sexta-feira, 29 de julho de 2016

LÍQUIDO E CERTO: AS CONTRADIÇÕES QUE AFETAM O CERRADO

Os desafios que temos pela frente são colossais. Digo nós, pesquisadores de uma área que carrega as mais perversas contradições. Entendam que busco nessa palavra o seu sentido etimológico, compreendendo-a como desordem, aquilo que é feito em desacordo com a regra e os costumes.
Mas a essência dessa contradição é que nos leva ao martírio quando a identificamos, logicamente se nos situamos além da compreensão espacial, e entendemos como no nosso tempo transmitem-se valores que invertem tradições, abolem-se costumes e impõem-se aos mais jovens o desafio da contemporaneidade. A busca obsessiva por qualidade de vida, consubstanciada na lógica consumista e nas paixões tecno-científicas.
Ao jovem, esse desafio é impossível de ser refutado. Mas cada um mantém dentro de si a paixão pela lida na terra, o gosto pela cavalgada entre os capins, e o cheiro das verdejantes poucas matas, misturado ao do esterco de gado que exala dos currais e penetram pelas varandas das velhas cabanas de pau-a-pique. A sensação bucólica que isso nos transmite deixa em nós, citadinos, um desejo de retornarmos aos tempos em que carregávamos a tradição rural em nosso estilo de vida. Mas isso, vai se perdendo, com o distanciamento cada vez maior das pessoas, apegadas ao urbano.
Imagem: Lapig
Projeto Terraclass Cerrado 2013
Numa rapidez estonteante, o Cerrado tem vivido essas contradições, não tanto como ocorreu em outras regiões, onde as mudanças levaram séculos. A aceleração, motivada por um sofisticado aparato tecnológico, químico, biológico, industrial etc., traduzido numa devastação desenfreada e em uma alteração radical da paisagem. Em alguns pedaços do Cerrado, as formações campestres, principalmente, são substituídas por plantações de monocultura a perder-se de vista: soja, algodão, cana-de-açúcar, dentre outras. Em alguns casos atingindo chapadões e topos de morros, situações em que aparecem também a criação de gado bovino em centenas de milhares de cabeças por descampados e pastagens donde antes encontravam-se vegetações típicas cerradeiras.
O contraponto se dá no esvaziamento de algumas cidades cujo entorno essas mudanças não alcançam, com o deslocamento de parte da população jovem em direção às cidades médias ou para as metrópoles.
Aquelas outras, por onde a “modernidade” passou, o crescimento populacional se traduz no aparecimento das complexidades inerentes às dificuldades urbanas, na falta de planejamento e na impossibilidade do poder público atender às demandas de uma população que cresce célere e desordenadamente, atraída pelas oportunidades geradas pelo agronegócio.
Essa contradição, não nos permite simplesmente analisar os problemas através de concepções maniqueístas, nem muito menos anacronicamente. Em sendo assim, muito mais do que a condenação sobre o estado de devastação a que o Cerrado está sendo submetido, nós, pesquisadores, devemos também apontar alternativas que possam garantir um desenvolvimento equilibrado com a necessidade de conter a total destruição desse que é um dos maiores biomas brasileiros, com uma rica biodiversidade, ainda existente até os dias atuais.

As águas do Cerrado e a Segurança Alimentar Mundial
Algo, contudo está fora da ordem. Nos últimos tempos tem sido bastante diversificada, e em número consistente, as pesquisas sobre o Cerrado. Importantes estudos nos aproximam das belezas de um bioma que carrega em si uma espécie de quebra de paradigmas, quando o assunto é a análise da paisagem. Solo seco, aparentemente empobrecido, árvores tortas e de troncos ressecados, frutos estranhos (até que os provemos), contrastando com uma estranha beleza de flores exóticas e de cores fortes. Algumas pequeninas ao serem ampliadas expõem uma espetacular imagem, que transmitem uma sensação de prazer, ao ver coisas tão belas entremeadas em contradições.
Como sobrevive o bioma? Tanto quanto os demais, e a natureza em si, a fonte de toda a vida reside na água, sem ela é impossível sobreviver. Os lugares são diversos em suas características, e neles tudo que se desenvolve e compõe sua natureza depende da disponibilidade dos recursos hídricos. E toda a adaptação dos seres vivos que habitam o lugar e desenham a natureza decorre da maneira como eles terão acesso a esse líquido vital.
Segundo Porto-Gonçalves,
O exemplo dos cerrados (savanas) do Planalto Central Brasileiro é um caso emblemático das implicações socioambientais das demandas por água que se vêm colocando em todo o mundo com a expansão da economia mercantil nesse período neoliberal. A água, como se infiltra em tudo – no ar, na terra, na agricultura, na indústria, na nossa casa, em nosso corpo –, revela  nossas contradições socioambientais talvez melhor que qualquer outro tema. Afinal, por todo lado onde há vida há água  (2006, p. 428).
No entanto, pouco se analisa, quando se pesquisa e descreve o Cerrado, sobre como esse bioma é capaz de sobreviver se, além da destruição de sua flora e fauna, esgotarem-se os seus recursos hídricos. Na verdade pouco se tem falado da água do Cerrado. A impressão que fica é de ser esse um bioma exótico cujas águas desaparecem nos seis meses seguintes à estação chuvosa. Sim, pois essa é outra característica, o fato de as estações climáticas no Cerrado não obedecerem à lógica determinada nos estudos dessa área. Então temos muita chuva no verão e sol quente no inverno, embora Primavera e Outono componham um cenário de beleza exposta no colorido das flores que brotam de árvores retorcidas, ou enormes, cujas folhas, em algumas delas desaparecem para dar lugar aos galhos floridos, como no caso dos Ipês que alteram a paisagem do Cerrado na transição entre o Verão e o Inverno.
Foto: Evandro F. Lopes
Mas não é bem assim. Ao contrário do que se imagina, embora bem servido hidrograficamente, o Cerrado tem características peculiares adaptativas a essa aparente irregularidade climática comparativamente a outros biomas. Raízes mais profundas e verticalizadas levam suas plantas a buscarem água nas profundezas subterrâneas, em aqüíferos ou lençóis freáticos, possibilitando a elas sobreviverem a uma escassez de chuvas que pode durar seis meses.
A paisagem altera-se rapidamente, paripasso com expansão da fronteira agrícola ampliando a capacidade de produção e a produtividade no Cerrado. No entanto, a possibilidade de aumentar a produção de toneladas de grãos, com o uso descontrolado da água para irrigar grandes plantações, podem causar não somente o esgotamento de córregos e rios, como também a redução desses depósitos hídricos subterrâneos.
Bem servido por uma rica hidrografia, fundamental para a formação das principais bacias hidrográficas do país, o Cerrado é considerado como um imenso reservatório hídrico que o insere no objetivo geoeconômico central de um sistema de produção de toneladas de alimentos para atender à demanda da economia mercantil não somente no Brasil, mas por todo o mundo. Contudo, o percentual hídrico utilizável visa especialmente atender as atividades agrícolas e industriais, principalmente por meio da irrigação, técnica utilizada para a ampliação da produção de alimentos, destacadamente em regiões que têm como características a baixa fertilidade e a alta acidez, como no caso dos latossolos aqui predominantes, que correspondem a 46% da área do bioma. Segundo Castilho  e Chaveiro,
Em extensão, o domínio do Cerrado é o segundo maior do Brasil. Sua área original era de dois (2) milhões de quilômetros quadrados. Abrange grande área da região Centro-Oeste brasileira como também partes do Norte, Nordeste e Sudeste. O clima é subtropical, semiúmido com duas estações definidas: uma úmida (verão chuvoso) e outra seca (inverso seco). O solo, em grande parte é deficiente em nutrientes, porém rico em ferro e alumínio. Esses fatores, sobretudo o clima, influenciam um tipo de vegetação peculiar (2010, p. 38).
O Cerrado, tanto em relação à correção tecnológica de seu solo, como a capacidade hídrica que dispõe, torna-se o Bioma mais sujeito a esses investimentos. Por isso, nos últimos meses têm aumentado consideravelmente o número de investidores, corporações, e até mesmo países, interessados em adquirir terras no Brasil, diante da importância geopolítica que vai adquirindo a produção de alimentos. Em especial, o Cerrado, por todas essas possibilidades, encontra-se na lista das regiões que mais tem despertado esses interesses.
É importante destacar, diante desses novos investimentos, que o processo de ocupação do Cerrado, na década de 1970 teve a participação importante do governo japonês, que formou uma parceria com o governo de Goiás através do Projeto Nipo-Brasileiro de Desenvolvimento do Cerrado (PRODECER), em parceria com a Japan International Cooperation Agency (JICA). Conforme Barreira e Chaveiro,
No caso do PRODECER, a disputa pelo comércio de grãos entre EUA e Japão lançou o governo japonês para interferir no sistema produtivo do Cerrado. (...) Embora o processo tenha transformado o Cerrado num citurão produtivo importantíssimo, principalmente para a balança comercial do país, ao gerar bens de exportação, houve uma concentração de terras, um aumento da desigualdade e uma concentração espacial, parcialmente fundada na urbanização desigual que espelha um território urbanizado e cheio de problemas.
O PRODECER não acabou, apesar dos problemas que o atingiram, principalmente em função do endividamento de agricultores (DINIZ, 1999) .Mas ele já se encontra em sua IV etapa, dependendo ainda para seu prosseguimento da quitação dessas dívidas, recorrente ainda ao PRODECER II, sendo essa uma condição imposta pelo Governo Japonês. Não foi possível encontrar dados recentes sobre o andamento dos pagamentos das dívidas, referentes também ao PRODECER III.

