terça-feira, 3 de janeiro de 2017

ELEIÇÃO DE REITOR NA UFG - ENTREVISTA COM O PROFESSOR ROMUALDO PESSOA

Íntegra da entrevista que concedi ao jornal Diário da Manhã, publicada no dia 02 de janeiro 2017 (https://impresso.dm.com.br/edicao/20170102). Por questão de espaço alguns trechos que insiro aqui foram suprimidos na edição jornalística. Agradeço ao Jornalista Renato Dias pela possibilidade de expor algumas ideias iniciais a respeito da eleição de reitor da UFG e da minha decisão de concorrer a esse cargo maior na Universidade, cuja eleição se dará neste ano.

Diário da Manhã - A UFG fará eleições diretas para reitor? Quando será?
Romualdo Pessoa Campos Filho – A data da eleição ainda não está definida. Isso deverá ser feito pelo Conselho Universitário. A última eleição aconteceu no mês de junho, mas não é algo fixo, fica, portanto a critério da decisão do Conselho. Espero que seja mantido o mesmo mês. Mas certamente o processo se iniciará em fevereiro com as movimentações dos possíveis candidatos ou candidatas.
DM - O senhor é candidato a reitor?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Sim. Já me apresentei como candidato em um artigo que publiquei em meu blog Gramática do Mundo. (http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2016/10/minha-vida-se-completa-na-ufg-sigo-por_13.html).
DM - Qual o seu programa?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Isso ainda não está feito. Estamos, por enquanto estabelecendo alguns diálogos sobre a necessidade de alternarmos a condução da reitoria, e entendemos que o momento exige não somente capacidade de gestão, mas também habilidade política para lidar com uma situação adversa, que não experimentamos desde a primeira eleição do presidente Lula. O que significa dizer que conta muito, nessas circunstâncias o conhecimento da Universidade, a experiência nas lutas que travamos por décadas e a necessidade de buscarmos construir um movimento amplo que defenda a UFG a fim de garantir que ela continue sendo uma instituição que contribua fortemente para o desenvolvimento da Ciência, na formação de profissionais competentes e com grande inserção na sociedade. Para isso é fundamental que os recursos financeiros sejam garantidos a fim de atender toda a nossa capacidade, mas que também possa ser ampliada, pois a UFG tem uma possibilidade de crescimento muito forte. E é nessa direção que iremos trabalhar.
DM - Qual a sua análise da PEC 55 para as universidades públicas?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Essa PEC é absolutamente nociva para todo o serviço público, e em especial a Universidade. Mas ela afeta também, sobremaneira, os investimentos em todas as atividades de caráter social. No que tange à Universidade, ou à educação em geral, é evidente que limitar os gastos ao índice da inflação do ano anterior impedirá qualquer política de crescimento, que já estava em curso desde o governo Lula. Novas universidades, e a ampliação do número de vagas e novos cursos, que se adequem às necessidades das transformações que acontecem no Brasil e no mundo, estarão comprometidas por vinte anos. E um dos reais objetivos por trás dessa PEC é exatamente desvincular a obrigatoriedade de aplicação de determinado percentual em algumas áreas, principalmente a Saúde e a Educação. Isso dificultará manter o padrão de investimentos em custeios nas universidades, comprometendo a manutenção do que já existe e todo processo de modernização em áreas que requer que a todo ano se invista, para poder acompanhar todo o desenvolvimento tecnológico e de valorização da pesquisa, essencial para fortalecer a soberania de nosso país e o conhecimento de nosso potencial de riqueza e crescimento. Além de impactar fortemente nas nossas condições de trabalho que possibilite atender bem as nossas necessidades enquanto profissionais. É terrível o que se propôs e seus efeitos serão danosos e farão recuar em anos tudo que se pretendeu para o país em termos de fazer cumprir uma dívida enorme em nossa área, qual seja, ampliar o percentual de jovens com acesso ao ensino superior. Certamente, se isso acontecer nos próximos anos, será com a expansão do ensino privado, o que demonstra o caráter perverso dessa iniciativa do atual governo.
DM - O que pode mudar no quadro da UFG com a Reforma da Previdência?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Todas as vezes que se discutem mudanças na previdência há uma tendência de aumentar o número de professores e técnicos que aceleram seus processos de aposentadoria. Mas esse temor não decorre somente da PEC 287, atualmente em tramitação no Congresso Nacional. Nos últimos anos algumas dessas mudanças já geraram alterações que mudaram o regime de previdência para professores que entrarem recentemente na universidade. Essa PEC só piora a situação, pois amplia o tempo de serviço necessário para se aposentar com salário integral, e iguala nossa situação ao do setor privado, apesar dos mecanismos de contribuição serem diferenciados.
DM - O que esperar da Reforma Trabalhista?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Essa reforma deverá entrar brevemente na pauta de votação do Congresso Nacional. O que se sabe é que está sendo feito uma costura política, entre o núcleo do governo Temer e algumas centrais sindicais, aquelas ligadas a parlamentares que já estão na base de apoio do governo. Não deverá vir coisa boa para os trabalhadores, basta ver os últimos projetos aprovados e já citados anteriormente, mas o governo não irá querer perder apoio de parlamentares ligados à essas centrais, então deve ser mesmo uma proposta negociada.  Esse momento é absolutamente perverso para a população trabalhadora, principalmente aqueles situados na faixa de cinco salários mínimos para baixo. Todas essas medidas representam outros acordos, costurados entre empresários que financiaram todo o processo de mobilizações para destituir a presidenta Dilma, e aquele bloco de parlamentares que lhes são fiéis, porque ali foram colocados com financiamentos desses empresários. Há uma celeridade na aprovação dessas medidas, porque a tendência é aumentar cada vez mais o número de pessoas revoltadas com essas mudanças. Na medida em que ficar claro para os trabalhadores a profundidade dessas mexidas em seus direitos haverá uma reação muito forte. Só não sei se até lá esse governo ainda estará de pé.
DM - Especialista em Geopolítica e doutor em Geografia, qual a sua análise da abertura do Pré-Sal e da proposta que previa destinação de recursos para a Educação?
Romualdo Pessoa Campos Filho – A disputa pelo pré-sal, ou seja, pela enorme reserva petrolífera que nosso país possui em águas profundas, é fruto de uma grande cobiça das corporações que atuam nesse setor. São as mesmas que fomentam golpes em outras partes do mundo e financiam grupos armados para dificultar que governos que desejam exercer um controle dessa riqueza por meio de empresas estatais, possam impor limites a essas atuações em suas fronteiras. A mudança recente, aprovada no Congresso, que reduz a participação da Petrobrás, reflete pressões dessas corporações e dos países de onde  estão suas matrizes. As destinações dos royalties do petróleo para a Educação e a Saúde representou uma das mais acertadas decisões do governo Dilma, e seguramente esse foi um dos motivos para que ela caísse em desgraça e fosse deposta. Houve um revés absurdo nesse sentido, e seguramente a Nação sai prejudicada com esse retrocesso.
