sexta-feira, 18 de novembro de 2016

APESAR DE TERMOS FEITO TUDO, TUDO O QUE FIZEMOS, AINDA SOMOS OS MESMOS E VIVEMOS COMO NOSSOS PAIS

“Eu não vivo do passado. O passado vive em mim”
Paulinho da Viola
Lembro-me de ter ouvido muito de meu pai uma frase que é lapidar, porque ela mostra o quanto vivemos no passado, presos a situações que se passaram em épocas diferentes, mas que insistimos em analisar com o olhar do presente. Ele costumava sempre fazer referência às minhas lutas, ou seja, à minha participação política, iniciando-se com a expressão, “no meu tempo...”.
Meu pai foi vereador na cidade de Alagoinhas (BA), teve uma participação política destacada naquela cidade. Antes de ser parlamentar era atuante no sindicato dos trabalhadores em curtumes. E, em abril de 1964, foi detido em nossa casa por soldados fortemente armados, preso e levado para uma prisão em Salvador onde ficou por cerca de 30 dias. Ele pouco nos falou sobre esse tempo em que ficou preso. Depois de solto, retornou à Alagoinhas, cassado, e abandonou a política. Embora acusado de “comunista”, ele passou ao largo dessa ideologia, e fazia parte do mesmo partido de João Goulart, o PTB de outrora, não esse de hoje.
Evidente que ele tinha uma experiência histórica, que nos orgulhava ao ouvi-lo falar a respeito. Mas que não guardava similaridade com a situação em que eu me encontrava, na década de 1980. Quase vinte anos e muita mudança na conjuntura nacional e internacional, além de alterações no comportamento da sociedade, indicava que os tempos eram diferentes. E de fato era. Vivíamos um período de intensa rebeldia, principalmente entre a juventude, e uma situação de fragilidade da ditadura militar. Era um período de exceção e de dificuldade para a atuação política e o ambiente era de crescimento das forças de esquerda e dos comunistas, embora em meio a uma divisão crescente dessas forças. O movimento estudantil reorganizava-se com muita força e participação, assim como as demais entidades sindicais e sociais de uma maneira geral. Não nos parecíamos em nada com a juventude da década de 1960, embora carregasse parte de insatisfações ainda comuns. Havia uma forte luta pelas liberdades individuais que se espalhara pelo mundo, em decorrência da reação à guerra do Vietnã e às ditaduras militares que cerceavam a liberdade em boa parte do continente americano e também na África. Vivíamos intensamente os tempos da guerra fria.
Outra diferença entre nós era do posicionamento político. Enquanto meu pai enveredou por um pensamento conservador, eu entrei e não saí do espectro da esquerda, e me mantive por todo esse tempo ligado à ideologia marxista, que se tornou base da construção de minhas ideias e formulações políticas.
Mais de vinte anos depois, me deparo com uma situação inversa, eu agora na condição de pai. Permanentemente sentido, pela perda de uma filha, logo aos dez anos de idade, e com um único filho que me restou. Ao contrário de meu pai que conviveu com seis, sendo cinco homens e uma mulher.
Mas que não se imagine isso ser suficiente para que a frase lapidar usada por meu pai, tivesse sido abandonada ou esquecida por mim. Eis que mesmo trilhando um caminho diferente de meu pai, de mentalidade mais progressista, me deparo cometendo o mesmo erro do anacronismo que sempre critiquei nele. Como tive uma atuação intensa no movimento estudantil, imagino sempre poder passar para o meu filho um pouco da minha experiência. Ora, mas já se passaram mais de 30 anos, e de um tempo acelerado e com transformações impressionantes na forma de se organizar e de viver em sociedade, principalmente devido ao forte aparato tecnológico que se desenvolveu de lá para os dias de hoje. Claro que isso não significa necessariamente que os tempos atuais sejam melhores, mas que inegavelmente é profundamente diferente.
“No meu tempo...”! Essa frase nos acompanha. Talvez porque nos espelhemos naquilo que fomos no passado, e porque desejamos que nossos filhos também nos vejam como referências. Quando temos boas referências a lhes passar. Ou porque, como diz Belchior em uma belíssima e clássica música que me aproprio aqui de uma frase que uso como título, “minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.
Mas, tudo bem que de minha história de luta progressista eu pouco tenha pelo que me arrepender. E meu filho trilha um caminho, parecido com o meu, mas em uma situação bem distinta, quase que completamente diferente, pelo aspecto conjuntural. Não pode caber, nesse caso, a comparação nos exemplos com os fatos presentes. Porque o mundo mudou, e muda sempre. A juventude, que carrega fortemente esse sentimento de rebeldia e de mudança, guia-se por outros valores e comportamentos. E, portanto, suas lutas diferem substancialmente da nossa, principalmente na forma, embora nem tanto no conteúdo. Contudo, insistimos em olhar o presente com as experiências do passado.
Alto lá! Não se trata de negar o passado, nem a experiência vivida, o que é uma condição para evitarmos erros e nos mirar nos acertos. Mas, se a conjuntura é completamente diferente, se os valores da sociedade são outros, se a juventude age com um comportamento bem distinto daquele do passado, provavelmente nossa forma de agir há décadas não se enquadre na maneira como eles veem o mundo e com as influências que direcionam suas ações atualmente.
Foi preciso dias, ruminando entre conflitos internos e interpretações das lutas em curso que se chocam com a radicalidade com que essa juventude está agindo, para que meus olhos se abrissem: embora com mentalidade progressista, me prendo ainda, conforme a música do Belchior, em formas conservadoras que me moldaram no passado. Um passado progressista, mas ao trazê-lo para o presente, ele se torna conservador, pois eu pretendo negar a própria realidade atual.
Travo, portanto, uma desgastante luta intestina, angustiantemente dialética, em meu próprio âmago, para me desvencilhar do olhar do passado. Isso não é fácil. Porque a vida, naturalmente, vai nos tornando conservadores. Envelhecemos, e quanto mais perto do limite de nossas vidas, mais racionalizamos nossas atitudes e nos batemos de frente com comportamentos impulsivos. Ou seja, queremos sugerir racionalidade no presente, em atos e atitudes semelhantes às que nos formaram no passado. Alguns, não. Permanecem ainda com impulsos juvenis, mas creio que muitos desses não passaram pelo processo intensivo da luta estudantil, como eu passei por seis anos. E agem na meia idade como se fossem recompor tempos não vividos. Demoram a amadurecer.
Posto isso, no entanto, não posso abdicar de tecer considerações e formular uma análise sobre esse tempo, e não sobre o comportamento radicalizado de uma juventude em luta. Porque, nesse caso, carrego um acumulo de experiência do passado que me permite uma análise do presente pelas formas de movimento com que as estratégias são estabelecidas. Além do olhar da história, do historiador.
Não vou me escandalizar com a intolerância como se ela fosse fruto apenas deste tempo. Não, ela sempre esteve presente nas sociedades, e mesmo desde os tempos iniciais das civilizações, fundadas em valores religiosos que eram impostos por quem exercia o controle do poder político. Pelos grupos, ou classes que por seu tempo, tornavam-se dominantes.
