecto redutor da realidade.
Em tais circunstâncias, a Universidade corre o risco de abandonar a busca do saber abrangente, substituído pela tarefa de criação e de transmissão de um saber prático. Esse saber prático elaborado fora da Universidade pelas grandes firmas e dentro da Universidade por sua inspiração direta ou indireta é subordinado a objetivos externos à busca do conhecimento verdadeiro. Daí o papel, hoje determinante, das Fundações corporativas internacionais, na produção e na circulação das ideias. Veja-se, também, nas ciências sociais, o papel das redes, financiado por convênios internacionais, tanto mais exitosos, no geral, quanto menos relevantes são os seus objetivos. A função desse pseudo-conhecimento – fabricado por encomenda – é construir , sob o selo do cientificismo, um discurso universitário cujo pecado de origem elimina a possibilidade de o associar à noção de verdade científica.
De um modo mais ou menos geral, a Universidade aceita esse papel sem glória de produzir um conhecimento comprometido, acorrentado ao que hoje se chama “o prático”, “o objetivo”, “o pragmático”, vocábulos que ganharam um novo contexto para significar o que é capaz de dar maior lucro, seja como for. Por isso, a Universidade é chamada a realizar uma produção comercial do saber, um conhecimento adredemente planejado como um valor de troca, destinado desde a sua concepção (que é inspirada, cada vez menos, nas Universidades e cada vez mais nas grandes firmas) a criação de um valor mercantil. O conhecimento assim produzido é uma mercadoria, sujeito à lei do valor econômico.
É um mundo de cabeça para baixo que as Universidades estão ajudando a criar e a difundir, onde o meio passa ele mesmo a ser um fim. Quando a Universidade se transforma em uma oficina do utilitarismo, ela é, ao mesmo tempo, esterilizada e esterilizante. Torna-se um corpo morto e um corpo morto não cria coisa alguma. O conhecimento produzido como meio de produção nasce para morrer quando se torna funcional. É o saber do fazer coisas, um processo finito. Ora, a busca do conhecimento é um processo infinito, o processo de criação que é, ele mesmo, recriador. O seu centro de interesse é no homem e não nas coisas.
Quando a Universidade decide institucionalizar a primazia outorgada ao estritamente técnico sobre o mais amplamente filosófico, entroniza o instrumental e minimiza o teleológico. Quando as ciências, quaisquer que sejam, são tratadas como se não devessem ter uma filosofia própria, integradora, os objetos são colocados acima do homem. A Universidade que cria e difunde esse tipo de saber entre aspas perde seu conteúdo e sua finalidade, e os professores e alunos vão trazendo coisas, mas não sabem mais exatamente o que estão fazendo. Por isso, ao mesmo tempo em que s disciplinas chamadas científicas afundam num imediatismo confrangedor ou numa futurologia cega, as ciências sociais e humanas são subalternizadas, reduzidas a um papel de justificação ou de codificação de uma interpretação unilateral da sociedade.
Essas tendências gerais, hoje comuns a quase todas as Universidades, em quase todos os países, são resultado do fato de que o saber se transformou numa força produtiva direta. Como ao mesmo tempo a economia se internacionalizou, o sabermercadoria tinha que acompanhar a tendência, razão pela qual as universidades, por iniciativa própria ou por contaminação, aceitam seguir essa mundialização unilateral. Adotando um modelo externo às realidades nacionais ao serviço da produção das coisas, elas se tornam medíocres, graças, também ao desajustamento entre um saber cada vez mais transferido e as realidades profundas das nações, e graças a contradição entre os meios, universalizados pelas necessidades produtivas de caráter internacional, e os fins próprios a cada coletividade nacional, minimizados estes por uma globalização perversa e uma informação internacional igualmente perversa.
Sob esse ponto de vista, a situação dos países do Terceiro Mundo é dramática. Porque o saber já chega de fora incorporado nos objetos, na tecnologia, no “management” e inclusive nos “scholars” importados, ainda que haja exceções. Nessa situação, a produção de um saber nacional autêntico torna-se assim dispensável. É exatamente por isso que as ciências sociais deveriam voltar a ganhar dimensão, pelo fato de que são os esquemas sociais de uso das técnicas e dos objetos que alicerçam o discurso de justificação das novas dependências e desigualdades. O esforço dos países subdesenvolvidos, como o nosso, deveria, pois, se orientar principalmente na direção do estudo das suas próprias realidades sociais como um todo. Esse, desgraçadamente, é também um domínio onde a imitação passou a ser uma regra e a mania dos títulos (mestria, PhD, etc) substitui, nas universidades burocratizadas, o saber genuíno.
A universidade internacionalizada “a priori” só serve a alguns, cada vez mais numerosos. Porque, não sendo universal, também não é propriamente Universidade.
Mas não seria justo concluir com uma rota pessimista. Com todos os seus defeitos atuais, tão parecidos em quase todo o mundo, as Universidades geram o veneno e o antídoto, mesmo se em doses diferentes. Lugar de um saber vigiado e viciado, elas são, também, e ainda, o único lugar onde o contra-saber tem a possibilidade de nascer e às vezes prosperar. Isto pode ser o resultado de esforços, de cientistas pioneiros, agrupados ou não. Mas para guardar e manter o pensamento independente, é indispensável que a instituição universitária aceite desinstitucionalizar-se, caminho único para evitar que o excesso de regras e de mandos acabe por esterilizar as suas possibilidades de um trabalho realmente livre, voltado para o interesse geral.
A tarefa de incorporar a Universidade num projeto social e nacional impõe primeiro a criação e depois a difusão de um saber orientado para os interesses do maior número e para o homem universal. Devemos estar sempre lembrados de que o internacional não é o universal. O trabalho universitário não é propriamente uma tarefa internacional, mas precipuamente nacional e universal, dependendo, desde a concepção à realização efetiva, da crença no homem como valor supremo e da existência de um projeto nacional, livremente aceito e claramente expresso. É a tarefa que nos aguarda.