DM - Qual a sua opinião sobre as ocupações dos estudantes?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Eu considero que a juventude, e o movimento estudantil organizado, representa a força propulsora das mudanças em nosso país e no mundo. Isso tem acontecido historicamente aqui no Brasil, e em países como a França e o Chile, por exemplo. Mas o temor maior dos governos reside no receio dessa juventude conseguir ampliar o número daqueles que protestam contra medidas impopulares, promovendo manifestações massivas, e que consigam ganhar a opinião pública nesses protestos. Não creio que a estratégia de ocupações dentro da Universidade surta grandes efeitos enquanto forma de pressão contra as ações do governo contra a qual se deseja lutar. Não há visibilidade na sociedade para essas ações, salvo nos momentos em que a polícia seja acionada para cumprir ordens de reintegração de posse. O resultado dessas ocupações tem sido um processo de radicalidade interna e de tensionamento sobre o funcionamento da Universidade, por meio de métodos muitas vezes violentos e desrespeitosos contra até mesmo quem diverge dos  atos do governo e se manifestam claramente assim. Há certa irracionalidade e um radicalismo estéril, que não foca no alvo principal das revoltas e atira a esmo e cegamente contra todos que porventura esteja em sua frente ou que pensem diferentes. Creio que seja necessário repensar essas formas de protestos, e acredito que ela seja muito mais resultado do esvaziamento do próprio movimento e de uma aversão às próprias entidades. Seguramente não é o melhor caminho para fortalecer a luta, tendo como principal estratégia somar forças para derrotar medidas contra a educação, a universidade e os trabalhadores.
DM - Ex-presidente da Adufg, qual a sua opinião sobre a proposta de greve geral?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Enquanto uma forma de luta dos trabalhadores sou plenamente favorável. Mas é preciso que uma proposta de greve geral seja apresentada considerando as circunstâncias e a conjuntura, e que seja por um tempo determinado. Na universidade o instrumento de greve tem se desgastado muito, porque há uma banalização desse mecanismo, essencial na luta entre capital e trabalho, mas que não surte o mesmo efeito em nosso meio, pelas próprias características de nossa relação trabalhista. Em certos momentos, de fragilidade de um governo esse instrumento pode ser importante, desde que haja um interlocutor definido, a fim de haver uma saída para o impasse, visto que uma greve é o momento de radicalidade nessas relações quando as reivindicações não são atendidas. Já uma greve geral, em que estejam envolvidos outros setores, em que haja condições propícias para tal, se torna um poderoso instrumento de pressão sobre o governo. Mas se ela é chamada sem que exista resposta dos trabalhadores o desgaste somente servirá para desarticular e desmoralizar todo um movimento político e resultará em fracasso.
DM - Qual a sua opinião em relação às cotas?
Romualdo Pessoa Campos Filho – As políticas de cotas não são novidades, nem são criações brasileiras. Já existem em outros países, e aplicadas até mesmo nos EUA. Corresponde a uma necessidade de se garantir um mínimo de justiça social, em sociedades altamente desiguais, onde o acesso à educação, e notadamente ao ensino superior, termina por ficar limitado àqueles jovens que nascem em famílias ricas. Uma situação que consolida uma realidade onde os que vem de classes mais baixas optam por cursos de pouca penetração no mercado, cujos rendimentos são mais reduzidos, principalmente os de licenciatura, visto que a profissão de professor no país é bastante desvalorizada historicamente. Aqueles cursos onde há maiores ganhos profissionais persistem em permanecer nas mãos de jovens mais bem preparados, porque estudaram em escolas particulares pagando altos valores de mensalidade. Isso aqui em nosso país se enraizou, e forma uma espiral perversa, criando uma redoma onde os filhos dos trabalhadores mais pobres raramente quebram esse bloqueio. As cotas vieram para possibilitar que uma parcela dessa juventude tenha oportunidade de adquirir uma profissão que o projete socialmente e garanta um percentual gradativo para essas camadas de forma a amenizar essas desigualdades, que afetam os de origem negra e os mais pobres. Mas vejo a política de cota como algo tansitório. Definitivo deve ser a criação de mecanismos que diminuam essas dificuldades de acesso, a partir do fortalecimento do ensino fundamental, principalmente, e médio, garantindo que os que estudam em escolas públicas possam competir em condições de igualdades com quem estuda em escolas particulares. Creio que esse horizonte ainda está muito distante.
DM - O que o senhor, caso seja eleito, quer fazer na UFG?
Romualdo Pessoa Campos Filho – A Universidade não é algo pronto e acabado. Por essência ela precisa estar sempre se reinventando. O elemento fundante numa universidade deve ser a sua capacidade de construir um ambiente de inquietude, de criação e de inovação. Ultimamente tem-se procurado destacar a universidade pelo aspecto de seu crescimento, da sua ampliação em termos de ambientes edificados e da quantidade de novos cursos. Não há dúvida que isso é uma necessidade, e até mesmo uma consequência do trabalho que se desenvolva na universidade, principalmente com a formação de estudantes bem qualificados, o que requer investimentos e preocupação com os cursos de graduação, bem como da capacidade de seus profissionais de se dedicar à pesquisa e a descoberta de novos conhecimentos. No entanto, sinto certo comodismo na Universidade e uma aquietação a partir do momento em que os recursos se intensificaram e muitos laboratórios foram criados e consolidados. Mas isso não representa tudo. A universidade não pode se fechar em si mesma. Isso significa que ela não pode se distanciar da sociedade, e de seus problemas, como também não pode criar nichos de conhecimentos que não dialogam com outras áreas. É necessário reconhecer que as universidades brasileiras avançaram muito nos últimos anos, principalmente em termos de melhorias estruturais, fruto principalmente de um programação de expansão, que quando de sua implementação gerou muita polêmica - o REUNI, mas que foi extremamente importante para garantir melhorias essenciais para o bom desempenho de nossas atividades. Mas tem faltado um entendimento maior sobre problemas cruciais, bem como a necessidade de haver uma conscientização que tudo isso depende do tipo de governo que tivermos, se haverá ou não uma preocupação com a manutenção daquilo que está sendo construído. Isso deveria fazer com que a comunidade se inteirasse melhor das suas debilidades e do que pode acontecer numa situação em que há uma forte expansão, mas que os anos seguintes apontam para dificuldades em manter e garantir a continuidade desse crescimento. É o que em economia entendemos como “desenvolvimento sustentável”. Portanto, é preciso mais do que crescer. É preciso que, de forma responsável se saiba qual é a nossa capacidade de sustentar esse crescimento. O entendimento disso pode possibilitar que novas alternativas sejam pensadas, seja por meio de aprovação de grandes projetos de pesquisa, como acontece em algumas áreas, ou de grandes convênios com instituições de grande porte, nacionais ou internacionais, que tenham credibilidade e preocupações sociais. O que não significa recuar no propósito de permanentemente pressionar o governo para que não haja nenhuma redução no percentual destinado à universidade comparativamente ao ano anterior, assim como se garanta o mínimo de reposição daquilo que é corroído pela inflação. Embora isso também não seja o bastante, pois só representaria o crescimento “vegetativo” das universidades, impedindo que elas prossigam no processo de ampliação e de criação de novas unidades. Pelo que se sabe em termos de colocação do nosso país no ranking de universidades, já é suficiente para se ver que estamos muito atrás, principalmente em se tratando do fato de sermos a oitava maior economia do mundo.