Mas não há como negar, que na medida em que uma crise de proporções mundiais se acentua, e quando há um evidente declínio do modo de produção absolutamente hegemônico mundialmente, os valores construídos a partir dele, e que constrói toda uma superestrutura fundamentada nos valores por ele disseminados, e portanto determina a cultura de uma maneira geral, se chocam com contradições saídas de seu próprio interior. De uma crise sistêmica, que abala as estruturas da sociedade, passamos a crises de valores, e, principalmente, da aceitação dos valores dominantes incapazes de justificar a degradação da sociedade construída sobre eles. Logicamente os setores dominantes, e as camadas que se situam no topo da pirâmide social, tendem nessas crises a lutarem desesperadamente para assegurarem não perder o que construíram. E passam a exigir mais ações repressivas contra possíveis medidas que lhes causem temores.
Isso foge ao controle. A radicalização no combate ao que se possa sugerir de novidade para confrontar esses valores arcaicos e em crise é combatida ferrenhamente, e os que defendem ardorosamente seus privilégios construídos e tentado ser mantidos em meio aos escombros dessa sociedade, passam a agir com comportamentos intolerantes, que somente espalham mais ódio e destempero a uma situação de crise intensa.
Como lidar com esse tempo, de uma transição que não aponta em direção a nenhum novo sistema que possa substituir o capitalismo? Como entender as novas formas de atuação e manifestação da juventude, em alguns casos absolutamente refratária aos mecanismos tradicionais de organização política?
Como combater a intolerância que se dissemina aceleradamente e não somente destrói relações de amizades, como também implode as famílias a ponto de gerar tragédias de ódio inominável, carnal, um filicídio? O que faz o pai matar seu único filho e se suicidar em seguida, por alimentar um rancor de anos, mas explodido numa confrontação de escolhas de caminhos, de liberdade, de necessidade de se romper o cordão umbilical, algo comum a qualquer adolescente? E, neste caso, uma escolha que se choca com o estilo de vida usual permitido pelos valores do sistema. Um comportamento anarquista que deseja confrontar toda e qualquer autoridade e ser livre das amarras institucionais que nos obrigam a viver em “ordem”, e mirando no “progresso”.
A estupidez e a idiotização das pessoas é absolutamente visível em seus comportamentos, nas opiniões que compartilham por redes sociais que se tornaram propagadores de um ódio insano. Os ataques pessoais, ofensas, injúrias, racismos, homofobia, todos os tipos de preconceitos são destilados raivosamente, temendo a nós, historiadores, que algo semelhante aconteça como nos exemplos perversos do monstruoso genocídio de Ruanda e da guerra cruenta e intolerante ocorrida na região dos Balcãs, que fragmentou a antiga Iugoslávia.
Mas, finalizo me dirigindo aos que defendem outro mundo, marcado pela tolerância e o respeito à diversidade, às crenças e às opiniões. Um mundo onde as desigualdades sociais sejam reduzidas a um limite aceitável. Combater a intolerância, com um comportamento igualmente intolerante, trará pouco sucesso à causa de construção desse novo mundo. A radicalização usada por determinados grupos que se dispõe a ir à luta, mas desconhece os limites dos desejos dos outros, mesmo que esses outros possam vir a ser convencidos da importância de suas lutas, representa igualmente uma estupidez radical estéril. Não soma, não agrega pelo convencimento, e afasta pela rispidez das formas adotadas inconsequentemente. Se o que desejamos é justiça, ela jamais se fará com irracionalidade, pois a base para que a justiça prevaleça é a razão.
Por outro lado, a forma radical expressa na intolerância da aceitação do outro, desperta o outro extremo, que ao reagir com semelhante intolerância transforma a luta geral, numa luta específica, entre extremos, que só pode despertar comportamentos fascistas, ao se fechar em suas verdades, na defesa veemente de suas opiniões como definitivas, e na violência como forma de se impor e de se sagrar vencedor nessa luta. Mas essa pode ser muitas vezes uma vitória de Pirro, e aí não há como não olhar para o passado, pois tem sido sempre assim na história.
Mas, para além das elucubrações políticas e ideológicas que eu possa fazer, existe uma realidade que se consolida, não só no Brasil, como em boa parte do mundo desde que se iniciou este século. 1. A constituição de uma diversidade de movimentos que aglutinam seus componentes organizando-se horizontalmente; 2. a negação da política;  e, 3. a aversão aos partidos políticos e a quaisquer formas de organização que represente a luta pela tomada do poder.
O primeiro item advém de concepções do século XIX, pelo anarquismo, e mais recentemente tomando a forma de movimentos autogestionários, mas que combatem os mecanismos de controle do Estado e se opõem a todas formas repressivas. Combatem, portanto, as formas tradicionais, muito embora ajam também com comportamentos intolerantes, ao não definir objetivamente seu alvo principal e rejeitar outros pensamentos que possam somar no processo de desconstrução do tipo de sociedade por eles criticada. Temem ser engolidos na sequencia de construção de outras alternativas, que para eles não devem seguir nenhum modelo e se organizar horizontalmente. Mas a questão que fica é, como chegar a isso em meio a força de um Estado e de formas de controle consolidadas e difíceis de serem desestruturadas?
Os outros dois não são novidades, mas as formas geradas pelas situações causadas por essas orientações, em circunstâncias diversas, embora parecidas, culminaram nas primeiras décadas do século XX, em regimes totalitários, expressas principalmente no fortalecimento do fascismo, e de sua face mais cruel, o nazismo. O que significa que temos em pleno século XXI, e depois de terem sido combatidos por muitas décadas, pelos dois lados da guerra fria, numa situação de intensificação de uma grave crise econômica mundial, a volta daqueles elementos que jogaram a humanidade em uma guerra estúpida, movida pelo preconceito e intolerância.
Não tenho dúvidas que a maneira de lidar com uma crise que se dissemina por todos os poros da sociedade, e radicaliza todas as formas de luta e de combate, em meio a uma intolerância crescente, é usar de formas radicais de enfrentamento, mas procurando, de todas as formas, atrair para o lado da racionalidade, com a construção de um movimento que se oponha ardentemente à perversão dessa sociedade capitalista, aqueles que nos últimos anos foram seduzidos pela deformação da notícia, pela dissimulação política e pela inversão dos valores que sempre foram defendidos pelos setores progressistas da sociedade. É inadimissível que a radicalidade se volte na forma de “fogo amigo”, e o foco do combate seja desviado, acentuando uma divisão que, lamentavelmente, sempre esteve presente nesses setores.
A juventude tem suas lutas, radicais pela forma, mas também consciente pelos objetivos a serem atingidos. Mas há uma diversidade de atuações movidas por questões ideológicas sectárias, que muitas vezes levam a embates entre si, ao invés de concentrar forças no inimigo maior e mais forte, aqueles que usurparam o poder, disseminam ódio e alimentam as forças de um setor egoísta socialmente, que se aproxima dos jovens como nunca aconteceu.
Saber lidar com essa situação, podendo cada um defender suas posições, mas visando o objetivo comum, é condição sine qua non, para que um novo tipo de democracia possa ser construído, impedindo que a intolerância se dissemine mais do que já está acontecendo. 