O Cerrado na Geopolítica dos alimentos
Tem crescido aceleradamente o interesse por investimentos em terras no Bioma Cerrado, não somente em Goiás, mas estendendo-se em direção a uma nova fronteira agrícola, já denominada, MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).[1] Em sua maior parte o ambiente a ser ocupado é composto pelo Bioma Cerrado, numa área de transição para a Amazônia.
Mas, o diagnóstico é preciso, embora às vezes usado de maneira catastrófica: o domínio do Cerrado está sob forte ameaça de extinção, paradoxalmente em função de uma riqueza que, há algumas décadas, poucos acreditavam existir sob os galhos secos e retorcidos de um ambiente incógnito. Quanto às soluções, embora viáveis, dependerão da maneira como os estudos e as pesquisas influenciarão os setores públicos e privados, bem como das possibilidades de promover um desenvolvimento socioambiental que não abdique da capacidade de manutenção da vida na Terra.
A contradição maior, que aflige aqueles que pesquisam o Cerrado, mas que tem uma visão da importância crescente que toma nos dias atuais a produção de alimentos no mundo reside no fato de ser este um bioma, por excelência, adequado a tornar-se a maior região de produção agrícola do Brasil, pela sua topografia, pelas correções tecnológicas em seu solo, e pela capacidade hídrica, mas ao mesmo tempo correr o risco de ver desaparecer toda a sua rica biodiversidade.
Lester  R. Brown, presidente do Earth Policy Institute, aponta alguns dos problemas gerados pela crescente demanda de alimentos no mundo:
A duplicação dos preços mundiais dos grãos desde o início de 2007 foi impelida principalmente por dois fatores: o crescimento acelerado da demanda e a dificuldade crescente de expandir rapidamente a produção. O resultado é um mundo que parece chocantemente distinto da generosa economia mundial de grãos do século passado. Como será a geopolítica dos alimentos numa nova era dominada pela escassez? Mesmo neste estágio inicial, podemos ver ao menos os contornos gerais da economia alimentar emergente.
Do esgotamento de lençóis freáticos à erosão de solos e às consequências do aquecimento global, tudo significa que a oferta mundial de alimentos provavelmente não acompanhará nossos apetites coletivamente crescentes.
Com a elevação das temperaturas, os lençóis freáticos estão diminuindo na medida em que os agricultores bombeiam em excesso para irrigação. Isso infla artificialmente a produção de alimentos no curto prazo, criando uma bolha dos alimentos que estoura quando os aquíferos são esgotados e o bombeamento é necessariamente reduzido à taxa de recarga.
(...) à medida que terra e água se tornam mais escassas, que a temperatura da Terra sobe e a segurança alimentar mundial se deteriora, está surgindo uma geopolítica perigosa de escassez de alimentos. A apropriação de terra, de água, e compra de grãos diretamente de fazendeiros em países exportadores são hoje partes integrantes de uma luta pelo poder global para segurança alimentar (BROWN, 2011).
Isso dá uma dimensão dessa enorme contradição. O desafio, então, que nos cerca consiste em não somente apontar os problemas gerados por uma exploração excessiva do Cerrado, mas também como torná-lo potencialmente explorável no quadro de uma crescente escassez de alimentos no mundo, conservando ao necessário a sua biodiversidade.
A água, nesse aspecto, torna-se o elemento crucial a ser preservado. Embora pouco identificado em muitas pesquisas sobre o Bioma Cerrado, esse líquido constitui-se no principal suporte para dar garantias de manutenção da biodiversidade e, ao mesmo tempo, da produção de alimentos.
Contudo, a rapidez com que tem se dado as exigências para ampliação em uma escala crescente da quantidade de produtos agrícolas para atender a demanda do Brasil e do mundo, levará a um esgotamento não só de rios, riachos, córregos e igarapés, podendo afetar também lençóis freáticos e até mesmo aqüíferos. Além disso, o encharcamento do solo, em função do uso de técnicas de irrigação baseado em grandes pivôs centrais e métodos de aspersão, transformará a qualidade de solo, tornando-o salinizado e reduzindo sua capacidade produtiva.
Os exemplos negativos dessa exploração excessiva do solo, mediante essa prática que tem se tornado intensiva no Brasil e nas regiões do Cerrado, podem ser vistos em outras partes do mundo, como no Mar de Aral (Ásia Central); Rio Colorado (Estados Unidos); Lago Chade (África); e Bacia Murray-Darling (Austrália). A consequência é, com a persistência da exploração abusiva da água, a desertificação e a inapropriação do solo para produção agrícola.
Estabelecer um equilíbrio entre a necessidade de produção de alimentos, considerando toda a capacidade e riqueza do solo cerradeiro, e evitar o esgotamento do rico potencial hídrico do Cerrado, é a condição primeira para a conservação desse que é um dos mais importantes biomas brasileiros.
Esse é o desafio dos pesquisadores. No caso específico do uso da água, as análises dos tipos de métodos de irrigação deverão apontar para uma necessidade de alteração da tecnologia em uso. Inevitavelmente o uso de aspersores e pivôs centrais colocará em risco o potencial hídrico do Cerrado. Corrigir isso é a condição para a manutenção da nossa biodiversidade, aliado a uma alteração da estrutura fundiária, visto que o grande latifúndio impede a adoção de técnicas mais compensatórias, como por exemplo, o gotejamento ou o uso de microaspersores.
Certamente a condição de ser o Cerrado uma região dominada por grandes latifúndios, e não haver perspectivas próximas de alteração nessa estrutura torna mais difícil a solução desse problema. E, como pôde ser destacado anteriormente, é forte a pressão dos grandes produtores, junto aos órgãos estatais responsáveis, para aumentar financiamentos públicos a fim de ampliar a área irrigável. Esta, portanto, constitui-se em uma enorme contradição e um embate entre a razão instrumental e os interesses econômicos imediatistas.
 Considerações Finais
O desenvolvimento de um Estado, de uma Nação, é condição sine-qua-non para a garantia de equilíbrio e harmonia social. Resgatar uma imensa dívida com as populações pobres tem sido uma das metas prioritárias que embalaram os planos de governos nas últimas décadas. Mas isso não pode ocorrer ás custas da destruição de uma rica biodiversidade do Cerrado como vem ocorrendo de diversas maneiras, demonstrando o impacto perverso que o progresso a qualquer custo causa no Cerrado e nas populações tradicionais que ali vivem. O quadro político atual, com a iminência da radicalização de políticas conservadoras e o protagonismo político reforçado dos setores latifundiários e do grande agronegócio no novo governo brasileiro, imposto pelos setores que controlam os meios de produção, tende a piorar essa situação.
Resta lutar por um desenvolvimento que possa se aproximar o máximo possível do que se imagina ser a sustentabilidade ambiental. Devem-se buscar práticas conservacionistas que contemplem a ampliação da produção agrícola com a garantia de que os recursos hídricos e a biodiversidade do Cerrado não desaparecerão para atender a uma lógica produtivista que venha a desconsiderar a importância que a natureza possui para a nossa vida, para “o nosso futuro comum”.
Devemos apostar na vida humana em perfeita harmonia com a natureza, através da sensação de um prazer encontrado em um equilíbrio advindo da essência do ser... humano, vegetal, animal.
O futuro da humanidade depende desse equilíbrio. Se nos custa acreditar em desenvolvimento sustentável, conforme FOLADORI (2001) diante de uma lógica consumista descontrolada cabe-nos buscar outras maneiras de construir alternativas. Eliminar a pobreza não significa acabar com os pobres, mas também não pode significar por fim à natureza, porque em sua extensão significará a eliminação de toda a vida humana.
O Planeta tem sede... O Cerrado tem sede. Dai, água a quem tem sede, pois que senão corre-se o risco de morrer-se estorricado.