DM - Qual o caminho para democratizar a gestão da UFG?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Da mesma maneira, a questão da democracia é algo que também deve ser objeto de permanente preocupação. E mesmo quando falamos de democracia, não significa que o que já existe seja suficiente e aceitável. Mas o que se entende de democracia em nosso meio também funciona muito no aspecto quantitativo. A forma de funcionamento da Universidade deve ser compreendida na relação que se estabelece entre os três segmentos, mas também do papel que cada um deles desempenha e o seu grau de importância. Eles são diferentes, e por isso devem ser tratados de forma diferente, mas deve-se seguir o preceito que essas diferenças não podem assegurar privilégios, mas que devem ser respeitados naquilo que sustenta a própria universidade, qual seja, que deve haver respeito mútuo, e que o princípio da autoridade que rege as relações institucionais e das construções dos saberes, seja preservado e respeitado. Um dos mais importantes filósofos da antiguidade, Aristóteles, afirmava que “deve-se tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade”. Esse é o elemento basilar a se seguir, a fim de não se cometer comportamentos antidemocráticos. Do ponto de vista da forma como a universidade está estruturada em seus diversos órgãos de representações, creio que essas questões estão postas. Mas tem havido alguns movimentos que extrapolam o limite do respeitável e isso preocupa, na medida em que se quebra determinadas liturgias, não nos sentido dogmático, mas da representatividade que existe em cada função e nas diferentes responsabilidades que afetam cada dirigente e cada um daqueles que compões os diversos segmentos. O respeito mútuo e a construção de um ambiente que preserve a alteridade, é uma condição sine-qua-non para a consolidação de um ambiente democrático. O papel de um reitor é garantir que isso será respeitado, e constituir-se numa liderança dentro da Universidade que assuma a responsabilidade na condução de situações que ameacem fugir da normalidade.
DM - Qual a sua crítica à atual gestão?

Romualdo Pessoa Campos Filho – Eu não pretendo fazer uma campanha que tenha como centro as possíveis fragilidades da gestão atual. No decorrer do processo pretendo apontar determinadas situações em que, por uma característica própria, e pelo próprio projeto que antevejo para a Universidade, eu caminharia em outra direção daquela apontada pela atual gestão. Mas são formas diferentes de encarar, às vezes, o mesmo problema. Meu objetivo é apontar numa direção que garanta à comunidade universitária chegar ao entendimento de que é possível seguir por caminhos diferentes em determinados momentos. A Universidade não pode ficar refém de um mesmo projeto por décadas, ela precisa inovar, encontrar outros caminhos, ousar, para poder extrair daqueles que constroem esse ambiente o melhor que eles podem oferecer, e não se acomodar. Também não creio que seja correto a permanência das mesmas pessoas em cargos por excessivo limite de tempo. Isso cria uma dependência à burocracia, impede que essas pessoas, principalmente professoes, se renovem em suas áreas específicas, e constrói um mecanismo de gestão semelhante ao que funciona nas estruturas carcomidas dos velhos Estados. Por isso minha palavra de ordem vai ser, renovação. A aceitação por muito tempo de um mesmo grupo na condução da administração de uma universidade significa a negação daquilo que a faz uma instituição diferente, a capacidade de formar novos quadros em condições de se destacarem e se alternarem, democraticamente. Em nenhuma forma de poder isso é desejável e correto, por criar vícios que se impregnam e tornam-se difíceis de transformar, renovar e trazer novos ares. Se isso acontece na universidade demonstra a nossa absoluta incompetência de construirmos novas alternativas, de abrirmos espaços para outras lideranças e de ousarmos encontrar novos caminhos, afetando a própria essência do que é ser uma universidade.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

QUE SEJAM FELIZES OS DIAS QUE VIRÃO. VAMOS INVENTAR UM 2017 COM SOLIDARIEDADE, PAZ, TOLERÂNCIA, AMIZADE E AMOR

Não sei o que dizer do que será. Resta-me analisar o que já não é mais. Assim, na reconstrução do passado, que me pode dar a compreensão dos erros e acertos do tempo que se foi, posso melhor inventar o meu futuro. 2017, e o que mais vier.
Repito aqui, os mesmos desejos de anos anteriores, pois eles são permanentes, apenas envelhecemos um ano a mais.
Seguramente uma das coisas boas em minha vida nesses últimos anos foi a força para criar e consolidar este Blog. Gramática do Mundo, como já disse, um nome quase emprestado do historiador francês, Fernand Braudel, que criou sua Gramática das Civilizações, representou para mim muito mais do que eu pretendia que se fosse inicialmente. Transformou-se em um fórum de debate bem provocativo, como sempre fui, e sou, em minha peculiaridade, mas sempre de maneira positiva e propositiva. Através desse estímulo pude reencontrar minhas forças. E, embora as marcas do passado não cicatrizem, aprendemos a conviver com elas, e com nossas dores. Às vezes, contraditoriamente, elas nos estimulam.
Em 2017, já completando 22 anos de UFG, pretendo alçar voos maiores, um desafio para o qual julgo estar preparado, calejado pelo tempo, marcado pelas vicissitudes da vida pessoal, profissional e política.
Dedicar-me ao blog é um alento.  Ele cumpre esse papel, e se transformou numa catarse a aliviar os meus tormentos, de fazer libertar do fundo da minha intimidade todas as angústias motivadas pela perda de minha filha, Ana Carolina. Através do Gramática do Mundo, e tentando ainda fragilmente seguir o lema da filosofia antiga, exposta inicialmente em um poema de Horácio, no século I, antes da Era Cristã, com a expressão Carpe Diem, não me preocupo em viver obcecado com o futuro, mas buscar a compreensão do presente, de forma a vivê-lo em toda a sua intensidade.
Essa máxima permanece a guiar as minhas atitudes e a maneira como concebo a vida, embora com uma concepção materialista. Sem jamais querer eliminar as minhas memórias, as lembranças, mesmo tristes, que me marcaram e me conduziram ao presente. Bloqueei por algum tempo lembranças trágicas da internação de minha filha, até o dia fatídico da sua morte. Mas, desde 2013, principalmente após a defesa de meu doutorado – talvez algo que eu ainda devesse a ela – recuperei essas imagens, mesmo que doídas, mas já conseguindo sentir a sua presença permanentemente ao meu lado, em nossos momentos de alegrias.
Por isso essa minha mensagem de transição entre dois momentos simbólicos (2016 - 2017), construídos seguindo uma lógica que interessa ao consumismo capitalista, apesar da crise econômica mundial, mas que inegavelmente também se constitui em um momento de confraternização, e de expiação de todos os nossos problemas, eu quis produzi-la aqui. Transformo, assim, todos os meus seguidores e eventuais leitores, em personagens de minha vida, com os quais estabeleço abertamente, por essa ferramenta espetacular que é a internet, momentos de franca discussão ideológica e intelectual, bem como compartilho todos os meus sentimentos pela perda irreparável que me consumiu e me consumirá pelo resto da minha vida, mas que aprendi a conviver com ela, superar a dor e encarar a realidade. Também as dores da vida social são terríveis, convivemos com elas diariamente, direta ou indiretamente, e não podemos viver eternamente numa caverna a olhar infinitamente para dentro de si próprio, senão esquecemos como são as coisas por aí afora, no mundo real que nos cerca e no qual estamos envolvidos.
Continuo recebendo, principalmente nas minhas postagens mais sofridas, nas datas que mais me lembram da Carol, mensagens de amigos, e até mesmos de pessoas anônimas para mim, que só conheço pelas redes sociais, e foram e têm sido fundamentais para a recomposição de meu caminho. São, seguramente, estímulos para a superação das adversidades e me ajudam a viver a vida como expressado na filosofia antiga, nessa loucura do mundo moderno.
Isso nos dá também a convicção de que a solidariedade só precisa ser praticada, porque muito embora tenhamos a sensação de que vivemos em um mundo cruel, as pessoas, em sua maioria, têm sim, sensibilidade e expressam ainda isso de várias formas. O velho altruísmo que salvou a espécie humana em épocas primitivas permanece, ainda que hibernado pelos tempos individualistas como resquícios do neoliberalismo, e do próprio capitalismo. Mas em certos momentos ele se manifesta e desperta o lado sensível dos indivíduos, homens e mulheres. Talvez nesses últimos anos, além dessa palavra, uma outra devesse ser mais analisada, e mais do que isso, o que ela representa devesse ser aplicado: alteridade. Em tempos marcados pela intolerância, resgatar o altruísmo e aplicar mais alteridades em nossas relações, certamente nos ajudará a construir uma força capaz de refazer nosso mundo. Não vai ser fácil.