Por meios ainda que indefinidos, a juventude de hoje estará construindo no presente o que será o seu momento de amadurecimento pelas décadas que virão. E quiçá isso se dê, futuramente, em uma sociedade menos desigual, mais racional e tolerante do que esta em que estamos vivendo. Mas, certamente, estará convivendo com o mesmo dilema que hoje vive a minha geração, e quem sabe ainda ouvindo a canção de Belchior. Se isso for certo, que cada um e cada uma saibam lidar com seus filhos, compreendendo o tempo deles, e não o seu.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

MAIS UMA VEZ A GREVE. EXISTIRÃO OUTRAS ALTERNATIVAS? A UNIVERSIDADE E A LUTA CONTRA A PEC 241/55

Estamos vivendo momentos tensos, de definições políticas e de decisões tomadas por um governo que assumiu o poder por meio de manobras constitucionais. Essa condição faz com que as medidas implementadas não tenham sido submetidas ao crivo da aprovação popular. Nessas circunstâncias, as reformas propostas não objetivam agradar a maioria da população brasileira, mas dar respostas àqueles setores que controlam a riqueza do país, os meios de produção e, por conseguinte, influenciam nas decisões tomadas por parlamentares que foram eleitos sendo financiados por esses segmentos.
As propostas apresentadas pelo governo de Michel Temer, visam corrigir os problemas da crise brasileira com medidas que afetam setores que são cruciais para o desenvolvimento nacional e social do nosso país. Em especial, a saúde, educação, investimentos em programas sociais, questões ambientais e da defesa de nosso território. A partir de um projeto de emenda constitucional, transitada na Câmara dos Deputados sob o número 241, e agora no Senado identificada como PEC-55, esse governo deixa bem claro para que veio, e as razões de impor o impedimento a uma presidenta legitimamente eleita.
O controle dos gastos, feito de forma indistinta, como se estivesse gerenciando uma empresa, demonstra o grau de insensibilidade com setores que são estrategicamente importantes para o nosso crescimento enquanto Nação. Por outro lado, demonstra o quanto está sendo feito para agradar o setor empresarial, principalmente por abrir o Estado, mais do que já está ocorrendo, para a atuação de empresas privadas, terceirizando uma quantidade cada vez maior de atividades aos interesses da ganância privatista.
Esses pressupostos, acrescentando-se o fato de atingir de forma crucial a educação, tem gerado uma onda de revoltas que fez os segmentos que atuam diretamente nessa área, ou que são beneficiários dela, se mobilizarem para combater tais medidas. Como sempre, a juventude tem demonstrado não ter perdido seu espírito de rebeldia, e radicalizaram a luta, entendendo que há uma força coesa no parlamento, dominado pelos conservadores, que garantem o apoio à essas reformas, como um rolo compressor, em troca de benesses, cargos e apoio às suas reeleições. As ocupações de escolas, institutos tecnológicos e faculdades, tomaram uma proporção que não era esperada pelo governo, e tende a se ampliar, muito embora o cerco efetuado pelo ministério público e justiça federal estejam atuando para por fim a essas ocupações.
Por outro lado, os servidores técnico-administrativos já deflagraram em âmbito nacional, um movimento grevista, paralisando por tempo indeterminado suas atividades, e somando-se às lutas de outros setores da sociedade, também pressionam para conter a sangria que está sendo feita nos direitos trabalhistas e sociais.
São movimentos que guardam suas especificidades e lidam com as formas de lutas que lhes são mais adequadas e possíveis de serem levadas adiante de acordo com suas próprias características. Ressalto como importante a intensidade da luta estudantil, pelo vigor que ela possui e pelo receio que todos os governos sentem de ter que encarar grandes mobilizações da juventude nas ruas. Essa juventude carrega a esperança de poder ampliar as reações a medidas que são nocivas à maioria da população brasileira.
Como resposta ao movimento grevista dos técnicos, e os que também já foram aprovados por professores em diversas universidades e institutos federais, o Supremo Tribunal Federal cumpre o papel de guardião das reformas conservadoras em curso. Decidir pelo direito que os governos tem, de imediato solicitar o corte dos pontos dos grevistas, sinaliza, na prática, pelo impedimento dos servidores públicos poderem decidir livremente um direito que historicamente sempre foi crucial nas lutas dos trabalhadores, do Brasil e do mundo, de deflagrar greves quando julgarem que suas reivindicações não encontram canais de negociações, e, de forma impositiva estabelecem-se mudanças que lhes serão prejudiciais.
O direito de greve dos servidores públicos é legitimado pela Constituição brasileira, e somente não foi regulamentado em alguns aspectos porque foge do interesse de uma maioria conservadora, que protela discussões que são do interesse dos trabalhadores. No entanto, concordemos ou não, isso impõe aos professores a necessidade de a deflagração de uma greve ter que contar com o apoio da ampla maioria dos professores, caso contrário será um movimento de apenas uma parcela, somente sendo possível parar em sua totalidade por meio de formas coercitivas e impedimento de acesso á universidade. O que imporia uma realidade de confronto entre nós mesmos.
Mas, em que pese esses questionamentos, e a tentativa de cercear o direito de greve, é preciso analisar se entre os professores universitários, esse instrumento se faz necessário neste momento, e até que ponto ele não dificulta ainda mais as possibilidades de mantermos a universidade em movimento, em condições de debater e discutir as questões postas que irão nos afetar diretamente pelos próximos anos. Aliás, pelos longos vinte anos que estabelece a famigerada PEC.
Como eu disse anteriormente, a greve é um instrumento de pressão que tem por intuito forçar a abertura de diálogo e de negociação, a fim de termos nossas demandas atendidas. Mas, contra quem estamos lutando neste momento? Não se trata de reivindicações pontuais, salariais ou diretamente relacionadas à nossa categoria, especificamente. Essas medidas afetam um leque de setores muito amplos e estão sedimentadas pela formação de uma ampla maioria constituída a partir do golpe parlamentar-judiciário que destituiu a presidenta Dilma. Portanto, não temos interlocutores a nos atender em um movimento grevista, que foge das características tradicionais, quais sejam, a luta contra o arrocho salarial e em defesa de melhorias em nossas carreiras, a partir de pautas de reivindicações construídas com esse objetivo. Assim, a greve deixa de ter um foco específico, e passa a acontecer em cima de reivindicações gerais, que extrapolam a nossa própria categoria e até mesmo os limites da comunidade universitária e da educação. As reformas em curso são bem mais abrangentes, e além de nos atingir afetam milhões de brasileiros por diversos setores em que atuam ou que por algum programa é beneficiado.
Assim, problematizo a questão: qual o objetivo da greve? O que seria possível fazer para combater as reformas do governo Temer, neste momento inseridas na PEC-55, num movimento grevista, que não seja possível de fazer com a universidade aberta e apta a discutir essas e outras questões que se tornarão cruciais para nós nos próximos anos? Valerá a pena diante dessas circunstâncias parar a universidade, e vermos a maioria de nossos colegas distantes de um ambiente que deveria ser instigado a debater com mais frequência esses e outros problemas que nos cercam? Não somente a nós, comunidade universitária, mas a toda a sociedade?
Técnicos-administrativos da UFG
decidem pela greve
Não estou querendo questionar o movimento dos técnicos-administrativos, que possuem outras demandas e tem características distintas dos professores e, principalmente, porque eles não tiveram cumpridos acordos firmados em paralisações recentes. A greve dos técnicos afeta sobremaneira a universidade, as atividades que eles desenvolvem são cruciais para um bom desempenho da instituição, mas efetivamente não leva a um esvaziamento do nosso espaço, e nos força até mesmo a ter a compreensão de suas importâncias em nosso cotidiano.