[1] Discurso proferido por ocasião da concessão do Título de Doutor Honoris Causa, conferido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro no dia 24 de setembro de 1999. Publicado no Anuário do Instituto de Geociências - UFRJ Volume 23 / 2000. Milton Santos era Geógrafo, reconhecido internacionalmente e agraciado em 1994 com o prêmio Vautrin Laud, considerado como o Nobel da Geografia. Milton Santos faleceu em 24 de junho de 2001.

http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2015/06/para-sempre-na-memoria-relembrancas.html




quinta-feira, 2 de março de 2017

NOVOS RUMOS PARA A UFG

Íntegra da entrevista com o Professor Romualdo Pessoa, concedida ao Jornalista Renato Dias - Jornal Diário da Manhã. Publicado no dia 27 de fevereiro de 2017, pág. 11.
Acesse para ler o que foi publicado: https://impresso.dm.com.br/edicao/20170227/pagina/11

Diário da Manhã - Quando serão as eleições para reitor na UFG?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Ainda não está definida a data. Aliás, acho estranho isso, visto que a última eleição ocorreu em um mês de junho. Receio que exista a intenção de reduzir o tempo de campanha, e dessa forma encurtar os meses para impedir um debate mais aprofundado sobre os problemas da UFG. Esse é o problema que venho criticando, a ausência de debates nas duas últimas eleições criou vícios e tornou a universidade conformada com seus problemas e imaginando que as coisas se resolvem por consensos, ou pela ausência de maiores discussões onde o contraditório possa ser ouvido.
DM - Romualdo Pessoa Campos Filho é candidato?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Desde o ano passado lancei minha candidatura, e o fiz com esse tempo para tentar acelerar esse processo. Mas tudo indica que não há interesse do grupo que está à frente da administração da universidade em dedicar um tempo maior para debater problemas que são cruciais para a universidade, bem como para nos indicar as reais condições em que a UFG se encontra. Sabemos que há redução nos investimentos, em função dos cortes efetuados pelo governo federal, mas precisamos saber o grau de endividamento da Universidade e como nós ficamos diante desses cortes. O que tinha sido empenhado, em termos de ampliação e investimentos e o que de fato a universidade esperava receber de dotação orçamentária. Creio que houve uma superestimação da realidade econômica que vivíamos e uma subestimação da eminência de uma forte crise política que poderia dificultar na sustentação do crescimento que foi proposto.
DM - Qual a sua plataforma?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Transformar a universidade. Dar um choque de realidade na comunidade universitária, que se viu transportada de um otimismo exacerbado para um pessimismo preocupante. Entre uma perspectiva desejada, e que se afirmava, e uma realidade preocupante com escassez de recursos, há uma capacidade estabelecida em nossa universidade. Nos últimos anos houve um forte investimento na capacitação do quadro de professores o que levou a um acréscimo do número de doutores. Temos também um número considerável de técnicos administrativos capacitados em nível superior e também pós-graduação. Precisamos, no entanto, saber lidar com uma realidade diferente daquela que vínhamos convivendo, motivado por um discurso ufanista que de certa forma tinha lastro nos projetos do governo federal que investiu muito na expansão do ensino superior. Mas a universidade perdeu um pouco de sua característica, se isolou da sociedade e houve certa fragmentação do conhecimento e distanciamento das áreas. Precisamos tornar a UFG mais coesa, reforçar suas competências, buscar outras formas de parcerias desde que não afete a sua condição de instituição pública, gratuita e de qualidade. E, principalmente, ampliar o debate e as discussões sobre os problemas nacionais e regionais.
DM - O que fazer com o congelamento dos gastos públicos por 20 anos?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Lutar! E essa é uma característica que carrego ao longo de minha história na UFG. E quando falo lutar, me refiro a essa coesão que falei na questão anterior, fazer também com que a universidade seja vista como uma referência importante para o desenvolvimento do estado de Goiás e por isso criar um sentimento forte de defesa dessa instituição, e ao mesmo tempo procurar reforçar o apoio de parlamentares na garantia de que a universidade pública brasileira é o principal canal de produção  de conhecimentos, desenvolvimento da ciência e de possibilidade de incentivar cada vez mais inovações. Além da sua característica precípua, de formar jovens bem habilitados para exercer com competência e ética suas profissões. Essa medida de congelamento dos recursos, ampliados somente pelo índice da inflação, que pode chegar a zero caso a crise se acentue e tenhamos uma deflação, coloca em risco todo o processo de fortalecimento do ensino superior colocado em prática desde os primeiros anos deste século. Pode vir a ser um retrocesso histórico, que demandará muitas outras décadas para que a universidades possam se recompor. Para evitar isso somente com muita luta e com uma universidade que saia da comodidade em que ela se encontra. Vai ser preciso nos unimos na defesa da nossa instituição. Pretendo ser o condutor desse processo, somando ao meu lado uma equipe competente e, logicamente, toda a comunidade universitária.
DM - Como democratizar a UFG?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Creio que a Universidade é uma instituição aberta e democrática e que avançou muito em um quesito que dificultava vê-la dessa maneira: a inclusão. Adquirimos ao longo de nossa história, e com muita luta, essa característica que nos diferencia de outras instituições. Mas ainda padecemos da ausência de autonomia. Creio que essa seja uma luta que deverá ser travada com muita força nos próximos anos, por questões conjunturais. Mas tenho a lamentar que tantos anos de governos progressistas isso não tenha avançado e ficamos submetidos às imposições de órgãos externos que limitam as ações administrativas da universidade e analisam questões sob pontos de vistas completamente alheios à nossa formação e às nossas condições de uma instituição que se caracterizou nos últimos anos por ser o centro da pesquisa brasileira.
DM - Qual a sua análise da Reforma da Previdência anunciada por Michel Temer?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Terrível. Esse governo, como também em parte o anterior, da presidenta Dilma, embora com perfis bem diferentes no enfoque das questões sociais, cometeram o erro de mirar no alvo errado. Os problemas da previdência não são os trabalhadores, são os sonegadores. Essa é a razão dos desequilíbrios. A proposta em discussão no Congresso é de uma perversidade enorme. Praticamente inviabiliza as pessoas de se aposentarem com salários integrais. São muitos aspectos nocivos para as pessoas mais pobres, principalmente, e para as pessoas que vivem no campo. Creio que seja mais uma medida para nos empurrar para a procura por previdência privada e desobrigar o Estado de cumprir um requisito que há décadas vem garantindo um mínimo de dignidade aos trabalhadores que chegam à velhice. Além de ser um elemento a mais para ampliar a crise financeira de muitos municípios que sobrevivem em grande parte com uma economia que depende dos recursos dos aposentados e pensionistas. Vai ampliar o fosso das desigualdades sociais e gerar mais crises. Mas tenho dúvidas se ela passa da maneira como está, pois pode significar um suicídio político para os parlamentares que aprovarem nas condições apresentadas.