NOTAS:
* Este texto foi produzido em 2012 como colaboração às pesquisas desenvolvidas para o Projeto Biotek – Apropriação do Território e Dinâmicas Sócioambientais no Cerrado: Biodiversidade, Biotecnologia e Saberes locais, vinculado ao Laboratório de Estudos e Pesquisas das Dinâmicas Territoriais – Laboter/Iesa. 
** Publicado originalmente na revisa eletrônica, Cadernos Territorial. Acesso pelo link: http://www.cadernoterritorial.com/news/liquido-e-certo-as-contradicoes-que-afetam-o-cerrado-romualdo-pessoa-campos-filho/
[1]“A expressão MATOPIBA resulta de um acrônimo criado com as iniciais dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Essa expressão designa uma realidade geográfica que recobre parcialmente os quatro estados mencionados, caracterizada pela expansão de uma fronteira agrícola baseada em tecnologias modernas de alta produtividade”. Extraído do site: https://www.embrapa.br/gite/projetos/matopiba/matopiba.html. Acesso em 20 de outubro de 2015.


Referências
BROWN, Lester R. Revista Foreign Policy. reproduzido pelo jornal O Estado de S.Paulo,  em 22.05.2011.
CHAVEIRO, Eguimar, BARREIRA, Celene Cunha Monteiro Antunes. Cartografia de um Pensamento do Cerrado. In: PELÁ, Márcia C. H.; CASTILHO, Denis. Cerrados: Perspectivas e Olhares. Goiânia: Editora Vieira, 2010
CASTILHO, Denis, CHAVEIRO, Eguimar Felício. Por uma análise territorial do Cerrado. In: PELÁ, Márcia C. H; CASTILHO, Denis (Org.). Cerrados – Perspectivas e OlharesGoiânia-GO: Editora Vieira, 2010
RIBEIRO, Wagner Costa. Geografia Política da Água. São Paulo; Annablume, 2008
DINIZ, Maurício Sampaio. Dívidas do Prodecer somam R$ 400 milhões. In: Gazeta Mercantil, 15 de jul., 1999.
ESTADO. Suplemento especial sobre o CerradoSão Paulo: Jornal O Estado de São Paulo, 26 de set., 2009. Disponível em. Acessado em jul., 2010.
FOLADORI, Guilhermo. Limites do Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: Editora Unicamp, 2001
FAEG, Comissão de Irrigantes. Anuário da Irrigação 2008. Goiânia: Federação da Agricultura e Pecuária no Estado de Goiás, 2008.
O POPULAR. Araguaia pode ter hidrovia até o ParáGoiânia: Jornal O Popular, de 10 de agosto de 2010. Disponível em . Acessado em ago., 2010.
PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

SEPLAN. Anuário estatístico do Estado de GoiásDisponível em . Acessado em ago., 2010. 












domingo, 17 de julho de 2016

AINDA O ENIGMA DA ESFINGE: COMO DECIFRAR A POLÍTICA BRASILEIRA?