Mas uma greve de professores, como tem sido nos últimos movimentos grevistas, esvazia a universidade, não atrai os professores para as atividades desenvolvidas e não causam repercussão na sociedade. Muito menos irá sensibilizar um governo que tem no questionamento ao ensino público um de seus objetivos já definidos. E, afinal, até onde o movimento iria? Seria uma greve por tempo indeterminado ou tendo em vista a votação da PEC no Senado? Se porventura houver aprovação dessa proposta (algo previsível, pela ampla maioria que o governo tem no Congresso) como o movimento encararia essa questão? Sabendo-se que mais adiante virão outras medidas que irão nos afetar mais uma vez, e sempre. Deflagraremos uma greve a cada proposta de reforma apresentada pelo governo? Isso significa a mais pura banalização da greve, sem objetivo específico, por meio de combates a medidas amplas e que nos levará ao enfraquecimento do movimento, a uma divisão entre os professores e a uma situação de instabilidade em nossa instituição, o que provocará mais ainda o seu enfraquecimento.
Erguer a bandeira da greve neste momento não significa, necessariamente, a mais revolucionária das posições a ser adotada. Mesmo que consideremos que setores conservadores, existentes na universidade, posicionam-se sempre contra essas paralisações. Mas há de se considerar também, que muitos que não aceitam sob hipótese alguma, a PEC-55, também não consideram a greve o instrumento adequado a este momento. Eu me incluo nesse segmento.
Na década de 1980 foi criado o Fórum
em defesa da UFG. Na foto o reitor
Joel Ulhoa dirige assembléia
Para além dos possíveis maniqueísmos que se queiram criar, não é possível encarar essa situação como numa escolha entre o oito e o oitenta. É possível construir mecanismos internos à nossa instituição para levarmos de forma aprofundada a discussão sobre as consequências que essas medidas trarão. Mas também construirmos outra agenda, não só interna, mas que possa levar para a sociedade essa discussão, por meio de associações, entidades representativas dos diversos segmentos públicos ou privados, e a necessidade de criarmos um movimento a partir da universidade, como já o fizemos em outros momentos de crises, quando criamos os Fóruns em Defesa da Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade.
Os movimentos em curso, cada qual com suas características e formas de lutas, podem ser incorporados em uma iniciativa que envolva os sindicatos e entidades, para construir uma agenda permanente de debates, discussões e formas de organização para barrarmos a sequencia de medidas restritivas á educação superior pública que virão pela frente. Também não pode se esconder dessa luta e responsabilidade, a reitoria e seus órgãos complementares. É preciso que haja coragem de se bater de frente com atitudes que ferem a autonomia da universidade e que visam cercear nossa liberdade de ação, de movimento e de discussão. O dirigente da universidade, assim como os das demais entidades que representam as nossas categorias, devem se postar de forma corajosa à frente dessas atividades e demonstrar cabalmente sua postura em defesa da nossa instituição, das nossas condições de trabalhos, na garantia de recursos suficientes para que o ensino e a pesquisa prossigam com qualidade, sem redução dos quantitativos financeiros que são necessários a esse bom desempenho.
Por essa razão, imagino que a deflagração de uma greve manterá somente um pequeno número de pessoas envolvidas, como tradicionalmente acontece, enquanto as demais se limitam a definir a data em que irá retornar a assembleia para votar pelo fim da greve. Isso esvazia nossa universidade e não cumpre o objetivo de garantir que haja uma mudança de comportamento internamente, que nos leve a um interesse maior para as questões que vão além do nosso laboratório de pesquisa, de nossa sala de aula, ou da burocracia que nos amarra.
Neste momento, a comunidade universitária deve ser chamada à responsabilidade de defender o que foi conquistado com muito esforço nos últimos anos. E, se porventura, existir (e existe) quem queira defender as medidas restritivas do governo federal, que esses colegas possam se manifestar e vir abertamente para o debate, se posicionar com seus argumentos. Duvido que tenham condições de negar que tais medidas irão afetar perversamente nossas instituições, afinal, se as estatísticas são manipuláveis, os números não mentem. E as ideias que estão por trás das medidas construídas na elaboração dessa PEC, nitidamente demonstram um caráter de perversão sobre a necessidade de o Estado brasileiro assegurar o ensino público, gratuito e de qualidade.
Professores da UFG aprovam paralisação
nos dias 11 e 25 de novembro contra a
PEC 241/55 e FORA TEMER!
Ademais, conforme já aprovado em assembleia, devemos paralisar nossas atividades nos dias 11 e 25 de novembro, aderindo a uma greve geral nacional nessas datas, como forma de repúdio às medidas impostas pela PEC 55. Isso já é um passo importante para demonstrarmos a nossa indignação e de que não estamos parados diante desse quadro político.
Isso não contrapõe às lutas travadas pelos estudantes, que seguem suas dinâmicas próprias. Mesmo com as ocupações, ou com outras formas de manifestações, o movimento estudantil tem outro perfil. E, quanto mais formas alternativas de se contrapor a medidas indesejáveis, por parte dos estudantes, mas isso servirá para atrair a atenção para as suas demandas. Além do mais, a vida em si, da universidade, depende dos estudantes. São eles que tornam a universidade diversa, inquieta e provocativa. Se os estudantes portam-se passivamente, a universidade perde em essência, acomoda-se e tem como foco somente a formação para o mercado. Por isso, as questões que aqui coloco, não estão relacionadas aos movimentos dos estudantes, e, entendo que porquanto durar suas ocupações, muito embora isso traga como consequência uma reação jurídico-policial, devemos vê-las com respeito, sem confrontá-los, muito ao contrário, contribuindo com o que for necessário para que, mais do que ocupações, isso signifique espaços de diálogos, de defesa de uma universidade crítica e de formação de jovens que olhem para frente enxergando muito mais do que tão somente sua formação profissional, mas também como cidadãos engajados e dispostos a lutarem por transformações sociais mais justas e menos desiguais. Com isso ganha não somente a universidade, mas sociedade como um todo.
Assembléia dos estudantes (FH) decidem
por ocupação. Mas as ocupações não
acontecem em todas unidades
Mas, qualquer que seja a decisão a ser tomada, nenhuma atitude pode implicar em causar prejuízo aos estudantes, notadamente àqueles que estão à frente do movimento de ocupações. Não cabe aos professores estabelecerem uma situação de animosidade nessas situações. Da mesma forma que não devemos adotar uma atitude policialesca de identificar de forma pejorativa qualquer um que apresente opinião contrária, a fim de não criarmos um clima de beligerância entre nós, comunidade universitária. Afinal, como dizia o Cazuza em uma de suas músicas, e que serve nessas circunstâncias que envolvem nossa universidade, “meus inimigos estão no Poder”.

Se a assembleia que ocorrerá no próximo dia 09/11, no entanto, aprovar greve, devemos fazer todos os esforços possíveis para unificar a nossa categoria e desenvolver atividades em conjunto com os demais setores. É essencial que as decisões da maioria sejam respeitadas, e por isso se faz necessário uma grande presença, sempre, nessas assembleias. Devemos criar um ambiente de debate e mobilização permanente, pois o que virá para além dessa PEC tende a prejudicar sobremaneira as universidades e institutos federais de ensino e tecnológicos. Saber fazer isso, de forma a ampliar pelo convencimento as nossas forças, será essencial para garantirmos os recursos que são necessários ao bom funcionamento da universidade, a melhoria de nossos salários e a defesa da autonomia universitária.