DM - A Reforma Trabalhista pode afetar a UFG?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Sim, pode afetar em diversos aspectos, mas eu destacaria aquele que sempre é citado pelos setores conservadores: a estabilidade do servido público. Se isso acontecer ficaremos sujeito aos humores de governos que podem perseguir servidores jogando-lhes a peça de ineficientes e incompetentes. Aliás, algo que já tem sido feito e penetra no inconsciente de muitas pessoas. Temos que sempre melhorar a nossa competência e capacidade de prestar um bom atendimento à sociedade, com níveis de excelências. Isso é uma coisa, outra é atribuir ao serviço público os problemas que surgem. Certamente esse será um dos alvos dessa reforma. Mas, naturalmente, lutaremos intensamente junto com a sociedade para que isso não aconteça.
DM - O que fazer para expandir os cursos da instituição?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Penso que o momento que estamos atravessando aponta para a necessidade de focarmos no fortalecimento dos cursos que já existem e na melhoria da qualidade. É necessário fazer uma grande discussão na Universidade sobre a importância de fortalecimento da graduação sob todos os aspectos, mas principalmente dos cursos de licenciatura. Há um fosso enorme em nossa relação com a sociedade, no compromisso de garantirmos não somente profissionais de qualidade, mas em quantidade suficiente para atender a demanda que existe. Refiro-me aqui que a quantidade dos que entram seja igual ou bem próxima com a dos que saem. Por uma série de fatores ampliou-se muito o número de evasão de estudantes que abandonam esses cursos no meio de sua trajetória. Mas isso não afeta somente cursos de licenciatura, embora nesses a situação seja mais grave. Afeta também até mesmo cursos bem procurados e com penetração no mercado. Um dos problemas está relacionado ao ENEM, que possibilitou uma forte mobilidade, mas que isso tem sido pouco debatido na universidade. Isso torna a universidade mais cara, na medida em que o número de professores em relação a alunos vai se ampliando. E fica mais sério quando alguns cursos não conseguem sequer preencher todas as vagas e leva a um diagnóstico que é muito ruim, de ter que fechá-lo. Isso é preciso ser tratado com bastante seriedade, e é o que faremos.
DM - O senhor é favorável às cotas raciais?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Sou favorável, mas prefiro o termo “cotas sociais”, mesmo se consideramos que a população negra seja foco desses programas. Mas a situação do negro em nossa sociedade é um problema social, oriundo da nossa formação colonial escravista. O fim da escravidão, e como isso se deu, jogou a população negra na periferia e fechou a possibilidade de sua inserção na sociedade. E isso se repetiu dramaticamente por décadas e séculos. Há, naturalmente, uma necessidade de resgate de uma enorme dívida histórica com aqueles que carregam consigo os traços étnicos da negritude. Por isso sou favorável, mas não como uma solução definitiva do problema de inclusão social. E nisso vejo um equívoco nas ações desenvolvidas pelos governos, quando não investem o que é necessário para elevar a qualidade do ensino público fundamental e médio. Portanto, como se diz popularmente, “o problema é bem embaixo”, está na base, na forma como as crianças pobres se inserem nas escolas e o tipo e modelo de escolas. Defendo, como muitos cientistas, que o termo “raça” seja abolido em definitivo. Creio que formamos uma única raça, composta por inúmeras etnias. O termo “raça” tem um componente político ideológico sempre utilizado para descaracterizar e menosprezar aqueles que tiveram seus antepassados explorados perversamente. Mas entendo que os grupos negros usem essa expressão para explicitar uma valorização de sua cor e tradição, e porque também tradicionalmente o seu uso está disseminado até mesmo nas populações que são oprimidas.
DM - Edward Madureira é candidato?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Tudo indica que sim. Mas isso tem sido dito em reportagens sem a afirmação ainda definitiva dele. Imagino que essa seja uma tática do grupo que o apoia e está na reitoria. É uma tentativa de protelar a definição de candidatos e assim demorar na definição da data pelo Conselho Universitário. Algo que já deveria ter sido feito, mas ao que parece a demora se deve a uma provável redução do tempo de campanha. Há uma nítida recusa por um tempo razoável de campanha para que tenhamos um debate profícuo. Mas pretendo levar o debate a todos os cantos da universidade, independente dessas manobras. Debaterei com a comunidade universitária e com outros candidatos, que já se manifestaram ou poderão surgir.
DM - É mais do mesmo?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Sem dúvida. É a continuidade de um modelo de administração que, ao meu ver já se esgotou.  Se baseou em farta dotação orçamentária, mas que excedeu os limites ao final do mandato, e deixou dificuldades para a gestão do seu ex-pró reitor de administração e atual reitor. Vamos procurar saber as condições em que a Universidade se encontra e se isso se deveu aos cortes de verbas ou aos investimentos feitos em final de mandato, endividando a universidade e gerando um enorme passivo que não pode ser quitado quando os cortes aconteceram, ainda no primeiro ano do segundo governo Dilma. Precisamos agora de outro modelo de gestão, focado na consolidação do que já existe na universidade e na melhoria da qualidade, para elevá-la ao nível de excelência e incluí-la entre as dez melhores universidades públicas do país.
DM - Qual o seu programa para os estudantes?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Se há um setor que pretendo dedicar uma enorme atenção é a graduação. Creio que nesses anos tenha sido essa a área da universidade que menos teve atenção da reitoria. Imagino que qualquer universidade brasileira que queira se destacar deve investir na qualidade dos cursos de graduação. Ter bons alunos de graduação é condição sine qua non para termos bons profissionais e bons pós-graduandos. Quanto às demandas dos estudantes, por meio de suas entidades, não terei nenhuma dificuldade de lidar com isso, porque carrego em minha formação o orgulho de ter participado ativamente do Movimento Estudantil, desde o Centro Acadêmico até à União Nacional dos Estudantes. Saberei manter um diálogo permanente com as entidades e movimentos que na UFG defendem os interesses dos estudantes e atuam também no âmbito das políticas mais gerais, repeitando suas formas de se organizarem e atentos à suas demandas.
DM - O que o senhor propõe para os professores da UFG?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Eu acredito que o que precisamos nos próximos anos é manter e consolidar uma estrutura de universidade que garanta aos professores exercerem com tranquilidade suas atividades didáticas e de pesquisa. As dificuldades serão visíveis e irá requerer muita luta e determinação para garantir isso. Daremos todo apoio à busca de alternativas para atrair mais investimentos para pesquisa na Universidade, seja por meio do incentivo à participação nos editais ou na ampliação e fortalecimento das parcerias com o Estado e com a iniciativa privada. Uma coisa que me preocupa também é a condição de saúde de boa parte dos professores, submetidos a uma enorme pressão causada pelos prazos que existem seja para concorrerem a editais ou para prestação de contas de seus projetos, bem como pelo desejo de produzir artigos para publicação, tudo isso aliado à necessidade de ministrar aulas na graduação e pós-graduação. O cotidiano dos professores, mesmo quando a dedicação é feita de forma prazerosa, e creio que o é em sua maioria, é bastante estressante, e geradora de enfermidades. Estar em condições saudáveis é a melhor maneira de aumentar a produtividade na universidade. O excesso de burocracia é um empecilho a ser encarado, pois é um elemento a mais a exercer pressão sobre os professores, e a universidade tornou-se excessivamente burocrática. Iremos combater isso.
DM - Qual a receita para os servidores?