Só quem convive com a política consegue compreender a complexidade que está por trás das difíceis relações que são necessárias em um ambiente democrático. O parlamento é, neste particular, um palco onde os acontecimentos nem sempre seguem a lógica desejável. As correlações de forças impõem, necessariamente, negociação, pactuação, alianças e concessões. Depende da conjuntura, que em momentos de crise se modifica numa rapidez muito grande, principalmente quando se lida com uma maioria fisiológica, mais facilmente suscetível a seguir governos que se dispõem a ceder a suas chantagens, em busca de vantagens pessoais.
O ambiente político brasileiro atingiu um limite pernicioso, alçado a essa condição pela obsessão golpista dos que controlam a economia e de seus representantes, conservadores e direitistas. Para ter noção dessa complexidade é preciso mergulhar na composição congressual, no perfil desses parlamentares e das dezenas de partidos que surgem com o intuito de facilitar as barganhas daqueles que julgam não ter espaços em seus partidos de origem. E assim, quanto mais partidos cujos objetivos não é a política, mas as negociatas, mais torna-se difícil conter rebeliões e a ascensão de lideranças oportunistas, que se tornam porta-vozes dos “enjeitados”, e dificulta a governabilidade. No caso de um sistema presidencialista, essas dificuldades emparedam qualquer governante e o força a negociar em condições indesejáveis, pois sob pressão, diante da necessidade de ser aprovados projetos imprescindíveis para a condução das ações governamentais.
Portanto, estou partindo de um pressuposto quando faço essa análise: o caos político atual. Mas não de um desejo de ver a política derrotada. Mas me pergunto: diante das circunstancias postas, em que está em curso um processo de impeachment absolutamente fraudulento, um golpe aplicado para apear do poder quem foi legitimamente eleita, e garantir às forças conservadoras a retomada do controle do estado por meios ilegítimos, corrompendo a democracia e se beneficiando de uma justiça seletiva, qual deveria ser a estratégia da esquerda na relação com esse parlamento?
Ora, se o embate dos últimos meses tem sido contra o golpe que está prestes a destituir a presidenta, e isso se deu como decorrência de um parlamento corrompido e dominado pelo fisiologismo, porque haveria de ser uma preocupação, nesse instante em que se aproxima a hora fatal desse processo, retomar a estabilidade da condução dos trabalhos parlamentares?
Pensemos em primeiro lugar, antes de analisar a estratégia adotada pelos partidos de esquerda, o que possibilitou esse ambiente golpista. Naturalmente isso só foi possível porque a presidenta Dilma perdeu toda e qualquer relação política sobre esses parlamentares, controlado que era pelo presidente da Câmara Eduardo Cunha. Somente essas fragilidades na relação política, aliado às investigações da Operação Lava Jato, que mirou em dezenas de parlamentares, incluindo aí suas principais lideranças, possibilitaram esse desequilíbrio político que criou um caos institucional e depôs a presidenta. Se tivesse o controle do parlamento e com isso mantivesse o apoio da maioria, em uma Câmara pacificada, dificilmente o impeachment teria avançado.
Partindo desse pressuposto, um Congresso caótico dificulta a vida de Michel Temer e sua governabilidade. E olhando agora para o momento da escolha do novo presidente da Câmara, em função da renúncia de Eduardo Cunha, agora prestes a perder o mandato e, provavelmente, ser preso pelos crimes que estão sendo apontados nas investigações da Lava Jato; e estando em curso ainda o processo de cassação da presidenta, cuja definição final irá coincidir com o momento em que será selado também o destino de Cunha, qual deveria ser a estratégia da esquerda?
Ora, pode-se dizer, e isso é correto, que a política sai perdendo com um parlamento submetido ao controle de um grupo que esteve por todo esse tempo fiel às artimanhas e perversidades de um indivíduo corrupto, fisiológico e reacionário. Mas, diante da provável cassação da presidenta, mediante artifícios golpistas, em que a grande maioria desse parlamento votou para derrubá-la, e com um governo ilegítimo ainda enfraquecido por ter muitos de seus ministros envolvidos com atos corruptos, não parece ser difícil supor que os parlamentares de esquerda deveriam criar dificuldades de governabilidade para o governo golpista.
Nesse sentido, por inverso, os demais partidos, conservadores, de direita ou de centro, esses sim, deveriam estar preocupados em dar condições para estabilizar a política, de forma a garantir sucesso para o presidente Michel Temer, posto lá provisoriamente, e às vésperas de ver decidido seu destino. A instabilidade do parlamento, considerando que o impeachment seja mantido, com a destituição da presidenta Dilma, poderia dificultar a aprovação de medidas que estão sendo preparadas para retirar direitos dos trabalhadores e consolidar um programa de redução do Estado, mediante privatizações, e de uma agenda conservadora que mira nos comportamentos e nas liberdades individuais. Sem liderança forte, esse grupo fragmenta-se, como já aconteceu em outras situações.
Não me parece ter sido uma estratégia adequada da esquerda avalizar um nome do partido mais ideológico à direita do espectro político. O DEM foi alçado ao cargo de maior importância na iminência do afastamento da presidenta Dilma. Rodrigo Maia, além de presidir a Câmara dos Deputados, poderá ser o vice-presidente. Claro que tudo isso poderá acontecer, mesmo sem o apoio de parlamentares de esquerda, mas, diante do embate vivido nos últimos anos, alimentado pelo grupo PSDB-DEM-PPS como decorrência da não aceitação do resultado eleitoral, e do “despertar das bestas” reacionárias, torna-se necessário sinalizar para a população como se divide esses campos ideológicos. Quem é quem nesse jogo político que está implantando mudanças políticas que atrasam os avanços democráticos do país e visam eliminar direitos sociais e liberdades individuais.
Quanto ao argumento de derrotar o candidato do Cunha, me parece neste momento bastante pueril. Cunha já está derrotado. Será cassado e provavelmente preso. É um cadáver político insepulto. Já o grupo, denominado Centrão, que ele arrebanhou e liderava, e junte-se aí uma bancada evangélica conservadora, são fisiológicos. Vão para onde sopra o vento. Não são tolos, e esquecerão rapidamente de seu pérfido líder. Seus componentes são permissivos e precisam ser desmoralizados para a população para que haja uma renovação na próxima eleição. Mas, pacificá-lo, num momento crucial de definição dos destinos da presidenta Dilma foi um grande equívoco e uma estratégia que mira somente na estabilidade do parlamento.
Ora, que estabilidade? A favor de quem? Eles serão rapidamente convertidos com as nomeações para milhares de cargos de segundo e terceiro escalão que ainda não foram preenchidos, e por seus perfis conservadores colaborarão para aprovação de medidas antipopulares, como já prometeu o próprio presidente interino golpista Michel Temer. Este sim, precisa ser ferrenhamente combatido, e não merece um parlamento pacificado para facilitar a aprovação de seus pacotes de maldades.
Fonte: Conexão Jornalismo
O melhor cenário no segundo turno da Câmara seria com a presença de um candidato que não contasse com o aval dos golpistas. E a esquerda perdeu a oportunidade de fazer isso, ao não se unir em torno da candidatura do Deputado Marcelo Castro, do PMDB, que votou contra o impeachment. Mas o pragmatismo político prevaleceu, e, inexplicavelmente para a maioria da população, parlamentares que gritam NÃO VAI TER GOLPE! e FORA TEMER! preferiram um candidato golpista... contra um candidato golpista, identificando o que seria menos ruim para garantir a estabilidade do parlamento e a melhoria nas relações políticas que permitam evitar o rolo compressor da maioria. Eu entendo, embora não concorde, mas não creio que a maioria daqueles que se unem nessa indignação venha a compreender essa posição.
Não acredito em redenção democrática com a atual composição desta Câmara dos Deputados, muito menos tendo na presidência um parlamentar do DEM.
Isso é certo. Vamos ajeitando o rumo.
Mas, esta é apenas uma análise, e, portanto, está sujeita a ser desmentida pelos fatos que virão, e até mesmo a depender da confirmação, ou não, da cassação do mandato da presidenta Dilma e a consolidação do golpe de estado institucional. Aguardemos então, os próximos capítulos, neste longo ano político de 2016. Mas seja qual for os rumos a ser tomado, me mantenho no mesmo caminho que tenho seguido, e com total confiança naqueles parlamentares progressistas, principalmente os do partido que estou filiado desde 1980, o PCdoB, que convivem com situações difíceis, mantendo suas combatividades em um ambiente permissivo e deprimente como o atual congresso nacional. A luta continua! Fora Temer!


Enquanto elaborava essa análise fui procurado pelo jornalista Renato Dias para uma entrevista ao Jornal Diário da Manhã, exatamente sobre o quadro político brasileiro. O que eu disse em certa medida está contido no que eu estava escrevendo aqui, mas insiro-a abaixo pois ela tem outros aspectos que seriam a conclusão do que finalizaria este artigo. Leiam a seguir:
TEMPOS SOMBRIOS NO BRASIL: OBJETIVO DA LAVAJATO É PRENDER O LULA.
Entrevista com ROMUALDO PESSOA
Por Renato Dias. Jornal Diário da Manhã
https://impresso.dm.com.br/edicao/20160717/pagina/11
Diário da Manhã - Eduardo Cunha será cassado?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Eu tenho certeza disso. Há atualmente entre os principais partidos, a necessidade de apresentar, com a cassação Cunha, um sentimento de conformidade. Ou seja, de volta à normalidade nos trabalhos legislativos. Obviamente há por trás disso, com a “imolação desse bode”, a tentativa de livrar aqueles parlamentares que estão sob fogo cruzado da Procuradoria da República e do Supremo Tribunal Federal. Mas é evidente que a cassação dele é uma questão de justiça. Aliás ele já comete esses mesmos crimes que estão agora sendo julgados, desde a década de 1990. Ele e outros que ainda deverão ser julgados. Espero.
DM - O que muda com a eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados?
Romualdo Pessoa Campos Filho – A eleição de Rodrigo Maia serve para garantir essa sensação de normalidade. E dá o equilíbrio aos grupos que forçaram o impeachment da presidenta Dilma Roussef. O Bloco PSDB-DEM-PPS, se vê assim representado não somente com a presidência da Câmara, mas com a vice-presidência do país, no caso de se consolidar o impeachment. Apesar de muito ter sido dito sobre o apoio de Michel Temer ao Rosso (PSD), é evidente que a eleição de Maia lhe dá mais tranquilidade, pois abre mais possibilidades de negociações pela política. Diferente do comportamento adotado pelo chamado Centrão, liderado por Eduardo Cunha, esse bloco de centro-direita que se vê agora representado pelo Maia comunga das mesmas ideias contidas nas propostas de reforma do governo golpista, principalmente no campo econômico. Vai garantir a ele aprovar projetos e até mesmo alterar artigos constitucionais. E isso é péssimo para os trabalhadores e trabalhadoras. Talvez não fosse diferente com o Rosso, mas manteria a Câmara sob tensão e fortes conflitos. Penso que o grande beneficiário desse processo foi Michel Temer.
DM - Impeachment, sem crime de responsabilidade, é golpe?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Com certeza. O julgamento da presidenta não é por questões jurídicas, nem por possíveis crimes que ele tenha cometido. Ainda esta semana o Ministério Público, por meio de um parecer enviado à justiça pelo Procurador da República no Distrito Federal, Ivan Marx, concluiu que não configuram crimes as acusações que pairam sobre a presidenta. E ele pede o arquivamento do pedido de investigação para apurar infração penal. Essa é mais uma evidência de que o processo em curso, que objetiva afastar definitivamente a presidenta legitimamente eleita é uma fraude. Um movimento político, que buscou um pretexto e encontrou nas sandices e ódio de Eduardo Cunha o caminho para implementar um golpe institucional, mas nitidamente anticonstitucional. É um golpe de estado de caraterísticas diferentes dos tradicionais, mas que já se repetiu em diversos países aqui na América Latina, Central e no Leste Europeu.
DM - Dilma Rousseff pode voltar?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Há possibilidades, na medida em que fica nítido o caráter golpista deste movimento. Além do que pouco se alterou desde a posse de Michel Temer como interino na economia. Ao contrário, o desemprego tem aumentado, os preços de alimentos dispararam, dívidas dos estados de forma vergonhosa foram adiadas, e as reformas já discutidas apontam para retirar dos trabalhadores os direitos conquistados com muita luta nas últimas décadas. Tudo isso a ser feito por um governo que não foi eleito.