2016 foi, mais uma vez, um ano de superação. Sempre envolto nas leituras geopolíticas, que me ajudam a interpretar o mundo, e a nossa situação específica, no caso do Brasil, segui repensando os comportamentos que me acompanharam por vários anos.  Por vezes um choque, uma tragédia, em nossas vidas, torna-se capaz de nos fazer parar para refletir. Tendo não mudar minha personalidade, diante das adversidades e das cargas negativas que nos cercam, alimentadas por uma mídia insana.  Procuro sempre seguir sendo eu mesmo, um pouco melhor da minha “ranzizesse” privada, apesar de mais velho. Todos nós temos nossos defeitos que cada um de nós possui e compõe a nossa personalidade, obviamente junto com as nossas qualidades. Mas adquiri uma capacidade maior de compreender os dramas e fragilidades da vida humana. Até pela acumulação de conhecimentos que busquei no estoicismo, somando-os à minha visão de mundo, baseada na dialética materialista e pela experiência adquirida da vida. E, pela minha pesquisa que desenvolvo desde 1992, com o contato com o povo simples, humilde e hospitaleiro do Sul do Pará e Norte do Tocantins, na região que ficou conhecida pela Guerrilha do Araguaia e pelos conflitos terríveis na luta pela terra.
Não sou partidário de princípios doutrinários, segundo os quais o sacrifício é um fator essencial para que o sentimento humano se realize. Não temos que, necessariamente, buscarmos o sofrimento a fim de termos nossos “pecados” expiados. Mas é inegável que ele nos trás um choque de uma realidade da qual não esperamos experimentar. Construímos nossos mundos (assim como nossos deuses) de acordo com o que queremos, e esquecemos que não podemos querer aquilo que é inusitado, ocasional. O inevitável pode nos trazer surpresas para as quais não nos preparamos, e da fragilidade de uma vida aparentemente perfeita, desfazem-se sonhos e ilusões de futuros construídos quase que moldados por fantasias que nos são impostas por mecanismos exteriores à nossa vontade.
Converso com minha companheira, Celma, sob óticas diferentes de ver a vida. Ela, sempre otimista, construiu toda a sua resistência à tragédia que nos abateu, buscando espiritualmente forças que traduzisse sentimentos de solidariedade e de um pensar positivo que vê ao longe, além do momento em que estamos, e constrói positivamente um futuro de esperança. Assim ela vai lidando com os projetos que o Instituto Ana Carol tem construído e, principalmente o que já se tornou uma realidade consistente, a Bordana, Cooperativa de Bordadeiras a consolidar essas certezas construídas com o olhar para adiante.
Não tento desconstruir os sonhos, mas parto de outra perspectiva. A de que o que imaginamos ser a construção de um futuro nada mais é do que a realização do presente. Dialeticamente, ele vai sendo tecido, e termina por concretizar algo que foi pensado. Mas o que seria desse “futuro” se no presente não tivéssemos construído as bases das mudanças? Ademais, não há futuro, pois o que idealizamos como sendo isso, ao imaginarmos tê-lo construído, ele já se torna presente. E, como o tempo não para, em frações de segundos já se torna passado.
Digo isso para afirmar que são as realizações do presente que possibilitam aos nossos pensamentos se concretizarem. Contudo, nada do que se constrói hoje, ou do que se imagina construir, está livre do acaso. Mas, como não podemos ficar pensando no acaso, assim como não faz sentido a obsessão pela morte, devemos pensar sempre em viver toda a intensidade do presente. Abstraindo o egoísmo e o individualismo, logicamente. Afinal, a nossa vida não se realiza isoladamente. E, principalmente, procurarmos viver cultivando a honestidade e a solidariedade.
Assim, 2017 se construirá a cada dia. Por isso, a mensagem que quero passar é a de que cada ano novo só se completa em seu final, até lá ele simplesmente é a somatória de dias, semanas e meses. E cada um de seus dias, deve ser vivido em seu tempo, na duração que lhe foi dada por essa espetacular e indecifrável condição que adjetivamos como vida. E, ao final, ele soma-se à nossa própria história.
Então, não nos basta pensar no ano de 2017. E sim na construção dele, a partir da vivência ativa e intensiva de cada dia, separadamente. Viver um dia por vez, ao invés de nos perdermos em angústias e desesperos do que fazer depois de amanhã. Isso parece óbvio, mas estranhamente não é visto dessa maneira.
Mas alguns dirão que isso é utopia. Que é ilusão se imaginar preso apenas ao que acontecerá a cada dia, na medida em que isso acarreta um efeito em sequência e, seguindo a própria lógica da vida, impõe naturalmente o pensamento no que se seguirá.
Isso também é verdade. Mas aí reside a beleza, a incógnita e o segredo da dialética. A vida em sua mais perfeita contradição. Pela qual não conseguimos jamais compreendê-la por completo, nem vivê-la a cada momento. Pois que ela nada mais é do que uma tridimensionalidade que nos cerca: vivemos o presente, a partir de coisas que construímos do passado e que seguiremos levando adiante, naquilo que se traduz como o futuro.
Que 2017 seja assim, então, para cada um de nós. Cheio de saúde, alegria, amor e fraternidade. Que a solidariedade jamais deixe de estar conosco cotidianamente, por mais que tenhamos em nossas ideologias o sentimento de que tudo que está aí deve ser mudado na construção de um mundo novo.
Tudo bem. Mas as pessoas que vivem a sofrer, por uma condição de sujeição à lógica irracional deste mundo, têm direito a superar seus sofrimentos. Não devemos esperar as pessoas morrerem na miséria para tomar isso como exemplo de que o sistema é injusto. Devemos condená-lo, mas salvando as pessoas... e não somente as matas, as árvores, os animais. Somos nós, seres humanos, que damos sentido a este mundo. Embora contraditoriamente sejamos nós também os responsáveis pela aceleração de sua destruição. Enfim, devemos lutar pela vida. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás” (Che).
Que 2017 inspire solidariedade, amizade e amor. Que construamos um novo mundo a partir de nossos próprios exemplos. Que não nos limitemos à crítica, pela crítica, mas que apresentemos alternativas concretas para realizarmos o sonho das pessoas viverem seus presentes com dignidade. E façamos isso também com nós mesmos. Que consigamos viver intensamente cada dia, cada momento, e nos coloquemos um desafio: de a cada dia que conseguirmos superar, aumentar o número de amigos e amigas que nos cercam. E os entendamos em suas peculiaridades, sem necessariamente compactuar com comportamentos agressivos, intolerantes, preconceituosos. Isso desfaz amizades, são inaceitáveis, ignora a alteridade, destrói-se o altruísmo e brutaliza as relações humanas. São comportamentos que devem ser combatidos, a fim de construirmos um mundo novo. Sim, acredito que um outro mundo é possível.
Certamente os desafios que temos pela frente não são fáceis. O novo ano não será fruto do que do que imaginávamos construir positivamente em 2016 e no ano anterior. Algumas coisas, necessárias para muda-los, fogem, ao nosso alcance. Mas devemos lutar, sempre, acreditando que a vida pode ser vivida de forma plena, sem esquecer que não vivemos sós e que os muros não nos protegem, simplesmente escondem uma realidade que nos oprime, que precisa mudar, mas da qual é impossível fugir.