Romualdo Pessoa Campos Filho – Creio que é preciso dar o valor necessário ao trabalho que os técnicos-administrativos desempenham na Universidade, em diversos setores. Mas pretendo valorizar mais ainda esse segmento, por meio de incentivos à qualificação até ao doutoramento. Irei na UFG iniciar um processo de estudo para a aplicação de horários corridos, com a adoção das 30 horas semanais, mas isso sujeito à análise de cada setor. Há limitações ao reitor nesse quesito, mas lutarei no âmbito da Andifes para que essa seja uma medida a ser adotada em todas as universidades. Já existe atualmente uma diferenciação entre os técnicos, devido à decisões judiciais. E farei isso tanto para atender uma demanda da categoria, como para facilitar o próprio atendimento na Universidade, principalmente a fim de garantir aos estudantes do curso noturno acesso a setores que ficam fechados nesse período. A valorização dos servidores técnicos administrativos é também uma condição para o bom funcionamento da UFG. Isso, certamente, será feito de forma a extrair o melhor da competência de cada um, e assim construir uma instituição que funcione harmonicamente entre os seus segmentos.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

NESTE ANO A UFG VAI DEBATER SEU RUMO. EU ESTAREI FIRME NO PÁREO. SOU CANDIDATO A REITOR.

Íntegra da Entrevista com o Prof. Romualdo Pessoa, publicado no Jornal do Professor, da Adufg-Sindicato, nº 36 – Janeiro/fevereiro de 2017.
Eleição da Reitoria da UFG – “Quem disputar comigo virá para o debate” – Prof. Dr. Romualdo Pessoa