CALENDÁRIO:
DIA 07/11 - 14 horas - Assembléia Universitária no Centro de Eventos da UFG
DIA 09/11 - 14 horas - Assembléia Geral dos Professores para decidir sobre a greve geral - Centro de Eventos da UFG
DIA 11/11 - Greve geral nacional. Ato na praça dos Bandeirantes às 9 horas
DIA 25/11 - Greve geral nacional. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A SERVIDÃO HUMANA MODERNA

“A desgraça deste mundo reside no fato de ser muito mais fácil abandonar os bons hábitos do que os maus”.
William Maugham

O livro “A Servidão Humana”, um clássico da literatura mundial, foi lançado há quase exatos cem anos, em 1915, e o seu autor Wiliam Somerset Maugham, vivia também, pessoalmente, frente a dilemas que ainda nos dias de hoje são corriqueiros. Assumir a sua homossexualidade. Mas o conteúdo dessa obra-prima não está centrada nisso, mas em um forte questionamento sobre as escolhas feitas pelo indivíduo, diante dos problemas que a vida lhe apresenta. O amor, a família, o destino, a riqueza, a morte, as deficiências físicas e morais. E os desejos e angústias que permeiam as nossas decisões, fundamentais para definir nossos destinos. Era o retrato do ser humano em uma época marcada por transformações cruciais. O início da segunda guerra mundial impunha ao mundo novas realidades, marcadas pela brutalidade da guerra, e pelo embate ideológico que redefiniria o mundo. Mas, ainda se discutia sentimentos como bondade, paixão e amor, com sensibilidade, muito embora a hipocrisia, traço de caráter coletivo da sociedade, já se manifestasse em atos e comportamentos.
Cem anos depois, o que me proponho aqui é discutir outro tipo de servidão, que tem definido comportamentos, hábitos e vícios, gerados por uma impressionante dependência tecnológica em um novo tipo de sociedade, onde nos tornamos consumistas compulsivos, e nos consumimos pelo grau de escravidão que nos impõem os objetos cada vez mais sofisticados que nos cercam.
Servidão e escravidão podem carregar elementos conceituais diferentes, quando analisamos as estruturas sociais ao longo de séculos de transformações da história humana. Mas, são palavras que podem tornar-se sinônimas quando procuramos estabelecer as relações construídas pelo sistema capitalista e o grau de dependência criada entre os indivíduos e as mercadorias.
Esse fenômeno foi estudado e identificado por Karl Marx já no século XIX. Segundo ele, nas relações sociais que são estabelecidas na sociedade capitalista o indivíduo ao consumir uma mercadoria desconhece, em absoluto, todo o processo de produção, no qual está embutida a exploração da força de trabalho, principal elemento a acarretar a acumulação de riquezas nas mãos dos poucos que controlam os meios de produção.
As mercadorias foram adquirindo, ao longo da consolidação do sistema capitalista, por sua lógica entranhada, de garantir por ela os lucros aos comerciantes e à burguesia, o caráter de um fetiche. Por um lado, à medida em que cada vez mais ela cria uma vida própria, deixando de ser adquirida simplesmente porque advinda de uma necessidade, tornando-se um objeto de desejo irrefreável pelo qual os indivíduos se tornam dependentes; e por outro lado porque nesse processo perde-se a percepção de que ela é fruto da exploração do trabalho alheio, e por ele se garante o lucro, e o seu valor passa a extrapolar sua significância real, adquirindo um valor artificial ao sabor das manipulações criadas pelo mercado, deixando de ser vista como algo criado pelo trabalho humano e pelo qual devesse ser medido.
Por esse processo, a vontade do ser humano sucumbe ao que Marx denominou como o “fetichismo da mercadoria”, invertendo-se a ordem natural das coisas, com as pessoas sendo subsumidas nessa lógica sistêmica e aceitando serem dominadas pelos objetos. Perde-se, pela dependência criada em relação às coisas, a capacidade de refletir criticamente sobre o processo de exploração na produção da mercadoria e substitui a necessidade real, pelo desejo de consumir, afetando duramente a capacidade do ser humano de controlar de forma consciente a maneira como se dá o processo da produção.
Dessa forma o dilema se nos apresenta como no enigma da esfinge: “decifra-me ou devoro-te”[1]. Na incapacidade do ser humano decifrar todo o processo produtivo, responsável pela ampliação desmedida de mercadorias, e a consequente destruição da natureza, torna-se impossível realizar seus desejos objetivado na frase que já se tornou muito mais o foco de marketing do que de realizações efetivas para sua concretização: o desenvolvimento sustentável.
Essa dependência, contudo, assume nos dias atuais (muito embora perpassando isso por épocas passadas desde o surgimento do capitalismo) um estágio preocupante, porque se aproxima do limite possível de ser tolerado pela natureza, e porque culturalmente consome a juventude, principalmente, transformando-a em zumbis modernos, espécie de seres inanimados cuja capacidade de comunicar-se por vias de tecnologias sofisticadas afasta-a do contato e do convívio natural.
Paradoxalmente, essa escravização aos objetos, notadamente os de forte atração tecnológica, distanciam as pessoas, quando essas estão próximas, e as aproximam quando estão distantes. A proximidade passa a ser um empecilho porque impede de usufruir dos desejos doentios de se comunicar pelos aparelhos sofisticados. Isso pode fazer com que a capacidade de dialogar presentemente torne as novas gerações frias no convívio social e insensíveis aos contatos humanos, que tendem a tornar-se fúteis e passageiros.
Não há dúvidas que a tecnologia facilita a vida humana, reduz as distâncias e coloca as pessoas mais próximas. Mas o preço a pagar por isso tem sido bastante elevado quando se fala das relações humanas. O mesmo objeto de deslumbre que nos lança no mercado em busca de novidades, não necessárias, mas desejáveis, torna-se também alvo da marginalidade, quase sempre oriunda de camadas sociais mais baixa. Cada vez mais aparelhos celulares e tabletes são visados em assaltos e roubos. Repassados e vendidos no mercado paralelo o baixo preço dessas mercadorias faz com que ela seja disputada também por pessoas pobres. Com isso, não somente a classe média e os mais ricos ficam reféns dessas tecnologias, e de mercadorias que não deveriam ser as mais importantes em suas vidas, cujas necessidades mais prementes são relegadas a planos inferiores. Some-se a isso as facilidades de créditos que garantem acesso fácil às mercadorias e instigam o consumo. A alienação gerada por essa lógica consumista e os vícios que dela advém, passam a se fazer presente também entre os mais pobres, que se veem em um mundo distante daquilo que é a realidade vivida.
Por todas as classes sociais a dependência tecnológica assume ares de uma epidemia. E aquilo que deveria ser algo facilitador das relações sociais, torna-se um enorme impedimento para que se tenha a clara noção dos mecanismos reais de produção e do processo de manipulação da realidade a fim de tornar cada jovem um consumista em potencial.
Podemos argumentar que tais tecnologias, e as redes sociais que elas criam, tem ultimamente contribuído para aglutinar milhares de jovens em manifestações que tem azucrinado a vida de governantes. Mas nessas redes sociais vê-se também o lado selvagem, estúpido e odiento de muitas pessoas, que passam a frequentar um ambiente onde podem tudo, ou pensam que podem, e o desrespeito passar a se constituir em uma regra que se dissemina numa velocidade impressionante.