Essa vontade de lutar, que, particularmente, pude recompor nesses últimos anos, deve estar imbuída do sentimento de que a transformação deve ser coletiva. Pensar somente em mim, não vai ajudar a construir o mundo melhor e mais solidário. Meu tempo de vida não é longo, o de nenhum de nós é, comparando-se ao tempo da história humana, e mais do que isso, se compararmos ao tempo de existência da terra. Portanto, se temos que lutar por algo que valha a pena, que isso se traduza em uma conquista que seja plena para a humanidade. Ao contrário do que se possa pensar, e é assim que vejo, isso não se contradiz com o lema que sugeri lá atrás. Carpe Diem! Significa que devemos aproveitar o momento, confiar o mínimo possível no amanhã, mas o que proponho na junção desses dois desejos é, ao mesmo tempo em que lutamos por um mundo melhor, viver a vida com serenidade, desprendimento, vivacidade e compreensão. Se queremos aproveitar cada momento, podemos também plantar sementes daquilo que imaginamos ser o melhor, para cada um de nós, individualmente, e para todos e todas coletivamente.
Quem sabe assim atingiremos nosso objetivo de inventar um 2017 que corresponda ao que desejamos. Mas, além disso, construir um futuro que possa refletir o presente que idealizamos.
E o façamos tornar-se realidade.
Feliz 2017!! Um brinde à construção de um mundo novo. “Sonhos, acredite neles, com a condição de realizar escrupulosamente a nossa fantasia” (Lenin).
Carpe Diem!

“Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati. seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam, quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero”.
“Tu não procures - não é lícito saber - qual sorte a mim qual a ti os deuses tenham dado, Leuconoe, e as cabalas babiloneses não investigues. Quão melhor é viver aquilo que será, sejam muitos os invernos que Júpiter te atribuiu, ou seja o último este, que contra a rocha extenua o Tirreno: sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança, pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã”.
 "Odes" (I,, 11.8) do poeta romano Horácio (65 - 8 AC) 



(*) A idéia central desse texto eu construí no final de 2011. Adaptei-o já por diversas vezes em algumas partes, e o faço mais uma vez para torná-lo atual a mais um momento de transição em nossas vidas. Um feliz ano novo aos leitores e leitoras do blog Gramática do Mundo e aos meus amigos e amigas do Facebook. Que possamos continuar lutando pela construção de um mundo melhor.  E que em 2017 possamos avançar muito nessa direção. Um forte abraço.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

GUERRA TOTAL – ENTRE ALEPPO E MOSUL, A VERDADE DISSIPA-SE EM MEIO ÀS FUMAÇAS DOS BOMBARDEIOS

Allepo, Síria - Numa guerra fomentada pelo Ocidente (leia-se EUA), a grande mídia mostra a destruição e imagens de crianças e mulheres atingidas pelos bombardeios. A guerra é cruel, perversa. Mas a manipulação da informação que circula pelo mundo é revoltante para quem acompanha essas histórias. Os que reagem ao cerco quase final, e fatal, à cidade são chamados de “Rebeldes”, em luta contra o “ditador” Bashar Al-Assad. Mas nada se diz da euforia que tomou conta de muitos moradores com a ocupação da cidade pelas tropas sírias, apoiadas pela Rússia e pelo Irã.
Mosul, Iraque - Em outra guerra (ou quase que a mesma), consequência da insanidade ocidental (leia-se EUA e aliados), o que vemos são imagens de combates, a partir da ação de soldados iraquianos e curdos, com apoio dos Estados Unidos. Aqui, os que reagem ao cerco, também quase fatal, e final, são chamados de “Terroristas”, e a retomada da cidade significa uma vitória da liberdade. Neste caso, as notícias são de que as pessoas que vivem na cidade são transformadas em escudos humanos.
Aleppo, antes e depois da
guerra.1
Ésquilo, dramaturno grego que viveu no seculo V, antes da guerra cristã, tem uma frase que lhe é atribuída, repetida sempre que eclode uma guerra: “Numa guerra a primeira vítima é a verdade”. Isso se aplica hoje não só à guerra, por uma mídia que desinforma e faz da mentira um instrumento de controle e de manipulação permanente.
Em Aleppo ou em Mosul a realidade é fruto da disputa política. Da grande política, do controle pelo poder hegemônico em regiões estratégicas do mundo. São guerras fomentadas por Estados-Nação e corporações que disputam riquezas e territórios, e as vidas humanas não são objetos de preocupação quando elas são estimuladas e financiadas, instigando grupos radicais para desestabilizar governos. Ao final, para direcionar a opinião pública, imagens são distorcidas e a verdade omitida ou alterada, escondendo-se as reais razões da destruição de países e das centenas de milhares de mortes que se espalham em meios aos escombros e afetam, numa característica da guerra moderna, principalmente a população civil.
Militantes do Estado Islâmico
preparam-se para o cerco em Mosul
Um combate travado nas cidades inevitavelmente leva a destruição. A guerra de guerrilhas, rua por rua, torna absolutamente sangrento o combate, onde os grupos que resistem e controlam territórios tomados do poder do Estado, usam de artifícios táticos e protegem-se em meio a casas ocupadas, fazendo da população espécie de escudos de proteção. A ausência de acordo para cessar os combates, visto que a parte fragilizada na refrega não se entrega, leva a que isso chegue ao limite da violência, de maneira implacável. A população que não consegue sair da zona de guerra, ou porque apoia os combatentes, ou porque são reféns e a condição da própria segurança desses, é atingida de forma bárbara, notadamente as crianças.
Pessoas comemoram a retomada de
Aleppo
As imagens do conflito são utilizadas como arma de propaganda, e as crianças passam a fazer parte de um jogo de desinformação visando desgastar o lado que momentaneamente está saindo-se vitorioso.
Em Mosul ou em Aleppo a crueldade faz parte da radicalidade gerada pelo conflito. Representa a derrota da política, chegada a um ponto extremo, onde as forças antagônicas desejam assumir controle com objetivo de controlar o poder. Por um lado a manutenção desse poder nas mãos de um mesmo grupo por muitas décadas, de outro uma insurgência insuflada por interesses ocidentais, visando o domínio de uma região estratégica e, ao mesmo tempo, impor derrota à Rússia, há décadas aliada do governo sírio, onde existe a única base militar que esse país detém com acesso ao mar Mediterrâneo.
Fila de ônibus aguardam para retirar
civis de Aleppo
A existência de interesses por trás de quem controla a informação, os oligopólios que transmitem suas “verdades”, através de notícias e imagens manipuladas, termina por consolidar versões que não representam, necessariamente, a origem dos fatos, nem mesmo a própria realidade deles. Até porque, se for à origem, ver-se-á que toda a situação de caos existente no Oriente Médio, com a destruição de diversos países (Líbia, Síria, Iraque, Iêmen...), praticamente com alguns entregues ao domínio de milícias que receberam o apoio para destituir governos, e que atualmente são caracterizadas como terroristas, são decorrentes de ações inescrupulosas que desdenham de resultados perversos para as pessoas que ficam em meio a essas disputas, pagando com suas vidas a obsessão de governos ocidentais que visam controlar esses países e suas riquezas petrolíferas. O resultado dessa perversão é o caos, a fragmentação de estados, a migração massiva e o genocídio de populações.