O professor já se colocou à disputa lançando seu nome.
Romualdo Pessoa - Sim, eu quis fazer com certa antecedência porque a universidade vem de dois processos eleitorais em chapa única, tanto na reeleição do professor Edward como a eleição do professor Orlando. A universidade cresce em debates e discussões e esses dois processos foram frágeis pela ausência de um aprofundamento das questões que estavam postas em cada um desses momentos. Quem vier a disputar a eleição junto comigo deve vir com esse espírito para debater aquilo que propor para a universidade.
O que o motiva, inicialmente, então é essa necessidade do debate?
É um diagnóstico que eu tenho sobre a maneira como a universidade tem funcionado. A UFG recebeu muitos recursos em seu processo de expansão, acentuado e acelerado. Os governos Lula e Dilma destinaram montantes significativos, que foram aplicados em laboratórios e diversos cursos de pós-graduação, o que era necessário, mas por outro lado isso criou ilhas isoladas de saberes. A universidade carece de uma relação maior entre as diversas áreas. Essa situação de projetos isolados, a meu ver, não é um projeto de universidade. Ela tem que ser um todo. O processo de expansão gerou isolamento e competição entre diversas áreas. Muitas áreas de pesquisas que não são ligadas ao mercado acabam fragilizadas. Há um desequilíbrio nesse processo e precisamos discutir isso. Por último, houve uma acomodação em se pensar de que maneira esses recursos seriam melhor aplicados, de que forma o processo de expansão seria sustentado nos anos seguintes. Faltou uma discussão sobre isso e nesse momento, com recursos muito menores, em função das condições políticas e econômicas do país, é preciso refletir sobre o modelo de universidade que queremos. Uma universidade com foco nos cursos com mais aceitação no mercado ou uma universidade mais reflexiva, crítica, tolerante com as concepções diferentes e mais sintonizada com as questões da sociedade?
Fale mais sobre essa acomodação.
É sobre o perfil da universidade. Universidade para quê, para quem? É uma universidade inclusiva mas que perde sua capacidade crítica. O processo de inclusão não veio acompanhado de um processo que reflita a realidade brasileira. Um desequilíbrio entre cursos mais focados no mercado e as licenciaturas, o que possibilitou uma grande evasão em cursos fundamentais para a sociedade e para a preparação de jovens que ingressarão na universidade. Há um desequilíbrio também porque, na medida em que houve muito recurso para pós-graduação e pesquisa – as próprias contratações de professores tinham como foco fortalecer a pós-graduação – houve uma fragilização da graduação, principalmente em cursos necessários para os ensinos médio e fundamental.  Precisamos refletir sobre o perfil do formando que oferecemos para a sociedade. Acomodação é se contentar com o fato de que muitos recursos foram destinados à universidade sem discussão do perfil dessa universidade. Não houve grandes debates mesmo num dos momentos mais críticos, que foi essa transição política dos últimos tempos. A universidade não contribuiu com a discussão, nem internamente. A consequência disso foi o crescimento de um processo de intolerância também dentro da universidade, de não aceitação de opiniões diferentes e de imposição de ideias. Isso se choca com a própria razão de ser da universidade, que por essência tem que ter concepções divergentes, que tem que ser aceitas e debatidas. Não se pode impor pela força. E nos últimos anos é o que vemos, inclusive uma perda de autoridades. Tanto de dirigentes como de professores, houve agressões nesse processo todo. Carecemos de uma reformulação, retomada de rumo, naquilo que nos faz universidade, uma noção de totalidade, de necessidade de interação entre as diversas áreas e na capacidade criativa. Só a pesquisa não basta. É preciso extrair algo de novo, de inovador. Muitas teses reafirmam o que já foi dito, mas não dão passo além do que é investigado. Precisamos estimular a juventude a ser criativa e inovadora, e não há como isso acontecer se não analisarmos criticamente e com liberdade de criação.
O professor tem sido crítico a possibilidade de lançamento do nome do professor Edward. Por quê?
As gestões do professor Edward foram produtivas, principalmente quanto à expansão, o que decorreu do momento que o país viveu. Todo sistema universitário se expandiu aceleradamente, tanto institutos tecnológicos quanto universidades. Mas eu questiono a reeleição. Eu sou candidato para quatro anos. Nossa função maior na universidade não é ser dirigente ou gestor, mas ser professor. Professor Edward foi candidato a reitor com a proposta de não ser reeleito e terminou reeleito. Saiu para ser candidato a deputado federal pelo PT, não logrou êxito. Um retorno do professor Edward seria a continuidade de oito anos de gestão com mais quatro do professor Orlando, que saiu do mesmo grupo. Eu não me lembro, de todo tempo que estou na universidade, desde minha militância estudantil até hoje, de situação parecida. Um professor eleito, reeleito, que volta e que pode ser candidato a um quarto mandato. Mesmo que ele diga que não será novamente candidato à reeleição, não podemos saber, porque ele falou na primeira vez que foi candidato. Isso é ruim para a universidade.
Por quê?
Porque reforça a crítica que me faz candidato, tirar a universidade da acomodação em que ela se meteu. Aquilo que eu chamo de "normose", a doença da normalidade. Aceitamos determinadas situações como normais quando elas não são normais. Depois é que percebemos equívoco de não renovar, não mudar. A mudança faz parte da essência da universidade. Além disso a manutenção de um mesmo grupo por mais de uma década no controle cria vícios, burocratiza excessivamente determinados cargos, que são inclusive repetidos para as mesmas pessoas e não dá oportunidade para avançar. Precisamos avançar naquilo que já foi constituído. Por uma dificuldade de gestão de quem lhe sucedeu, e não encontrando nomes a altura para o processo eleitoral, volta o professor Edward, que foi reitor num momento de vacas gordas, para ser uma espécie de salvador da pátria? A universidade não precisa de salvador da pátria, uma questão inclusive em discussão no país. Precisamos de coragem para discutir nossos problemas e as condições em que esses problemas foram criados. Apesar de toda expansão, muitos problemas se originaram na maneira como se deu a gestão nesse período, inclusive nas relações internas da universidade, em que perdemos muito da autoridade e da liturgia de determinados cargos.
Que problemas, por exemplo?
As invasões(*) da reitoria, a humilhação ao próprio reitor em determinadas situações, agressões a professores. Em determinados momentos é necessário usar o estatuto da universidade para que não percamos o controle. Gerir bem a universidade evidentemente depende de uma equipe competente para isso e da capacidade de gerir pessoas, mas acima de tudo de liderança. A universidade carece de liderança, elemento fundamental. Não é só liderança na figura do reitor, mas também daqueles que estão à volta do reitor e daqueles que estão nos departamentos, unidades. Tem faltado muito assumir responsabilidades. Há um excesso de democratismo na universidade e de burocracia. O fato de a autoridade não assumir suas responsabilidades e delegar a autoridades inferiores as discussões com seus pares, para dali tirar uma opinião (inferiores no sentido de estarem abaixo hierarquicamente). Esse processo é longo e termina se perdendo. Há determinadas situações em que você precisa dar respostas imediatas. Se você não dá, a situação foge do controle. Isso tem acontecido nos últimos anos, tanto na gestão do professor Orlando como nas gestões do professor Edward. Considero também criar um gabinete de crises, para acompanhar as demandas que existem em todos os setores da universidade.
(*) Há questionamentos sobre o uso do termo “invasões”, em detrimento a “ocupações”. Quando de minha militância no movimento estudantil não tínhamos ressalva ao termo “invasão”, mas não ocupávamos por tempo indeterminado os espaços na universidade. Entendo a preocupação dos movimentos em estabelecer uma diferença, sob argumento que esses espaços são públicos. Mas discordo da estratégia adotada e fui franco nessa avaliação em minhas aulas, embora tenha respeitado e dado apoio às ocupações, até que houve a invasão da Assembleia dos professores e as agressões que se seguiram. A partir daí me mantive afastado.
JP – Qual avaliação o professor faria da gestão Orlando?
Ele pegou a UFG numa situação complicada, em função de débitos da gestão anterior, do professor Edward e num momento em que aconteceram cortes de orçamento, ainda no governo Dilma. Isso criou muita dificuldade de gestão, o que demandou muita habilidade não só em gerir recursos, mas habilidade política para conseguir novos recursos. E creio que um aspecto que poderia ter sido melhor conduzido na gestão do professor Orlando foi nos momentos de crise interna na universidade, em que equivocadamente alguns grupos internalizaram as lutas, quando elas deveriam ser externalizadas. Faltou um pulso mais firme nessas situações. O diálogo foi aberto, mas é inadmissível que determinados grupos ajam com radicalidade e sectarismo quando uma gestão se abre ao diálogo. E há um limite para o diálogo. A partir do momento em que a atitude radical não dialoga mais é preciso agir com autoridade, exercer o que está contido no estatuto da universidade. Faltou isso em alguns momentos, principalmente nas primeiras invasões, o que levou essas situações se repetirem e quase fugiram do controle. Houve uma preocupação justa do professor Orlando para que não houvesse confronto de manifestantes com forças policiais, mas essa situação chegou ao ponto de quase haver necessidade de tropas dentro da universidade porque o problema não foi resolvido no começo. Ademais, a liderança não se faz no gabinete, mas na presença cotidiana em todas as partes da universidade, é preciso se antecipar a determinadas situações e estabelecer um diálogo frequente e presente nas unidades no ano inteiro. Ter contatos com professores e técnicos, saber de suas demandas, não esperar que os sindicatos peçam audiências. E também dos estudantes, que são diversos grupos, que se formam por demandas específicas, de gênero, de questão racial, de problemas sexuais. Grupos que fazem com que o movimento não tenha um centro único e as entidades estudantis sozinhas já não mais representam todos esses segmentos, porque inclusive alguns deles não querem. É preciso saber o que está acontecendo, o diálogo deve ser permanente. Conhecendo essas demandas e procurando resolvê-las, demonstrando a esses movimentos e entidades que há interesse em resolver essas questões, é evidente que você desarma qualquer ação mais radical. O reitor tem que percorrer mais a universidade.