Alimentada pela mídia, estamos construindo via esses mecanismos uma geração marcada pelo ódio. Mas nesse sentimento não há, infelizmente, uma capacidade crítica suficiente para distinguir a origem de suas frustrações. O fetichismo, embutido na mercadoria, espalha-se pela sociedade, e a coragem de se manifestar via redes sociais, bem como a virulência em que essa rebeldia se transforma em alguns casos, não tem objetividade. Esses jovens, em sua maioria, não se disporiam a enfrentar os seus piores demônios, pois são eles que produzem seus objetos de desejos. São alienados e, com esses comportamentos, não causam nenhum medo naqueles que controlam toda a riqueza, os meios de produção e a cada um deles, por intermédio das mercadorias que desejam.
Não defendo nenhum manifesto Ludista, anti-tecnologia. Mas me preocupa o caminho que estamos trilhando em direção ao futuro. Como sempre digo, o futuro não existe. Ele é uma construção idealizada. Quando imaginamos, contudo, aquele tempo que ainda virá, e no qual nos imaginamos nele, a menos que a morte nos tolha a vida, devemos olhar para o presente. Ele é que dirá que tipo de mundo estamos construindo.
Faltando um ano para o prazo estabelecido a fim de se resolver os principais problemas da humanidade, porque é tão difícil se atingir os “objetivos do milênio”?[2] Porque tudo isso depende do rompimento com as estruturas vigentes no sistema capitalista, cuja prioridade é produzir a uma meta lunar (ou lunática), sem limites, cada vez mais mercadorias.
Somos arrastados por um turbilhão midiático, de propaganda, que invade cada casa, indistintamente, a martelar em nossos desejos e a nos impor uma vontade. Sucumbimos a esse fetichismo, agora ampliado pelo marketing, e deixamos para depois a preocupação com os destinos da humanidade. Eles deixam de ser nossos quando atingimos essa capacidade consumista e passamos a querer resolver um problema somente quando ele nos incomoda particularmente. Somente a crítica, a capacidade de identificar as origens desses males, e rompendo com o fetichismo (o que não significa abrir mãos dos desejos, mas ter a consciência crítica de seus limites), pode-se corrigir o rumo que tem nos encaminhado em direção a um abismo.
Certamente essas poucas palavras não surtirão efeito, porque tem alcance limitadíssimo. E muitos daqueles que lerem isso que escrevo, já possuem essa consciência crítica formada, e sentem a mesma impotência diante desses problemas. Mas consigo assim me aliviar das culpas, visto ser um indivíduo do meu tempo, e também algumas vezes cego pelos desejos consumistas.
Exprimo dessa forma um sentimento que demonstra o quão contraditório é o mundo em que vivemos. Contudo, tenho a consciência da necessidade de mudar o mundo não pela cultura, pelos hábitos, mas rompendo com as relações sociais de produção que nos escraviza e limita nossa capacidade de construirmos um mundo mais solidário e menos egoísta. Somente assim, e destruindo essa tradição que está enraizada em nossas entranhas e acompanha a cada nova geração, poderemos criar outros valores que nos levem a consumir aquilo que é estritamente necessário para vivermos bem e com dignidade, com o olhar voltado para o passado, os pés firmes no presente e nossos sonhos utópicos realizáveis a desenhar nossos destinos.
Quem sabe a partir daí possa ser possível falar em desenvolvimento sustentável?
Vejam este vídeo. Fala sobre a maneira como estamos substituindo nossa maneira de interagir, nos submetendo à dominação dos objetos e da tecnologia. 




[1] “Diz uma antiga lenda grega que a deusa Hera enviou a Esfinge (uma besta com cabeça de mulher, asas e corpo de animal) para atormentar os moradores da cidade de Tebas. A Esfinge cruzava o caminho de todos os que se aproximavam da cidade e formulava um enigma para o viajante. Quem errava o enigma era devorado pelo monstro. Um dia, Édipo cruzou com a Esfinge, que lhe propôs o seguinte enigma: “O que durante a manhã tem quatro pernas, ao meio-dia tem duas e à noite tem três”. Édipo respondeu corretamente* e a Esfinge ficou tão furiosa que se lançou num precipício. Graças à façanha de derrotar a Esfinge, Édipo tornou-se rei de Tebas e ganhou a mão da rainha enviuvada, sua própria mãe.”.
(*) Resposta ao enigma: O ser humano. Representado em suas fases de recém-nascido, adulto e na velhice, quando necessita ser apoiado em uma bengala ou cajado.
[2] Em 2000, a ONU – Organização das Nações Unidas, ao analisar os maiores problemas mundiais, estabeleceu 8 Objetivos do Milênio – ODM, que no Brasil são chamados de 8 Jeitos de Mudar o Mundo – que devem (deveriam) ser atingidos por todos os países até 2015. 1. Acabar com a fome; 2. Educação básica de qualidade para todos; 3. Igualdade entre os sexos e valorização da mulher; 4. Reduzir a mortalidade infantil; 5. Melhorar a saúde das gestantes; 6. Combaer a Aids, a malária e outras doenças; 7. Qualidade de vida e respeito ao meio-ambiente; 8. Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento. (http://www.objetivosdomilenio.org.br/)

(*) Originalmente publicado em 2014, este artigo foi reeditado para correção do link. Mas, pela própria temática, ele mantém a sua atualidade. E por essa razão não foi modificado.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O CAPITALISMO E UMA CRISE DE LONGA DURAÇÃO - DO BREVE SÉCULO XX À ACELERAÇÃO DO SÉCULO XXI

Nunca, em nenhuma época, vivemos acontecimentos de forma tão acelerada e intensa. Milton Santos, que morreu há 15 anos, afirmava em sua obra que analisa o processo da globalização, que vivemos um tempo de transição, que se prolongaria tanto mais quanto se tornasse mais difícil encontrar-se alternativas para superar e substituir um sistema em crise crônica.
Há alguns meses escrevi no Blog um texto, apresentando uma série de artigos em que analisava a atual conjuntura política, e no último parágrafo sintetizei essa situação, de uma transição em lenta agonia, já que as perspectivas de novos caminhos se apresentam numa absoluta incógnita.
“Estamos em meio a uma luta de classes encarniçada, a uma grave crise econômica e, também, em meio a uma transição de um sistema que atingiu seu auge, e consequentemente os limites de suas contradições. Mas, para onde vamos, ainda é uma incógnita, o que só torna a transição mais complexa e mais suscetível a conflitos, enfrentamentos políticos, religiosos e guerras de proporções mundiais. Quando o velho insiste em sobreviver e o novo demora a surgir, em se tratando de formações sociais, temos diante de cada um que vive esses momentos, uma longa, violenta e perigosa transição. Resta-nos a resistência para que dentre os caminhos propostos não nos deparemos com retrocessos, nem nos encaminhemos para um abismo”.
Crise: década de 1970
O século XXI já começou embalado por fatos que deixou a todos inseguros sobre o que aconteceria nos anos seguintes. Percebido que o “bug do milênio” não passava de um temor carregado de tolices, e espetacularizado por uma mídia que se especializou em criar o medo do imponderável de forma estúpida, pior do que as crenças nas divindades vingativas, os atos de 11 de setembro de 2001 demonstrou que algo pior estaria por vir. O que ruiu naquele dia não foi somente duas torres, e a trágica perda de milhares de vidas humana, vítimas do ódio alimentado pela irracionalidade de podres poderes. Ali se sentiu estremecer a estrutura econômica de um sistema que já estava claudicante desde os anos 1980, ainda como consequência de uma crise gestada na recomposição dos preços do petróleo, no bojo da criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).