DM - Paulo Henrique Amorim diz que Lula será preso. O senhor acredita nessa possibilidade?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Ele sempre foi o principal alvo. O objetivo da Lava Jato, desde o começo é prender o Lula. Ele continua sendo o fantasma a preocupar os partidos conservadores e de direita, que por três eleições tentavam retomar o poder pelas eleições, e não conseguiam. Lula é o fantasma que atormenta esses setores, na medida em que, se for candidato em 2018, poderá vir a ser eleito mais uma vez. Mas, é evidente que a prisão de Lula só será possível se surgirem provas irrefutáveis de seu envolvimento nesses esquemas que estão sendo investigados. Pela sua dimensão política, aqui no Brasil e no exterior, uma prisão com base em delações de indivíduos dispostos a não ir para cadeia certamente causará uma enorme estranheza e provocará todos os tipos de reação.
DM - A Justiça, no Brasil, é seletiva?
Valdir Misnerovicz, líder do MST
preso em Goiás
Romualdo Pessoa Campos Filho – Sim. Sempre foi. Isso é secular, é uma herança perversa dos tempos coloniais, da forma como se comportavam os que possuíam fortunas. Somente quem não estuda história não entende como isso prevalece até os dias atuais. Eu pesquisei não só a Guerrilha do Araguaia, mas também as condições em que ficou a região onde o conflito aconteceu. Ali, no Bico do Papagaio (Sudoeste do Pará, Norte do Tocantins e Sul do Maranhão), no final da década de 1970, por toda a década de 1980 e ainda nos tempos atuais, os conflitos pela terra levou à morte milhares de trabalhadores rurais e de lideranças políticas e sindicais. Os grileiros e suas milícias criadas pela UDR, atuavam livremente com o apoio das polícias e sob a proteção da justiça. Foram poucos os crimes ali cometidos que os seus assassinos foram a julgamentos. E os que foram terminaram sendo absolvidos ou contaram com a leniência da Justiça para se verem livres. Isso persiste, lá e em qualquer lugar do país. Aqui em Goiás, por exemplo, existem hoje presos políticos por conta de suas atuações junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB). Inclusive um ex-aluno nosso, do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG (IESA), que terminou o metrado há pouco tempo, Valdir Misnerovicz, se encontra preso, acusado de liderar uma “organização criminosa”, acusação odiosa aplicada a uma das mais importantes organizações que luta pelo direito constitucional à terra para os camponeses. Ora, há exemplo maior de seletividade do que essa? Dentre tantas, naturalmente, basta fazer um censo presidiário para ver.
DM - A esquerda, no Brasil, não deve se reinventar?
Romualdo Pessoa Campos Filho – A esquerda brasileira é um caso para psicanálise. Eu participo há décadas o mesmo partido, sou hoje mais um filiado do que um militante. Como o historiador Eric Hobsbawm, sem querer me comparar a ele, naturalmente, mantenho a coerência pela escolha ideológica do que eu compreendo ser a melhor leitura do marxismo aqui no Brasil. Com isso não desejo menosprezar as demais. Só que também divirjo em alguns momentos e tenho a liberdade para opinar sem nenhum tipo de patrulhamento. Mas é inadmissível ver uma direita se articular e se unificar em torno do objetivo central, que é a tomada do poder, muito embora haja também contradição em seu seio, e não ver a mesma iniciativa por parte da esquerda. Ao contrário, se divide mais nesse processo e passam a se atacar quando o impossível consenso não se faz. Isso sempre aconteceu, e é lamentável, mas pior ainda é ver o país passar por uma crise em que uma presidenta de um partido de esquerda foi golpeada e apeada do poder por esses setores de direita e mesmo assim o entendimento não acontece.
DM - O que deveria conter uma Reforma Política?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Uma reforma política só seria possível com a eleição de uma Assembleia Nacional Constituinte. Eu defendo que a presidenta Dilma retorne ao cargo onde o povo a colocou e encaminhe ao Congresso Nacional um plebiscito para que o povo se manifeste sobre uma antecipação das eleições presidenciais. Seria o melhor para o país.  Mas é impossível governar com esse sistema político atualmente vigente. Só que não dá para essa reforma ser feita por um Congresso deslegitimado como o atual. Não há mais confiança do povo nesses parlamentares, e o que eles fazem não se coadunam com os desejos e necessidades da população. Seus interesses são corporativos, de setores bem servidos economicamente na sociedade, ou representantes de propostas conservadoras religiosas que tentam absurdamente moldar as pessoas, mesmo os que não seguem suas religiões, aos seus desejos e representações ideológicas. Portanto, qualquer reforma política neste momento, a meu ver, passa pela devolução do poder a quem é de direito e pela convocação de um plebiscito para novas eleições. A reforma política deve ser consequência desse processo, a partir da convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte eleita exclusivamente com esse objetivo.
DM - O que há de atual no marxismo?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Depende da leitura que se faça dele. Eu sempre gosto de citar uma frase de Hobsbawm, em que ele diz que um historiador não pode, jamais, cometer o erro do século. Ou seja, não pode trocar um século pelo outro. Isso é o que em história chamamos de “anacronismo”. Essa era uma preocupação de Marx e é sobre ele a citação de Hobsbawm. Então, se lemos as obras de Marx hoje, devemos em primeiro lugar ter a clareza do tempo em que ela foi escrita, pois muito do que ali está contido diz respeito às condições estruturais e conjunturais de sua época, o século XIX. Portanto, eu não posso desconsiderar, ao ler as obras de Marx que vivemos uma época completamente diferente, principalmente na velocidade com que se dão as transformações econômicas e sociais, daquele tempo vivido por Marx. Mas, é evidente que quando o Marx se debruçou para analisar as relações econômicas que se consolidavam e moldavam o capitalismo, e isso ele, juntamente com Engels, fez na magistral obra O CAPITAL, seu enfoque foi estrutural, de compreensão sobre os mecanismos de funcionamento de um modo de produção que se afirmava em seu tempo, mas cujas relações definiam bem como ele seria. Assim, quem quer conhecer os mecanismos de funcionamento do Capitalismo deverá, inevitavelmente, ler essa obra. Isso tanto é verdade que logo depois que explodiu a crise econômica atual, no ano de 2008, as editoras correram para reeditarem praticamente todos os livros e economia de Marx, principalmente O CAPITAL.  Mas o “marxismo” não é uno, e existem várias leituras do que se tornou  uma linha de pensamentos e de construção ideológica a partir das idéias de Marx e Engels. As lutas revolucionárias e os embates entre correntes de esquerda levaram a proliferação de uma grande quantidade de grupos marxistas, mas com leituras diferentes, e muitas absolutamente anacrônicas, desconsiderando-se as diferenças entre as épocas passadas e as atuais. Isso leva a equívocos na interpretação das obras de Marx. Mas não só de Marx, como também de seus principais seguidores.
DM - A luta de classes acabou?
Romualdo Pessoa Campos Filho – De jeito nenhum. Está mais visível do que nunca. E nunca desapareceu. O mundo é constituído por classes sociais, e há um permanente embate entre os que controlam as riquezas e os que só dependem da sua força de trabalho para sobreviver. Essa lenda de fim da luta de classes foi implantada na cabeça das pessoas, inclusive e lamentavelmente nas universidades, como consequência do processo de globalização e a derrota do socialismo. Era preciso criar as condições para vender ao mundo a ideia de “fim da história” com o capitalismo. Negar a luta de classes era a condição para implementar o neoliberalismo e apontar para as pessoas que qualquer um poderia se beneficiar com as transformações tecnológicas de um capitalismo que precisava se reestruturar diante de uma crise que vinha da década de 1970. As diferenças geradas por esse processo só fizeram aprofundar mais ainda as desigualdades sociais, a concentração da riqueza e, com a intensificação da crise, do aumento do desemprego. Vivemos atualmente uma situação em que fica mais do que evidente uma luta de classes, embora, como decorrência de uma forte evangelização neopentecostal, com a dita “teologia da prosperidade”, muitos ainda insistem em negar o óbvio.
DM - O socialismo ainda é uma possibilidade histórica?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Sim, claro. Creio que os ideais do socialismo sempre estiveram presentes nos tempos em que se constituiu a civilização ocidental, de uma cultura inspirada no cristianismo primitivo. Se pegarmos, por exemplo a expressão “comunhão” e “comunismo”, elas têm o mesmo significado: “comum união”, “comunidade”. E enquanto houver desigualdades sociais esse sentimento vai estar sempre presente. O capitalismo não consegue mais atender aos anseios de um povo que deseja mais do que lhe foi oferecido. E sempre lhe foi oferecido além do que ele poderia obter. Por isso vivemos uma época de instabilidade, de pessoas desejosas de consumir cada vez mais, sem que isso seja possível. Isso se reflete no comportamento, na violência, na intolerância e na fuga para os templos religiosos. Mas, certamente não será como antes. As condições para que o socialismo ressurja estão dadas, mas todas as transições são complexas, contudo creio que estamos chegando no auge das contradições do capitalismo.
DM - Júlia Lemos Vieira, doutora em Filosofia Política, diz que Karl Marx não dá receitas. O senhor concorda?