Quando eu estava finalizando a organização e revisão do texto dessa entrevista, publicada em parte no Jornal do Professor da UFG, tomei conhecimento de uma reportagem publicada em um tabloide semanal de Goiânia, onde, de forma capciosa tenta desqualificar e estigmatizar minha candidatura, em detrimento de um nítido apoio a outro candidato a reitor, que somente agora se declara como candidato, embora já tenha sido reitor por duas vezes. Imediatamente, indignado, compartilhei nas redes sociais uma resposta me contrapondo veemente a esse tipo de ardil, em que se utiliza o péssimo jornalismo para confundir, em vez de informar honestamente. Reproduzo essa resposta abaixo:
AVISO A JORNALISTAS DESAVISADOS E/OU MAL-INTENCIONADOS: NESTE ANO A UFG VAI DEBATER SEU RUMO. E EU ESTAREI FIRME NO PÁREO.
Que tipo de jornal e jornalista escreve uma reportagem, te cita e dá informação categórica sobre você, sem lhe ouvir e saber se aquilo que diz respeito a você e a sua posição, é verdade? Certamente é daquele tipo que não merece crédito, e o que publica segue a linha do chamado “jornalismo chapa branca”, que somente apresenta a versão de candidatura oficial, não sei se pago ou por questões ideológicas. Em um caso ou outro não é jornalismo, é do típico tabloide que não está preocupado com isenção ou com verdade. Estou falando de reportagem publicada por um semanário goiano, que nitidamente faz propaganda de uma candidatura apresentada como a de um “salvador da pátria”, e alega que a minha candidatura a reitor “tende a sair do páreo”. Já postei  aqui que existe uma central de boatos, que esse tabloide repercute, tenta usar a tática de repetir uma mentira várias vezes para que assim ela se passe por verdade. Vou reafirmar aqui e peço aos amigos e amigas que compartilhem até chegar a esse despreparado jornalista e ao seu tabloide: minha candidatura é irreversível, e não faz parte de nenhum jogo, que não o objetivo de tirar a universidade da mesmice e da “normose”, da aceitação de imposição de nomes que julgam se perpetuar no comando da instituição. Se alguém se julga “salvador da pátria”, no caso, da Universidade, vamos tentar descobrir do que é preciso salvá-la. Ou seja, o que fizeram da UFG nos últimos anos que precisa ser salvo. Quem o fez? Que obsessão faz com que alguém julgue precisar retornar para “salvar” a UFG, depois de tê-la dirigido (de perto ou de longe) pelos doze últimos anos? Essas serão boas indagações para os debates que ocorrerão, para sabermos que universidade queremos. E creiam, reprodutores de boatos travestidos de jornalistas, eu estarei pronto para debater e discutir esses e outros problemas. A UFG não tem dono, e a comunidade universitária, professores, técnicos administrativos e estudantes, demonstrarão isso. Podemos fazer em nossa universidade algo diferente do que é feito nas disputas eleitorais tradicionais. E o primeiro critério é não faltar com a verdade. Estamos na luta! Porque É PRA FRENTE QUE SE ANDA!”