Atentado em 2012 ao consulado dos EUA
A guerra é consequência da incapacidade de se resolver problemas políticos por meio de acordos e tratados ou porque não há interesses nisso, já que os objetivos são geopolíticos e incompatíveis entre os Estados em disputa. Nas situações em curso, que se estendem por mais de uma década, desde que os EUA iniciaram sua “guerra ao terror”, a tentativa claramente analisada em obras portentosas que devem ser lidas com atenção, escritas por Moniz Bandeira e Jeremy Scahill,[1] dentre tantos, visava destruir governos incômodos a esses país e seus aliados. As consequências tem sido funestas, absolutamente marcadas pela insensatez, que, aliás, levou à queda da ex-Secretária de Estado do governo estadunidense, Hilary Clinton, responsabilizada por boa parte dessas ações desastrosas, bem como da morte do embaixador daquele país na Líbia (retratado com os formatos tradicionais de Hollywood, no filme “13 horas: os soldados secretos de Benghazi”). Seguramente isso foi também determinante para sua derrota nas últimas eleições, superada por um falastrão, sem nenhuma presença na política até então, o ultraconservador Donald Trump.
Soldados iraquianos no cerco à Mosul
Não há o que defender numa guerra. A própria tensão que ela cria brutaliza seus participantes, e os transformam em máquinas de matar. Poucos conseguem agir de forma racional, mas depende muito do tempo em que permanecerá no front de batalha. Em um caso e no outro, certamente ações irracionais, crimes de guerras e descontrole, ocorrem frequentemente. Seguramente alguns atos heroicos podem ser destacados. Mas é preciso conhecer primeiro o que está por trás dessa guerra, depois as dificuldades em se estabelecer acordos de paz quando há interesses muito grandes a insuflar o conflito. E não se pode jamais esquecer quais foram as verdadeiras razões e em que condições muitas dessas guerras tiveram início. Isso é uma condição sine qua non, para entendermos porque se tornam tão difícil os acertos finais para botar fim aos combates.
Tropas Sírias avançando sobre Aleppo
Por fim, todo o desequilíbrio que têm afetado o Oriente Médio decorre de uma estratégia definida para derrubar os governos de diversos países na região. A política de regime change, implementada pelos EUA, com o intuito de desestabilizar econômica ou politicamente esses países, cujos governantes já não atendiam mais a seus interesses hegemônicos, cujos resultados levaram equivocadamente a ser denominada “primavera árabe”, representou uma tentativa de alteração da forma de agir, não mais com intervenções militares, mas desestabilizando os países, financiando e armando grupos oponentes, não se importando com as consequências disso. Al Qaeda, Al Shaabab, Al Nusra, ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante), Boko Haram, surgiram direta ou indiretamente como consequência desse tipo de estratégia, ou de erros graves cometidos por tropas ocidentais ao tentarem agir unilateralmente sobre conflitos locais.
Rebeldes sírios se protegem dos ataques
em Aleppo
A guerra da Síria tornou-se bastante emblemática, porque desde o início o governo de Bashar Al-Assad contou com o apoio da Rússia. Agindo em duas frentes que lhe contrapunha, o presidente Putin desfechou golpes diretos e ousados, na Ucrânia e na Síria. Em uma, intervindo por meio de grupos pró-Rússia e assumindo controle da Criméia, bloqueando os objetivos da OTAN/EUA de assumirem o controle total daquele país e isolarem a Rússia. Em outra, no caso mais emblemático que era a Síria, assumindo com força o papel de protagonista no combate mais eficaz contra o Estado Islâmico, chegando à beira de um conflito com a Turquia, cujo governo de Erdogan fazia jogo duplo, inclusive comprando petróleo desse grupo.
Tropas iraquianas preparam o cerco
à Mosul
Na impossibilidade de acordo, tentado por diversas vezes por iniciativa do presidente russo, prevaleceu, como sempre nesses casos, a guerra total. Primeiramente os alvos foram os combatentes do Estado Islâmico. Atacados pelo alto com bombardeios russos e por terra pela ação de tropas iranianas, do Hesbolah e dos curdos. Depois, os rebeldes, aliados do ocidente foram encurralados na cidade de Allepo, dispostos a resistirem rua por rua, da mesma foram que o ISIS jurou também fazer na cidade de Mosul, cujo desfecho final ainda não aconteceu.
O resultado não poderia ser pior para a população civil. A cidade de Aleppo, completamente destruída, neste momento em que escrevo, está praticamente tomada pelas tropas pró-Síria, que retoma assim o controle. Os acordos finais são para garantir a retirada dos combatentes rebeldes e de parte da população que desejar lhes acompanhar. De uma cidade com um dos maiores índices de desenvolvimento humano na região, assim como acontecia em parte da Líbia, e de uma população de mais de dois milhões de habitantes, hoje o que restam são escombros por toda a parte. A insanidade da guerra, os sujos interesses que a movem, resulta em destruição e mortes. A cidade será reconstruída, e beneficiará os lados vencedores, cujas corporações estarão incorporadas no objetivo de a reconstruírem, e lucrarem com isso. Já as vidas perdidas, essas não retornarão, assim como boa parte daqueles que optaram por sair da cidade e atravessarem o mediterrâneo em direção à Europa, por enquanto segura.
Assassinato do embaixador russo
na Turquia
Enfim, houve intencionalidade em toda essa loucura. Ao fim, para completar a gravidade do conflito, que, apesar do cerco à Mosul e da tomada de Aleppo pelo governo Sírio, não significa que está acabando, chega a notícia, quando finalizo este artigo, do assassinato do embaixador russo, Andrei Karlov, na Turquia. Tudo indica que em vingança á ação em Aleppo. O atentado teria sido praticado por um membro da polícia turca, que foi morto logo em seguida. São situações que não tem fim, foram criadas com objetivos geopolíticos, e tornarão ainda o mundo bastante inseguro. As reações a mais esse atentado sinalizam para a radicalização e o espectro de guerra total tende a se espalhar por diversas direções.




[1] BANDEIRA, Luiz Alberto. A Segunda Guerra Fria. Geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013
BANDEIRA, Luiz Alberto. A Desordem mundial. O espectro da total dominação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
SCAHILL, Jeremy. As Guerras sujas. O mundo é um campo de batalha. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

NOVE ANOS SEM CAROL. O QUE MUDOU EM MIM. O QUE MUDOU NO MUNDO

Terça-feira, dia 13 de dezembro. Há nove anos vivíamos o pior momento de nossas vidas. A pequena Carol falecia aos dez anos de idade. Tudo mudou para nós, e por muito tempo passamos a conviver com a necessidade de lidar com uma situação absolutamente cruel. Ver a morte de uma filha, ou de um filho, nos empurra para o fundo de um poço. A depressão é praticamente inevitável, e evitá-la é muito difícil, só possível se buscarmos nos envolver em alguma atividade que tenha relação com aquele ente falecido, para que a lembrança de sua presença fique latente desde os momentos iniciais de sua morte. O sentimento da ausência, porquanto durar, somente nos faz despencar cada vez mais no abismo de um vazio que se transforma em doença.
É muito difícil equacionar essa perda. Tive muitas dificuldades em sentir a presença de minha filha em sua ausência. É uma dialética perversa, o limite de uma contradição presente sempre por todo o tempo em que vivemos. Podemos conviver com a ideia da morte, sabendo que ela naturalmente nos atinge, dentro de uma lógica inevitável. Mas nossas forças não são suficientes para suportar a perda de uma filha, ou de um filho. É uma sensação de fracionamento de seu corpo, de tal forma que somos acometidos de uma enfermidade denominada no ambiente da medicina como “síndrome do coração partido”.
Uma das formas de suportar essa dor foi me dedicar a escrever. Neste blog, e, antes dele na edição de um livro de crônicas dedicadas a minha filha e que intitulei, “Depois que você partiu”. Assim o fiz por um ano, logo depois da morte dela. E, nos anos seguintes, sempre que a angústia me tomava conta, ou naqueles dias cujas datas são marcantes, porque elevam a saudade a patamares insuportáveis. A proximidade do dia em que, fatidicamente perdemos nossa pequena Carol, sempre nos deixa reflexivos, tristes. Isso ter acontecido no final do ano torna as festas deste período menos alegres do que antes, quando ela vivia entre nós.