Romualdo Pessoa Campos Filho – Plenamente. O Marx procurou entender o mecanismo de funcionamento de um modo de produção que tinha na exploração da força de trabalho a base para a acumulação do capital. E a partir daí ele mergulhou numa análise estrutural, mas ao mesmo tempo histórica, econômica, sociológica e filosófica. Portanto, bastante complexa para ser utilizada de forma dogmática.

terça-feira, 12 de julho de 2016

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE – ATINGIMOS O AUGE DAS CONTRADIÇÕES?

Nunca, em nenhuma época, vivemos acontecimentos de forma tão acelerada e intensa. Milton Santos, que morreu há 15 anos, afirmava em sua obra que analisa o processo da globalização, que vivemos um tempo de transição, que se prolongaria tanto mais quanto se tornasse mais difícil encontrar-se alternativas para superar e substituir um sistema em crise crônica.
Há alguns meses escrevi no Blog um texto, apresentando uma série de artigos em que analisava a atual conjuntura política, e no último parágrafo sintetizei essa situação, de uma transição em lenta agonia, já que as perspectivas de novos caminhos se apresentam numa absoluta incógnita.
“Estamos em meio a uma luta de classes encarniçada, a uma grave crise econômica e, também, em meio a uma transição de um sistema que atingiu seu auge, e consequentemente os limites de suas contradições. Mas, para onde vamos, ainda é uma incógnita, o que só torna a transição mais complexa e mais suscetível a conflitos, enfrentamentos políticos, religiosos e guerras de proporções mundiais. Quando o velho insiste em sobreviver e o novo demora a surgir, em se tratando de formações sociais, temos diante de cada um que vive esses momentos, uma longa, violenta e perigosa transição. Resta-nos a resistência para que dentre os caminhos propostos não nos deparemos com retrocessos, nem nos encaminhemos para um abismo”.
Crise: década de 1970
O século XXI já começou embalado por fatos que deixou a todos inseguros sobre o que aconteceria nos anos seguintes. Percebido que o “bug do milênio” não passava de um temor carregado de tolices, e espetacularizado por uma mídia que se especializou em criar o medo do imponderável de forma estúpida, pior do que as crenças nas divindades vingativas, os atos de 11 de setembro de 2001 demonstrou que algo pior estaria por vir. O que ruiu naquele dia não foi somente duas torres, e a trágica perda de milhares de vidas humana, vítimas do ódio alimentado pela irracionalidade de podres poderes. Ali se sentiu estremecer a estrutura econômica de um sistema que já estava claudicante desde os anos 1980, ainda como consequência de uma crise gestada na recomposição dos preços do petróleo, no bojo da criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).
Se o século XX foi intitulado pelo brilhante historiador Eric Hobsbawm, como o breve século, e um dos mais violentos da história, este tem tudo para ser um longo século, porque será arrastado por uma crise de duração prolongada, e quiçá não seja entremeado também por conflitos de dimensão mundial. Registre-se que outro intelectual, um economista, Giovanni Arrighi, já se referira ao século XX, como um longo século, porque foi buscar no entendimento de como a formação dos impérios foi essencial para a consolidação do sistema capitalista, efetivado exatamente no século anterior. O longo, ou o breve século XX, pela abordagem do historiador ou do economista, ambos marxistas, representam uma análise da formação histórica do capitalismo e dos sobressaltos de uma complexa economia, que só vai tornar esse sistema eficaz e vitorioso na segunda metade daquele século.
Mas há um forte diferencial, a tornar longa essa transição. No começo do século XX, uma parte considerável da humanidade acreditava ter ao seu alcance uma alternativa para substituir o sistema capitalista, embora este só tivesse se espalhado por todo o mundo naquele momento, efeito da expansão imperialista. Mas já era visível, principalmente com a grande depressão, que o capitalismo sobrevivia às custas de contorcionismos cada vez mais mirabolantes, salvo em seu extremo, na década de 1930, por uma teoria que tomou emprestado do socialismo, o planejamento e a forte ação estatal, e por uma guerra que destruiu e fez se tornar necessário a reconstrução de uma Europa devastada, que se tornou o laboratório para o keynesianismo e a sobrevida do capitalismo. Mais do que uma sobrevida, o capitalismo foi turbinado pelas novas possibilidades encontradas com as teorias que garantiram o “welfare state” e transformou os EUA no maior credor do mundo.
No entanto, os anos dourados que impulsionaram a economia mundial até a década de 1970 baseava-se fundamentalmente em princípios liberais tradicionais, cujo foco principal era a produção e a circulação de mercadorias, a curta e longa distância. Muito embora seus fundamentos inspirarem-se no livre mercado, todo o seu impulso contou sempre com a intervenção do estado. Isso se intensificou com o keynesianismo, e, por outro lado, com os movimentos nacionalistas nos processos de lutas anticolonialistas. A existência de uma forte corrente pró-socialismo manteve esse comportamento nas medidas econômicas que vigoraram até o final dos anos 1970. Os anos 80 puseram em xeque a tendência natural do capitalismo: seu caráter marcadamente expansionista.
Com as economias esgotadas, naquela que ficou conhecida como “a década perdida”, restou aos estados hegemônicos apressar a derrubada dos países socialistas, envolvidos internamente com o esgotamento de um modelo que não conseguiu se expandir para garantir condições de vida que se aproximasse das melhorias conquistadas pelas populações dos países europeus, cujas economias foram injetadas pelo Plano Marshall no pós-guerra.
No fim da década, a queda do socialismo e, principalmente, após a dissolução da União Soviética, o caminho abriu-se para uma reestruturação no capitalismo. Seja mediante uma expansão em direção ao leste europeu, e até mesmo penetrando nas fronteiras caucasianas e na Rússia, ou disseminando pelo restante do mundo a necessidade de desregulamentação da economia, reduzindo a intervenção do Estado na economia e derrotando as políticas nacionalistas protecionistas naqueles países periféricos, ou então vistos como subdesenvolvidos. Pela nova lógica que se disseminava, o nacionalismo e o excesso de intervenção do Estado eram fatores para manterem essas economias fragilizadas.
Esse processo tem sido analisado com mais intensidade na última década. No entanto, muito embora as vozes críticas da globalização, e das políticas neoliberais, fossem sistematicamente desqualificadas, desde o início desse processo já se analisavam as terríveis consequências de políticas econômicas cujo foco era tão somente atender os interesses dos que controlavam o dinheiro, e buscavam novas formas de garantir a acumulação, mediante medidas que facilitassem a circulação do capital e sua aplicação ao redor do mundo.
A partir de então, e numa rapidez estonteante, escorados em novas tecnologias, o dinheiro circulou o mundo com mais liberdades, e se multiplicaram as aquisições e fusões de grandes empresas, levando à concentração da riqueza de forma ainda mais visível. Proporcionalmente reduziu-se o percentual daqueles que concentravam a maior parte dessa riqueza. Ou seja, um número cada vez menor de pessoas, passava a controlar uma quantidade cada vez maior de dinheiro. O oligopólio passou a caracterizar essa nova etapa, e o poder das grandes corporações assumiu uma dimensão espantosa.