LEIA TAMBÉM:
http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2016/10/minha-vida-se-completa-na-ufg-sigo-por_13.html
http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2015/05/quem-e-voce.html
http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2015/03/universidade-um-paquiderme-com-pes-de.html


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE – CAPITALISMO, UM SISTEMA FINITO (PRÓLOGO)

Em janeiro de 2012 escrevi uma série de artigos para este blog, que intitulei “Crônica de um Mundo em Transe”[i]. Foram seis artigos, ou cinco partes e um final. Mas não houve um fechamento definitivo, até porque a última parte, em que analisei uma nova etapa da guerra travada pelo Império, denominada “guerra ao terror”, com a substituição de tropas por um serviço de inteligência, espionagem, mais efetivo e sofisticado tecnologicamente, posto em prática com a introdução de uma novidade surgida da indústria da guerra e que predomina atualmente em diversas áreas por todas as partes do mundo: o uso dos drones. A partir dos anos seguintes, esse aparato tornou-se mais sofisticado e os assassinatos “cirúrgicos”, de enormes efeitos colaterais, dizimaram um número indefinido de vítimas, “terroristas” ou não. Isso me fez insistir na análise de como as ações desenvolvidas intensivamente para destruir e desestabilizar os inimigos do império por todo o mundo, onde isso fosse possível, tornaria a humanidade mais vulnerável e espalharia ódio e intolerância de forma indiscriminada. De lá para cá o mundo mudou, e para pior. E, ao invés de reduzir as guerras, ampliou-as e deu poder aos grupos sectários, disseminando mais ainda ações terroristas, que não ficaram restritas ao Oriente Médio e África, mas que atingiu duramente a Europa e até mesmo os EUA, apesar de todo aparato repressivo e de vigilância.
A crise econômica mundial se intensificou, tornou-se cada vez mais crônica, porque é de origem estrutural, e disseminou uma onda de perversidade gerada pela necessidade das classes dominantes retomar o curso dos acontecimentos, de forma a reestruturar o capitalismo e tentar tirá-lo de uma das piores crises de sua história. Tudo isso alimentou uma reação conservadora, potencializada pelas redes sociais, onde cada um individualmente, se sentindo uma voz “libertadora” em meio a uma multidão virtual, descarrega sua opinião apolítica, anti-política, políticamente incorreta, e absolutamente estúpida. São minhas impressões, feitas a partir de análises geopolíticas, mas sustentadas por uma ótica que me coloca em contraposição com os mecanismos criados pelas forças que dominam os mercados, as corporações, e as políticas que definem os rumos loucos de um mundo em transe.
Minhas análises decorrem de leituras acuidadas, de concordâncias com diversas opiniões[ii] manifestadas em blogs, revistas, livros e em documentários produzidos nos últimos anos, e muitos premiados, que retratam com bastante fidelidade o desequilíbrio na política mundial, provocado por uma estratégia que se dissemina há décadas, desde o começo da guerra fria, mas que nos últimos anos atingiu o limite da estupidez. Como já disse em outros escritos neste blog, apesar de toda a loucura existente por trás das ações geopolíticas dos EUA e seus aliados, houve uma nítida intencionalidade em cada uma delas, no sentido de desestabilizar dezenas de países, por meio de provocações de insurgências internas com o consequente esfacelamento de seus governos. Em alguns casos, a guerra civil foi fomentada quando alguns governos resistiram às pressões populares, insuladas por grupos organizados financiados por ONGs e alguns grupos que surgiam seguindo-se uma estratégia de deslocar o protagonismo dos partidos e tornar a política desmoralizada. Sem a capacidade política de estabelecer acordos, a regra que se segue é a guerra. E isso se dá de diversas maneiras, desde o enfrentamento bélico, gerador de destruição acelerada, como aconteceu na Síria; ou por meio da disseminação entre a população da desesperança, da descrença e da propagação do ódio e intolerância, tornando o país ingovernável, nos dois casos.
O desequilíbrio que atinge mundo, decorre de uma crise que teve seu ápice entre os anos de 2008 e 2010, mas que não pôde ser solucionada até hoje, gerando uma onda de insatisfação por todo o mundo e possibilitando que discursos ultranacionalistas antiglobalizantes apresentem como alternativas personagens anti-políticos, ou de comportamentos populistas e fascistas. A derrota da política dissemina-se para além das fronteiras e desconhece os poderios econômicos dos países por onde ela se espalha.
A partir de 2010 uma série de revoltas, fomentadas propositadamente afetaram diversos países, mas também ocorreram como decorrência da forma com que a crise econômica afetou cada um deles. Havia um clima de insurgência latente que potencializou essas ações. O aumento de desemprego, que afeta primordialmente as camadas mais jovens, na medida em que se fecham as possibilidades de acesso ao mercado de trabalho por aqueles que estão se habilitando, mas que não detém experiência para serem aproveitados numa realidade em que muitos devidamente especializados estão sendo dispensados de seus empregos. Seguramente essa foi uma das razões que levou a uma explosão de manifestações por países do norte da África e estendeu-se por todo o Oriente Médio. Mas a espontaneidade foi apenas no início dessas revoltas, a partir do momento em que se disseminaram entraram em cena outros atores, com objetivos bem definidos, desestabilizar governos situados estrategicamente, ou por seus governos serem reticente às políticas do Império e de seus aliados.