Se o século XX foi intitulado pelo brilhante historiador Eric Hobsbawm, como o breve século, e um dos mais violentos da história, este tem tudo para ser um longo século, porque será arrastado por uma crise de duração prolongada, e quiçá não seja entremeado também por conflitos de dimensão mundial. Registre-se que outro intelectual, um economista, Giovanni Arrighi, já se referira ao século XX, como um longo século, porque foi buscar no entendimento de como a formação dos impérios foi essencial para a consolidação do sistema capitalista, efetivado exatamente no século anterior. O longo, ou o breve século XX, pela abordagem do historiador ou do economista, ambos marxistas, representam uma análise da formação histórica do capitalismo e dos sobressaltos de uma complexa economia, que só vai tornar esse sistema eficaz e vitorioso na segunda metade daquele século.
Mas há um forte diferencial, a tornar longa essa transição. No começo do século XX, uma parte considerável da humanidade acreditava ter ao seu alcance uma alternativa para substituir o sistema capitalista, embora este só tivesse se espalhado por todo o mundo naquele momento, efeito da expansão imperialista. Mas já era visível, principalmente com a grande depressão, que o capitalismo sobrevivia às custas de contorcionismos cada vez mais mirabolantes, salvo em seu extremo, na década de 1930, por uma teoria que tomou emprestado do socialismo, o planejamento e a forte ação estatal, e por uma guerra que destruiu e fez se tornar necessário a reconstrução de uma Europa devastada, que se tornou o laboratório para o keynesianismo e a sobrevida do capitalismo. Mais do que uma sobrevida, o capitalismo foi turbinado pelas novas possibilidades encontradas com as teorias que garantiram o “welfare state” e transformou os EUA no maior credor do mundo.
No entanto, os anos dourados que impulsionaram a economia mundial até a década de 1970 baseava-se fundamentalmente em princípios liberais tradicionais, cujo foco principal era a produção e a circulação de mercadorias, a curta e longa distância. Muito embora seus fundamentos inspirarem-se no livre mercado, todo o seu impulso contou sempre com a intervenção do estado. Isso se intensificou com o keynesianismo, e, por outro lado, com os movimentos nacionalistas nos processos de lutas anticolonialistas. A existência de uma forte corrente pró-socialismo manteve esse comportamento nas medidas econômicas que vigoraram até o final dos anos 1970. Os anos 80 puseram em xeque a tendência natural do capitalismo: seu caráter marcadamente expansionista.
Com as economias esgotadas, naquela que ficou conhecida como “a década perdida”, restou aos estados hegemônicos apressar a derrubada dos países socialistas, envolvidos internamente com o esgotamento de um modelo que não conseguiu se expandir para garantir condições de vida que se aproximasse das melhorias conquistadas pelas populações dos países europeus, cujas economias foram injetadas pelo Plano Marshall no pós-guerra.
No fim da década, a queda do socialismo e, principalmente, após a dissolução da União Soviética, o caminho abriu-se para uma reestruturação no capitalismo. Seja mediante uma expansão em direção ao leste europeu, e até mesmo penetrando nas fronteiras caucasianas e na Rússia, ou disseminando pelo restante do mundo a necessidade de desregulamentação da economia, reduzindo a intervenção do Estado na economia e derrotando as políticas nacionalistas protecionistas naqueles países periféricos, ou então vistos como subdesenvolvidos. Pela nova lógica que se disseminava, o nacionalismo e o excesso de intervenção do Estado eram fatores para manterem essas economias fragilizadas.
Esse processo tem sido analisado com mais intensidade na última década. No entanto, muito embora as vozes críticas da globalização, e das políticas neoliberais, fossem sistematicamente desqualificadas, desde o início desse processo já se analisavam as terríveis consequências de políticas econômicas cujo foco era tão somente atender os interesses dos que controlavam o dinheiro, e buscavam novas formas de garantir a acumulação, mediante medidas que facilitassem a circulação do capital e sua aplicação ao redor do mundo.
A partir de então, e numa rapidez estonteante, escorados em novas tecnologias, o dinheiro circulou o mundo com mais liberdades, e se multiplicaram as aquisições e fusões de grandes empresas, levando à concentração da riqueza de forma ainda mais visível. Proporcionalmente reduziu-se o percentual daqueles que concentravam a maior parte dessa riqueza. Ou seja, um número cada vez menor de pessoas, passava a controlar uma quantidade cada vez maior de dinheiro. O oligopólio passou a caracterizar essa nova etapa, e o poder das grandes corporações assumiu uma dimensão espantosa.
A ganância atingiu todos os recantos do planeta numa força impressionante. Ideologicamente houve uma mudança na maneira de entender o liberalismo, mas isso foi facilmente disseminado com um marketing violento, por meio da imprensa, do cinema, das propagandas. Tornou-se uma verdade absoluta render homenagem ao sucesso da globalização. Praticamente não se falava mais de outras alternativas ao capitalismo, e os que ousavam enfrentar o “pensamento único” eram vistos como vozes que pregavam teorias ultrapassadas, e, aproveitando o sucesso dos “blackbusters” de Spielberg, apelidados de “jurássicos” e afrontados ironicamente.
Mas os protagonistas do sistema tomaram um rumo semelhante ao jogador viciado que não consegue abandonar a banca de jogo, presos pela cobiça. Tão rápido quanto os avanços tecnológicos, foram os mecanismos inovadores nas formas de se ganhar dinheiro fácil, através das oportunidades com que se podia investir em empresas por meio de bolsas de valores 24 horas por dia, em todos os cantos do planeta. Principalmente naqueles países mais frágeis, cujas pressões das organizações globais encarregadas de padronizar as políticas econômicas, se davam mais facilmente, como decorrência dos comportamentos submissos das elites locais. Os juros extremamente elevados criaram portos seguros para investidores usuráveis, e eram garantidos pelas pressões exercidas pelas governanças globais, que impediam qualquer tipo de controle sobre os recursos investidos e dificultavam a adoção de medidas que taxassem seus investimentos no mercado especulativo, sem nenhuma preocupação com as condições econômicas desses países. O “rentismo” passou a se constituir na mais nova forma de se acumular dinheiro, uma nova característica do capitalismo, e criou um novo tipo de burguesia, mais preocupada com as oscilações das bolsas de valores do que com a capacidade de consumo para investimentos produtivos.
No entanto, o sistema não se recuperara por completo da crise iniciada na década de 1970. Muito embora a globalização se apresentasse como a consolidação definitiva do capitalismo, o rumo que o mundo tomou, com o crescimento da ganância e a redução do controle sobre a economia, abriu rombos que deixou incertezas e muitas dúvidas sobre a capacidade de recuperação. Mas isso só era visto por um grupo pequeno de economistas, ou de ativistas políticos ideologicamente avesso ao capitalismo, suas credibilidades eram postas em xeques e suas críticas não eram repercutidas pela grande imprensa.
Tudo se tornou visível, após esse período de inebriamento e crescente ganância, quando em 2008, rendendo-se aos fatos a grande mídia noticiou ao mundo o que alguns economistas já alertavam, sem serem ouvidos: o sistema financeiro estava à beira do “crash”. A quebradeira acontecia e arrastava a economia em meio a escombros de um tsunami econômico e social, de proporções imprevisíveis.