O tempo ameniza a dor, aprendemos sempre isso. É verdade. Porque também precisamos encontrar formas de continuar vivendo. Sempre digo que a melhor maneira de ter minha filha ao meu lado continuamente, em boas lembranças de sua presença em vida, é estar vivo e saudável. Acostumei-me aos sábados, sempre para mim o pior dos dias depois de sua morte, a ir para uma roda de samba, num lugar aconchegante, onde encontro amigos e amigas, o Quintal do Jorjão. E, mesmo ali, silenciosamente em meio a algumas músicas cantadas, já chorei de saudades de minha filha. As músicas de Gonzaguinha são as que mais fazem eu me lembrar dela. Mas aprendi a sair das tristezas que os sábados me traziam. E, aos poucos fui reforçando cada vez mais a sensação de tê-la comigo, em meu coração, em minhas lembranças, ao meu lado. Aprendi que tristeza e alegria convivem mutuamente, e que felicidade é um conceito muito relativo, que se adéqua somente a momentos precisos, nunca a felicidade pode ser algo permanente em nossas vidas. Como posso ser feliz, sem minha filha? Não sou. Tenho alegrias e tristezas, e aprendi a viver dessa maneira, porque minha vida segue ao lado das pessoas que eu amo. E minha filha segue comigo, bem apegada ao meu peito, do lado esquerdo, e a sinto nas pulsações do meu coração.
Depois que minha filha partiu muita coisa mudou em minha vida, se já não somos os mesmos à medida que envelhecemos, deixamos de ser muito mais, quando perdemos uma filha. Nos tornamos mais sensíveis com a realidade que nos cerca, a presença dos familiares e amigos, em gestos solidários a nos confortar, desperta uma sensação altruística, um sentimento que sempre nos acompanhou enquanto humanos, apesar de esquecido em algum canto nos dias atuais. Nessas horas ele se torna bem presente, e nos afeta sobremaneira. Pelo menos me afetou e me fez refletir profundamente sobre minha relação com o meu ambiente de trabalho, com minha casa, com a sociedade, com as pessoas.
Afastei-me por um tempo de diversas atividades, profissionais e políticas. A condição depressiva me desestimulava. Somente a sala de aula, onde por diversas vezes me emocionei em frente a meus alunos e alunas, me dava algum alento. O prazer de dar aulas me aliviava das angústias, paradoxalmente tratando nelas as contradições de um mundo em transe.
São nove anos que parecem uma eternidade, mas, contraditoriamente, parece que foi ontem que nos debruçamos pela última vez sobre o corpo de nossa filha, já sem vida, numa imagem que ficará retida em nossas mentes até o último dia de nossas vidas. Cada momento, cada segundo, daqueles infortúnios desde quando soubemos de sua morte, em que o chão se abriu para nós, e, que alguns crêem, os céus se abriram para ela, se repetem como flashes em nossa memória, ou, como no linguajar das novas tecnologias das redes sociais, como ‘gif”. Imagens em movimento que se repetem. Somente no cotidiano de nossas atividades, a nos ocupar pelo que necessariamente precisamos fazer, encontramos lapsos de tempo, que nos distraem, e seguimos o curso de nossas vidas. Mas, jamais, como antes. Perdemos um pouco de nosso corpo e de nosso jeito de ser. Como diz Antoine de Saint-Exupéry: “Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós, deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.
Mas, parafraseando Chico Buarque, em uma das tantas músicas que nos lembram da Carol, o tempo passou na janela, e ela não mais estava aqui para ver as transformações aceleradas de um mundo e um tempo que deveria ser seu.
Quando a Carol faleceu o nosso país vivia momentos de expectativas positivas. As esperanças deixavam as pessoas animadas com as possibilidades de adentrarmos em um outro mundo, de desenvolvimento e de redução de desigualdades sociais. Apesar de já naquele momento, escândalos de corrupção também ser a tônica dos noticiários, era nítido uma mudança no país, que crescia em termos de aumentos de empregos, de sensação de melhorias nas condições de vida das pessoas, de perspectivas positivas. Mas, em 2007, já se estremeciam por todo o mundo os alicerces de um sistema econômico que avançou o sinal, e onde a ganância expôs as debilidades de uma estrutura que era tênue, porque escorada numa especulação financeira desenfreada. Por todo aquele ano alertei em minhas aulas para o desastre que se apresentava como eminente, apesar de escondido pela grande mídia. Mas isso já era abordado por especialistas e publicado inclusive em livros. O ano em que minha filha morreu, pode-se dizer, foi o último ano tranquilo do resto de nossas vidas, pelo menos até este ano, e quiçá o próximo. E isso não é uma análise amarga causada pela perda que tivemos com sua morte. O ano de 2008, que nos levou a uma imensa escuridão, por ser o primeiro ano sem a presença dela entre nós, foi também o momento de uma grande virada na conjuntura econômica e geopolítica mundial. Tudo seria diferente a partir de então.
Como a acompanhar nosso calvário, naquele sentimento de dor, que ainda nos acomete, mas sufocado pelo tempo e superado por nossas forças de viver, também nossas expectativas de um mundo melhor, de um país diferente, começou gradativamente a se desvanecer. Diferente de nosso infortúnio, repentino e aos poucos restrito a parentes próximos, mas fundamentalmente a mim, como pai, e a minha esposa, como mãe, as desgraças que afetaram o mundo e o país foi, pouco a pouco ampliando e atingindo um número cada vez maior de pessoas. E, ao passo que fui me transformando pela minha dor e sensibilizado pelo número grande de pessoas amigas que demonstravam sempre o afeto e a solidariedade com nosso sofrimento, percebendo cada vez mais a importância de entendermos o sentido de alteridade por todos os momentos de nossas vidas, o mundo e o nosso país caminhava num sentido oposto, marcado pela disseminação do ódio, do preconceito, da rivalidade política extremamente agressiva (antessala do fascismo), pelo aumento perigoso da intolerância e na incapacidade de entender, compreender e escutar o outro. A crise econômica, num ambiente de consumismo exacerbado e de disputa cada vez mais individualista, arduamente e duramente competitiva, jogou a sociedade humana num enorme poço de dimensões profundas e cada vez mais impossível de se enxergar a luz.
Procurei por esse período ser compreensivo com as diferentes opiniões e formas das pessoas se manifestarem e escolherem suas maneiras de viver e se comportar. Até porque, imerso em minha dor, pouco ânimo eu tive nos primeiros anos depois que perdemos a Carol, de me envolver com qualquer tipo de embates e polêmicas que pudesse significar um confronto com alguém por simples divergências quanto às suas escolhas de vida, política e ideológica.