A ganância atingiu todos os recantos do planeta numa força impressionante. Ideologicamente houve uma mudança na maneira de entender o liberalismo, mas isso foi facilmente disseminado com um marketing violento, por meio da imprensa, do cinema, das propagandas. Tornou-se uma verdade absoluta render homenagem ao sucesso da globalização. Praticamente não se falava mais de outras alternativas ao capitalismo, e os que ousavam enfrentar o “pensamento único” eram vistos como vozes que pregavam teorias ultrapassadas, e, aproveitando o sucesso dos “blackbusters” de Spielberg, apelidados de “jurássicos” e afrontados ironicamente.
Mas os protagonistas do sistema tomaram um rumo semelhante ao jogador viciado que não consegue abandonar a banca de jogo, presos pela cobiça. Tão rápido quanto os avanços tecnológicos, foram os mecanismos inovadores nas formas de se ganhar dinheiro fácil, através das oportunidades com que se podia investir em empresas por meio de bolsas de valores 24 horas por dia, em todos os cantos do planeta. Principalmente naqueles países mais frágeis, cujas pressões das organizações globais encarregadas de padronizar as políticas econômicas, se davam mais facilmente, como decorrência dos comportamentos submissos das elites locais. Os juros extremamente elevados criaram portos seguros para investidores usuráveis, e eram garantidos pelas pressões exercidas pelas governanças globais, que impediam qualquer tipo de controle sobre os recursos investidos e dificultavam a adoção de medidas que taxassem seus investimentos no mercado especulativo, sem nenhuma preocupação com as condições econômicas desses países. O “rentismo” passou a se constituir na mais nova forma de se acumular dinheiro, uma nova característica do capitalismo, e criou um novo tipo de burguesia, mais preocupada com as oscilações das bolsas de valores do que com a capacidade de consumo para investimentos produtivos.
No entanto, o sistema não se recuperara por completo da crise iniciada na década de 1970. Muito embora a globalização se apresentasse como a consolidação definitiva do capitalismo, o rumo que o mundo tomou, com o crescimento da ganância e a redução do controle sobre a economia, abriu rombos que deixou incertezas e muitas dúvidas sobre a capacidade de recuperação. Mas isso só era visto por um grupo pequeno de economistas, ou de ativistas políticos ideologicamente avesso ao capitalismo, suas credibilidades eram postas em xeques e suas críticas não eram repercutidas pela grande imprensa.
Tudo se tornou visível, após esse período de inebriamento e crescente ganância, quando em 2008, rendendo-se aos fatos a grande mídia noticiou ao mundo o que alguns economistas já alertavam, sem serem ouvidos: o sistema financeiro estava à beira do “crash”. A quebradeira acontecia e arrastava a economia em meio a escombros de um tsunami econômico e social, de proporções imprevisíveis.
O ponto fora da curva teria sido as especulações feitas por meio de hipotecas no mercado imobiliário estadunidense. Mas esse foi apenas um fator, outros já vinham causando fissuras na estrutura do capitalismo. Desde os ataques ao World Trade Center, aos gastos milionários com as invasões do Iraque e Afeganistão, e a desastrosa “guerra ao terror”, além dos vai-e-vem no preço dos barris de petróleo, tudo isso e mais outros motivos, se juntaram a absoluta falta de controle de um sistema que perdeu a capacidade de  se contentar com os lucros obtidos a partir de investimentos produtivos, e se transformou em um verdadeiro cassino global, e, como em todas situações que envolvem jogo, somente os donos das bancas lucram, ou um ou outro afortunado que aposta quantias elevadas e conhecem os mecanismos de burlar o sistema.
Segue-se a esse absoluto descontrole da forma de funcionamento do sistema capitalista, toda uma série de acontecimentos que acompanha um novo modelo posto em prática nas últimas décadas, de maior intensidade nos mecanismos perversos de gerar desigualdades. O vale tudo, causado pela intensidade de um comportamento individualista, gerado pela onda da oportunidade e da competência, consolidada na meritocracia, tornou a sociedade adepta de um comportamento mais frio, pragmático e focada no sucesso a qualquer preço. Os exemplos pinçados numa realidade absolutamente diferente, são apresentados como sinônimo de dedicação e esforço do trabalho e da inteligência.
Antecedeu-se a toda uma nova formulação de comportamentos um receituário ideológico, adredemente vinculado ao caminho para o bem-estar individual e familiar, que se disseminou via ideologia neoliberal, cujos discursos se fundamentava nas questões postas no parágrafo anterior, e se espalhou pela grande mídia e nas igrejas neopentecostais. Nestas, a “teologia da prosperidade” procurou inculcar nos indivíduos a crença secular, pregada por alguns setores do protestantismo, notadamente os de origem estadunidenses, de que pela dedicação à fé e aceitação da ordem, se atingiria o sucesso, sendo este a recompensa da fidelidade como uma resposta divina, a prova de ser Deus fiel a quem lhe é fiel. O oposto às pregações do cristianismo primitivo, surgido como questionador das injustiças, da cobiça e da usura.
Por todos esses anos, deste novo século, escandalosamente acontecia o contrário do que se propagandeava com a globalização. A concentração de riqueza atingiu um patamar escandaloso diante de uma realidade desigual e ampliou-se o fosso entre ricos e pobres. E a pobreza, em larga escala, que se concentrava nos países pobres, espalhou-se pelos países mais desenvolvidos, como consequência do deslocamento de fábricas, a extinção de empregos e o aumento do número de moradores de ruas, ou da favelização.
Embora tenha havido uma pequena recuperação, nos dois últimos anos, ela está longe de representar uma saída para a crise, e em muitos casos, a retomada do nível de empregos está relacionado à busca de novas alternativas individuais, formal ou informal, ou a reabsorção de muitos desempregados em um mercado de trabalho cujo valor da mão de obra decaiu consideravelmente. Boa parte dos que retornaram à atividade laboral, o fizeram em outras funções, sendo forçados a aceitarem salários bem inferiores aos que possuíam anteriormente.
Mas, com a financeirização do sistema capitalista, e uma nova classe de novos ricos decorrente do deslocamento do centro gerador de lucros, já não tanto no setor produtivo, mas principalmente em negócios especulativos do mercado de ações, as condições econômicas acentuaram a concentração de rendas, e quanto mais lucravam, mais essa nova burguesia se tornava insensível e mais gananciosa.
Os Estados tornaram-se, então, reféns de um número cada vez menor de empresas, concentradas em processos inexplicáveis de fusões, consolidando um novo ciclo econômico, baseado nos oligopólios, no poder concentrado de grandes corporações e de poucas famílias de bilionários.
No entanto, isso não seria possível, apesar da violência como essas transformações se deram, principalmente passando por cima das soberanias dos países mais pobres, e agressivamente controlando suas economias, se não houvesse um processo de verdadeira lavagem cerebral nas pessoas, de convencimento sobre o final definitivo da humanidade nas hordas do capitalismo. Todas as armas foram utilizadas para isso, e naqueles países onde as políticas não atendiam a esses interesses houve uma verdadeira guerrilha midiática, a desacreditar outras alternativas que estivessem sendo construídas, fora da ordem estabelecida pelas governanças globais e pelo Consenso de Washington.