Na América Latina, que nas duas últimas décadas tinha dado uma guinada à esquerda, com a escolha pela população de governos progressistas que se dirigiam para uma outra direção, distanciando-se dos EUA e aproximando-se da China e da Rússia afetando o espectro geopolítico regional, esse desequilíbrio não ocorreu como consequência da crise econômica, embora ela fosse latente. Mas pelas disputas do poder local, estimuladas pelos interesses dos EUA em retomar sua influência nesses países. A estratégia, nesses casos, foi fomentar a desestabilização por meio de uma forte influência na política, fortalecendo os partidos conservadores; potencializando movimentos ditos independentes, que cumpriram o papel de desmoralizar a política; e, por meio de espionagem cibernética a identificação dos vícios historicamente consolidados no controle do poder. Assim, neste último caso disseminou no Brasil, em especial, uma espetacular investigação, iniciada, segundo Edward Snowden, pela vigilância na maior estatal brasileira, além dos principais personagens da política, blindando aqueles que sempre estiveram alinhados ideologicamente com os interesses estratégicos estadunidenses.
Mas a Europa não ficou imune a todas essas mudanças. Ela foi afetada não somente pela crise econômica que diretamente influenciou cada um dos países do bloco europeu, mesmo que de forma distinta no começo, mas que no último ano se ampliou voltando novamente a atingir o sistema financeiro, estremecendo o poderio dos principais bancos, principalmente na Itália e na Alemanha. Ao mesmo tempo, os efeitos colaterais das guerras travadas naqueles países que foram desestabilizados pela estratégia citada anteriormente levaram a uma das maiores migrações da história, com o deslocamento de centenas de milhares de pessoas oriundas principalmente daqueles países onde os governos foram derrubados ou estavam em vias de serem, causando uma falência quase total nos Estados.
Para completar as vicissitudes de futuros imprevisíveis, o “brexit”, com a saída da Grã-Bretanha da União Européia, numa decisão inesperada da população, tanto quanto a eleição de Donald Trump nos EUA. Inesperada, ma non troppo! São posições que refletem uma insatisfação com os rumos em que a economia e a política andam tomando, em cada um desses países, em particular, e no mundo, de uma maneira geral. O que se espera ainda, para os próximos meses, é uma guinada ainda mais à direita, com as eleições da França e da Alemanha, que já sentem a repercussão da derrota do establishment estadunidense, que apostara tudo na candidatura da Hilary Clinton, inclusive praticamente toda a grande mídia daquele país.
Ao mesmo tempo em que o mundo estremece, com crises incontroláveis por todos os lados, e deixa os estados-nação sem alternativa para conter as insatisfações geradas por essas situações, ampliam-se sentimentos de intolerância, de xenofobia, de comportamentos fascistas e neo-nazistas, inclusive o fortalecimento de partidos que defendem esses posicionamentos. As redes sociais disseminam muito mais rapidamente essas atitudes agressivas e reforçam na sociedade um sentimento de aversão ao outro que age, pensa e se comporta de maneira diferente dos padrões conservadores e/ou religiosos.
Tudo que ocorre são consequências nefastas da falência de um processo de globalização que prometeu uma coisa, mas que o resultado foi bem diferente. O deslumbramento com a rapidez com que se davam os negócios e os deslocamentos de mercadorias pelo mundo, escondia o essencial; o fim das fronteiras só fez ampliar a concentração da riqueza. Nesse período, que corresponde a cerca de trinta anos, desde as últimas décadas do século passado, e das primeiras deste século, o sistema despertou sua face cruel, e a ganância se apresentou como o verdadeiro motor que movimenta o capitalismo, tendo a usura como coadjuvante. Nunca, em toda a história da humanidade, indivíduos se esforçaram tão intensamente para tornar-se cada vez mais ricos, sem que houvesse um limite para atingir. Ao mesmo tempo, disseminou-se como uma cultura entre as pessoas comuns, estimuladas por dogmas criados a partir desses valores, de que o enriquecimento seria uma dádiva possível a todos, desde que fossem fiéis aos princípios do sistema, impulsionados por sofismas que desvirtuavam crenças religiosas milenares.
Naturalmente, uma tentativa de reestruturação do sistema, como se pretendeu com a globalização neoliberal, necessitaria de vir acompanhada por verdades ditas insofismáveis. O convencimento deveria ser um elemento fundamental, e crucial, a fim de consolidar entre as pessoas a fé inabalável na existência de um único caminho para a humanidade: o capitalismo. E a condição de se tornar vitorioso, ou vitoriosa, seria incorporar esse espírito, despertar os desejos inerentes à lógica capitalista e inebriar-se no consumismo desenfreado. Entramos numa era de ilusões vãs, e em lugar dos sonhos bucólicos a humanidade optou pela distopia, transformando a sociedade num ambiente opressivo, onde a necessidade de competir, e de se destacar em meio à intensa disputa pelo sucesso, nos legou a depressão como a doença do século, e, como consequência, uma era de intolerância, violência, racismo e estupidez se disseminaram aceleradamente pelo mundo, e destacadamente no Brasil, potencializado pela disputa política e pelo lamaçal de corrupção que desvendou uma parte de como funciona as relações de poder na falida democracia. Mas talvez democracia não seja mais o nome adequado para identificar o regime que norteia e conduz a política no capitalismo. Melhor seria considerar que vivemos em uma plutocracia. Ou numa cleptocracia. Qual será o fim dessa história? Porque haverá um fim, isso é certo, embora não possamos dizer em que momento preciso. Afinal, até mesmo o capitalismo é um sistema finito. Como todos os outros.
Analisarei na sequencia dessa crônica as situações particulares do Brasil, EUA, Europa e Rússia.



[ii] ANDERSON, Perry. A Política externa norte-americana e seus teóricos. São Paulo: Boitempo, 2015
BANDEIRA, Luis Alberto. A Segunda Guerra Fria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013
 __________________. A Desordem Mundial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016
ESCOBAR, Pepe. Império do Caos. Rio de Janeiro: Revan, 2016
HARVEY, David. 17 Contradições e o fim do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2016