Mas, aos poucos fui me reencontrando com o meu passado, tristemente sem a minha filha, mas que, sem resgatá-lo eu me afundaria mais e mais na depressão. A sensação de tê-la presente, conforme muito me orientou a psicanálise, foi aos poucos me tirando da letargia e me trazendo de volta para a realidade e para resgatar a minha impulsividade que me marcou por toda a minha militância política, estudantil e sindical. Ainda assim, muito mais compreensivo no entendimento das diferenças, e tendo aprendido muito com as manifestações de solidariedade e carinho de amigos, amigas e até mesmo pessoas distantes que passaram a conhecer nossas histórias, pelo livro que escrevi e pelo projeto criado por minha esposa, concretizado hoje na existência do Instituto Ana Carol, e, através dele, mas que se tornou maior, a Cooperativa de Bordadeiras – Bordana. Assim como pelo despontar para a luta, e com uma formação política inteligente que nos orgulha, de nosso filho Iago, atualmente diretor da União Nacional dos Estudantes, entidade da qual participei em meus tempos de estudante. Embora orgulhosos com isso, o que certamente nos motiva vê-lo seguindo nossos passos e se destacando, mesclamos esse sentimento com outro, a preocupação com a situação de indefinição que ronda o nosso país e a necessidade dele precisar se enquadrar em um mercado de trabalho que se tornará cada vez mais competitivo e excludente pelo ambiente de crise e desemprego crescente. São sentimentos naturais, de pais que se preocupam com o futuro de seu filho, agora único, mas, como já disse em outras oportunidades, que carrega duas vidas pela consequência do acaso e do destino.
Vivemos, portanto, nos últimos nove anos uma luta intensa contra a dor de perder uma filha. Superar tornou-se o verbo que passou a ser por nós expressado intensamente, e superação o substantivo que nos impedia de chegar ao limbo. Isso é algo permanente, que nos acompanhará para sempre. Mas, tendo conseguido nos reencontrarmos com a intensidade que a vida nos impõe em realidade, e sendo uma característica que sempre me acompanhou, percebi que mais do que viver essa realidade eu deveria lutar para melhorá-la, mesmo que como uma gota d’água em um oceano de problemas que nos afetam em nossas vidas particulares, no país e no mundo. Assim, juntamos nossas lutas, sem por nenhum momento nos esquecermos de nossa pequena Carol, uma estrela que nos ilumina, um raio de sol que aponta os nossos caminhos. Iago com sua luta estudantil, essencial para levantar a parcela da população que mais grita e impõe medo aos governos; Celma com seus projetos de economia solidária e cooperativismo; e eu, imerso em um mundo que representa um microcosmo da sociedade, mas que exerce uma enorme importância sobre ela: a universidade.
Quase uma década depois, e a partir do dia 14 deste mês, dia do sepultamento da nossa pequena, em que entramos na contagem de dez anos sem ela, certamente não somos mais os mesmos. Nós tornamo-nos diferentes, embora sejamos os mesmos. Eu me sinto muito mais tolerante no tratamento de situações em que o nosso julgamento só pode atingir apenas uma superficialidade do acontecimento. Porque no mais, ir além da superficialidade, impõe que eu conheça a realidade do outro, sua forma de pensar e de viver, suas crenças e escolhas de caminhos por vezes diferentes do meu. O que digo nessas últimas frases representa o sentido de alteridade, aquela necessidade que temos, ou que deveríamos ter sempre, de nos vermos no outro, para que isso facilite cada vez mais a nossa condição de vivermos em sociedade aceitando o jeito diferente de cada um ser, sem preconceitos e mais tolerantes.
Mas isso não tem sido fácil nos tempos atuais. A crise econômica, que afeta as estruturas do sistema capitalista, esse que se impôs hegemonicamente de forma unipolar a partir da última década do século passado, acentuou embates terríveis dentro da sociedade, seja na disputa pelo poder, seja na necessidade de se conquistar um lugar a fim de adentrar o universo do consumismo. Se qualificar e ganhar muito bem, tornou-se uma obsessão, que se descortinou como uma onda, principalmente pela maneira como a burguesia mundial, por meio de seus mecanismos ideológicos de imposição dos valores, via globalização e políticas neoliberais, consolidou na maior parte do mundo. Isso foi bem e criou uma fantasia de um mundo deslumbrante mediado pela concorrência e pelo mercado, mas por pouco tempo. Só que o tempo suficiente para o despontar de uma época marcada por esses valores de forma tão intensa, em função dos meios tecnológicos que se desenvolveram nesse período, que disseminou entre as pessoas um valor das coisas de forma absolutamente fútil, e uma inversão daquilo que antes importava mais. Os sentimentos se diluíram muito mais do que antes, embora já viesse como uma tendência só controlada devido à existência de um mundo socialista que se apresentava como alternativa ao capitalismo egoísta e usurário.
Karl Marx, ao escrever o “Dezoito de Brumário de Luis Bonaparte”, assegurou, numa frase emblemática, que a “história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa”. Assim, ele procurava dizer que não há repetição da história, e a tentativa de assim querer fazer, não passa de um arremedo do que já havia acontecido. Mas ele possui frases que, mesmo destacadas do contexto em que ele abordou, são emblemáticas porque se aplicam, filosoficamente compreendendo-as, a diversas épocas. E a que eu destaquei consta do Manifesto do Partido Comunista: “Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas”.
Iago em manifestação na cidade de
Curitiba, durante greve na educação
O mundo sem minha filha é esse em que, diante uma crise crônica, sistêmica, somos obrigados a compreender as condições sociais em que estamos e como as relações estão sendo destruídas em ambientes onde se fortalece o egoísmo, a ganância e a intolerância. Contudo, e tenho procurado repetir isso sempre que me questionam como superei tamanha dor e de como desejo encarar as dificuldades que estou desafiando, percebi que depois de tantos anos me debatendo contra as injustiças sociais, estudando-as e participando ativamente de lutas para combatê-las, isso é um alimento que me fortalece e me dá ânimo para encarar tempos tão difíceis, mas diante dos quais não podemos nos entregar.
Neste dia 13 vou ao cemitério mais uma vez, como faço todos os anos, e, silenciosamente estabelecerei um monólogo com suas lembranças, reforçando nossas saudades, e refletirei sobre como ela se situaria neste mundo. Se seus desejos, enquanto criança poderiam ter se concretizado, se meus sentimentos seriam diferentes caso não tivesse passado por tamanha dor, se seus beijos e afagos por tantas vezes repetidos manteriam a mesma singeleza num tempo de tantas incertezas, se suas vontades se encontrariam com os verdugos da liberdade, se bateriam contra os arautos da intolerância e encontrariam forças para gritar, como seu irmão, contra as injustiças sociais. Cremos, com toda convicção, que ela carregaria nesses tempos as mesmas indignações e desejos de transformações que correm em nosso sangue, e no sangue do Iago, pois esses valores sempre estiveram presentes em nosso cotidiano, na realidade que vivíamos no passado e no presente.
E, dentre tantas músicas que nos fazem sentir tanta falta dela, quando as escutamos, “Você é linda”; “Jardim da Fantasia”; “Carolina”; “Gostava tanto de você”; “Com a perna no mundo”; “Velha Infância”... uma recitarei de forma especial, porque como tantas sempre nos emociona, e às vezes nos faz chorar, “Pedaço de Mim”: “Oh, pedaço de mim/ Oh, metade adorada de mim/ Lava os olhos meus/ Que a saudade é o pior castigo/ E eu não quero levar comigo/ A mortalha do amor/ Adeus”.
E assim, me dirigirei à minha filha...
Celma e Crol
“Nove anos depois sem você, Carol, em seus dezenove anos construídos em nossas fantasias, nosso amor se mantém como nos dez anos em que a tivemos ao nosso lado, presencialmente, com afeto, com carinho e com alegria. Nossa vida terá sempre você ao nosso lado, a nos dar forças para encarar os infortúnios, as incertezas e o tempo que nos encaminha para a velhice. E você está sempre presente quando olhamos seu irmão, porque ali estão juntos também seus traços, suas vontades, seus desejos de justiça, seus clamores por um mundo mais justo e solidário e o coração repleto de bondades.
E assim, a cada ano em que passamos mais tempo sem você, nos leva a estarmos mais próximos do dia em que, quem sabe, possamos estar para sempre ao seu lado. Beijos. Seu pai”.