Desestabilizar governos que contraditavam essas verdades absolutas neoliberais, passou a ser uma estratégia a substituir as velhas intervenções militares. Os golpes de estado tornaram-se legitimados pela multidão cega, posta nas ruas pelas propagandas das corporações midiáticas, e, absolutamente alienadas quanto à realidade de uma crise sistêmica e mundial. A cegueira ideológica e o efeito manada constituiu-se em uma nova arma, para impedir que, mesmo em crise, a hegemonia do poder central neoliberal fosse ameaçada. Muito embora esteja em franca decadência, este centro, os EUA, mantém-se ainda como uma forte economia e, principalmente, com um poder bélico inatacável, a não ser por tresloucados militantes sectários a buscarem o paraíso para seus atos de “coragem” explosivas.
Mas, como na expectativa de Marx, considerando-se uma realidade em crise e a ampliação de suas contradições, não pode ser menosprezada a possibilidade de que elas ocorram internamente. Isso já é possível de se verificar no caos em que vivem algumas dessas sociedades, seja pelo constante medo de ações terroristas, ou pelas próprias loucuras gestadas internamente em ações que podem transformar alguns desses países, em especial os EUA, em ambientes de permanente terror, decorrente de confrontos alimentados pela luta de classes e pelo grau crescente de intolerância étnica, de cor, às escolhas sexuais e aos estrangeiros.
Contudo, se essa é uma possibilidade a estremecer os alicerces de alguns desses países, por outro lado a crise desperta antigas rixas, na disputa por espaços que garantam a hegemonia em um tempo fragmentado e de poderes cambaleantes. O temor histórico do avanço do urso em direção à Europa, algo já temido desde o começo dos séculos XX e assim alertado por um dos proeminentes geopolíticos britânicos, Sir Halford Mackinder, reacende agora com uma força ameaçadora, diante das estrepolias estratégicas de um ex integrante do serviço secreto soviético, a temida KGB onde chegou até o posto de coronel: Vladimir Putin.
Como a reportar os períodos que antecederam as duas grandes guerras mundiais, e, sintomaticamente, esses períodos foram marcados por crises econômicas estruturais (1905-1914 e 1930-1937). A primeira de característica expansionista, uma crise gerada pelo crescimento do capitalismo e pela disputa dos grandes impérios pelo mercado mundial. A segunda, de caráter recessivo, que irrompeu numa terrível depressão que afetou quase de morte o sistema capitalista.
Desta feita, diante de uma crise que já se prolonga há mais de uma década, velhas rivalidades retornam, mas o significado dessas estratégias é o mesmo, despertar o caráter destrutivo do sistema, identificado pela economista Naomi Klein, como de “Capitalismo de desastre”, pelo qual as guerras e as catástrofes são colocadas na conta de ótimas oportunidades para reconstruir um mundo devastado e recuperar economias centrais.
Enquanto isso se dissemina pela sociedade os sintomas de um ambiente criado ao sabor dessas grandes disputas, dos podres poderes, das formas de desenvolvimento que definem as relações sociais. Momentos de crises são oportunos para o surgimento de comportamentos radicalizados, a defender ou a defenestrar os governos que comandam os estados. Porque, tal qual argumenta a historiadora estadunidense, Ellen Wood, a burguesia conseguiu gerar uma cultura em meio ao povo que a torna onipresente nos momentos de crises. O povo, em sua revolta contra as condições que o mantém refém de economias recessivas, ou diante de situações em que lhe é negado a mínima dignidade de sobrevivência, com desemprego crescente, ataca de forma violenta os que governam, e o Estado, mas não se volta com a mesma virulência contra a classe que detém o controle da riqueza, dos meios de produção. Falta-lhe consciência para transformar um sentimento de ódio pelas injustiças, em razões que transforme as estruturas sociais.
Violência em larga escala, comportamentos intolerantes contra as liberdades individuais, tentativa de controle dos desejos, criminalidade tratada somente como desvio de caráter e não como uma patologia social, disrupção familiar, ódio étnico e preconceito contra as diferenças, de sexo, cor e formas do corpo, definido por valores e padrões estabelecidos pela classe dominante, tudo isso se choca e explode em tempos de crise.
Sem enxergar alternativas para um sistema cambaleante o sintoma invisível é o de uma longa transição, em que o novo demora a despontar, e o velho, já desgastado, joga as últimas cartadas num jogo viciado, enxergando no caos as poucas possibilidades de reestruturação. Como há milênios, nas longas guerras em que os que morrem são os que não possuem as riquezas, constroem-se impasses a fim de preservar privilégios, ou de ampliá-los, ao fim de destruições perversas.
Mas seja pela guerra, ou pela própria forma injusta de concentrar riquezas e distribuir miséria, a morte é uma frequentadora contumaz nos territórios pobres e periféricos. E, no entanto, como a cegar os que são induzidos ideologicamente a acreditar na crença da fatalidade capitalista, o próprio povo anseia por se ver protegido pela segurança armada a serviço da classe que lhe oprime. E este mesmo povo se distingue esculhambando-se enquanto pobres, e entronizando por meio de deslumbramentos doentios, os que despontam e enriquecem, pelos mecanismos ditos “meritocráticos”. É como concordar com um veredito decidido antes de qualquer crime, pois que senão pela recusa da própria existência, negada como real, e pela aceitação virtual de uma improvável ascensão de uma pirâmide cujo topo se limita pela riqueza, mas, principalmente, pela origem de classe.
Este mundo maravilhoso, assim cantado na magnífica voz de Louis Armstrong, “com o brilho abençoado do dia, e a escuridão sagrada da noite”, só garantirá a efetiva liberdade quando a opressão de classe desaparecer, e as desigualdades abissais não sirvam para definir critérios de caráter entre as pessoas. Só assim podemos acreditar que os bebês que vão nascer, “irão aprender muito mais do que eu jamais vou saber”. E esse algo mais, talvez seja a velha capacidade de poder dividir o que produzimos, mediante o velho altruísmo, qualidade que nos fez sobreviver em nosso processo de adaptação à ambientes inóspitos, e garantiu a sobrevivência, até aqui, da raça humana. Assim, una, etnicamente diversa, somente vista como várias pela capacidade adquirida em sistemas perversos, que impõe a poucos o controle da vida de muitos, tornando-os diferentes embora iguais.
Quando superarmos os milênios que nos separaram da nossa capacidade altruística, voltaremos a ser humanos, e a vivermos no mundo cantado por Armstrong. Aí poderemos dizer: “What a wonderful world”.
Isto é possível!


REFERÊNCIAS:
ARMSTRONG, Louis. What a wonderful world. https://www.youtube.com/watch?v=oGmRKWJdwBc
ARRIGUI, Giovanni. O longo século XX. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2012
HOBSBAWM, Eric. O breve século XX. São Paulo: Cia. das Letras, 2008
MACKINDER, Halford. O Pivô geográfico da história. São Paulo: Geousp, Espaço e tempo, nº 29, pág. 87-100, 2011.
SANTOS, Milton Santos. Por uma Outra Globalização. Rio de Janeiro: Record, 2011.
PIKETTI, Thomas. O Capital no Século XXI. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2014
WOOD, Ellen Meiksins. O Império do Capital. São Paulo: Boitempo Edtorial, 2014.
http://www.defesanet.com.br/otan/noticia/22863/OTAN-determina-reforco-militar-no-leste/
http://informacionaldesnudo.com/mapa-cuales-son-los-paises-mas-endeudados-del-mundo/