O ponto fora da curva teria sido as especulações feitas por meio de hipotecas no mercado imobiliário estadunidense. Mas esse foi apenas um fator, outros já vinham causando fissuras na estrutura do capitalismo. Desde os ataques ao World Trade Center, aos gastos milionários com as invasões do Iraque e Afeganistão, e a desastrosa “guerra ao terror”, além dos vai-e-vem no preço dos barris de petróleo, tudo isso e mais outros motivos, se juntaram a absoluta falta de controle de um sistema que perdeu a capacidade de  se contentar com os lucros obtidos a partir de investimentos produtivos, e se transformou em um verdadeiro cassino global, e, como em todas situações que envolvem jogo, somente os donos das bancas lucram, ou um ou outro afortunado que aposta quantias elevadas e conhecem os mecanismos de burlar o sistema.
Segue-se a esse absoluto descontrole da forma de funcionamento do sistema capitalista, toda uma série de acontecimentos que acompanha um novo modelo posto em prática nas últimas décadas, de maior intensidade nos mecanismos perversos de gerar desigualdades. O vale tudo, causado pela intensidade de um comportamento individualista, gerado pela onda da oportunidade e da competência, consolidada na meritocracia, tornou a sociedade adepta de um comportamento mais frio, pragmático e focada no sucesso a qualquer preço. Os exemplos pinçados numa realidade absolutamente diferente, são apresentados como sinônimo de dedicação e esforço do trabalho e da inteligência.
Antecedeu-se a toda uma nova formulação de comportamentos um receituário ideológico, adredemente vinculado ao caminho para o bem-estar individual e familiar, que se disseminou via ideologia neoliberal, cujos discursos se fundamentava nas questões postas no parágrafo anterior, e se espalhou pela grande mídia e nas igrejas neopentecostais. Nestas, a “teologia da prosperidade” procurou inculcar nos indivíduos a crença secular, pregada por alguns setores do protestantismo, notadamente os de origem estadunidenses, de que pela dedicação à fé e aceitação da ordem, se atingiria o sucesso, sendo este a recompensa da fidelidade como uma resposta divina, a prova de ser Deus fiel a quem lhe é fiel. O oposto às pregações do cristianismo primitivo, surgido como questionador das injustiças, da cobiça e da usura.
Por todos esses anos, deste novo século, escandalosamente acontecia o contrário do que se propagandeava com a globalização. A concentração de riqueza atingiu um patamar escandaloso diante de uma realidade desigual e ampliou-se o fosso entre ricos e pobres. E a pobreza, em larga escala, que se concentrava nos países pobres, espalhou-se pelos países mais desenvolvidos, como consequência do deslocamento de fábricas, a extinção de empregos e o aumento do número de moradores de ruas, ou da favelização.
Embora tenha havido uma pequena recuperação, nos dois últimos anos, ela está longe de representar uma saída para a crise, e em muitos casos, a retomada do nível de empregos está relacionado à busca de novas alternativas individuais, formal ou informal, ou a reabsorção de muitos desempregados em um mercado de trabalho cujo valor da mão de obra decaiu consideravelmente. Boa parte dos que retornaram à atividade laboral, o fizeram em outras funções, sendo forçados a aceitarem salários bem inferiores aos que possuíam anteriormente.
Mas, com a financeirização do sistema capitalista, e uma nova classe de novos ricos decorrente do deslocamento do centro gerador de lucros, já não tanto no setor produtivo, mas principalmente em negócios especulativos do mercado de ações, as condições econômicas acentuaram a concentração de rendas, e quanto mais lucravam, mais essa nova burguesia se tornava insensível e mais gananciosa.
Os Estados tornaram-se, então, reféns de um número cada vez menor de empresas, concentradas em processos inexplicáveis de fusões, consolidando um novo ciclo econômico, baseado nos oligopólios, no poder concentrado de grandes corporações e de poucas famílias de bilionários.
No entanto, isso não seria possível, apesar da violência como essas transformações se deram, principalmente passando por cima das soberanias dos países mais pobres, e agressivamente controlando suas economias, se não houvesse um processo de verdadeira lavagem cerebral nas pessoas, de convencimento sobre o final definitivo da humanidade nas hordas do capitalismo. Todas as armas foram utilizadas para isso, e naqueles países onde as políticas não atendiam a esses interesses houve uma verdadeira guerrilha midiática, a desacreditar outras alternativas que estivessem sendo construídas, fora da ordem estabelecida pelas governanças globais e pelo Consenso de Washington.
Desestabilizar governos que contraditavam essas verdades absolutas neoliberais, passou a ser uma estratégia a substituir as velhas intervenções militares. Os golpes de estado tornaram-se legitimados pela multidão cega, posta nas ruas pelas propagandas das corporações midiáticas, e, absolutamente alienadas quanto à realidade de uma crise sistêmica e mundial. A cegueira ideológica e o efeito manada constituiu-se em uma nova arma, para impedir que, mesmo em crise, a hegemonia do poder central neoliberal fosse ameaçada. Muito embora esteja em franca decadência, este centro, os EUA, mantém-se ainda como uma forte economia e, principalmente, com um poder bélico inatacável, a não ser por tresloucados militantes sectários a buscarem o paraíso para seus atos de “coragem” explosivas.
Mas, como na expectativa de Marx, considerando-se uma realidade em crise e a ampliação de suas contradições, não pode ser menosprezada a possibilidade de que elas ocorram internamente. Isso já é possível de se verificar no caos em que vivem algumas dessas sociedades, seja pelo constante medo de ações terroristas, ou pelas próprias loucuras gestadas internamente em ações que podem transformar alguns desses países, em especial os EUA, em ambientes de permanente terror, decorrente de confrontos alimentados pela luta de classes e pelo grau crescente de intolerância étnica, de cor, às escolhas sexuais e aos estrangeiros.
Contudo, se essa é uma possibilidade a estremecer os alicerces de alguns desses países, por outro lado a crise desperta antigas rixas, na disputa por espaços que garantam a hegemonia em um tempo fragmentado e de poderes cambaleantes. O temor histórico do avanço do urso em direção à Europa, algo já temido desde o começo dos séculos XX e assim alertado por um dos proeminentes geopolíticos britânicos, Sir Halford Mackinder, reacende agora com uma força ameaçadora, diante das estrepolias estratégicas de um ex integrante do serviço secreto soviético, a temida KGB onde chegou até o posto de coronel: Vladimir Putin.
Como a reportar os períodos que antecederam as duas grandes guerras mundiais, e, sintomaticamente, esses períodos foram marcados por crises econômicas estruturais (1905-1914 e 1930-1937). A primeira de característica expansionista, uma crise gerada pelo crescimento do capitalismo e pela disputa dos grandes impérios pelo mercado mundial. A segunda, de caráter recessivo, que irrompeu numa terrível depressão que afetou quase de morte o sistema capitalista.
Desta feita, diante de uma crise que já se prolonga há mais de uma década, velhas rivalidades retornam, mas o significado dessas estratégias é o mesmo, despertar o caráter destrutivo do sistema, identificado pela economista Naomi Klein, como de “Capitalismo de desastre”, pelo qual as guerras e as catástrofes são colocadas na conta de ótimas oportunidades para reconstruir um mundo devastado e recuperar economias centrais.
Enquanto isso se dissemina pela sociedade os sintomas de um ambiente criado ao sabor dessas grandes disputas, dos podres poderes, das formas de desenvolvimento que definem as relações sociais. Momentos de crises são oportunos para o surgimento de comportamentos radicalizados, a defender ou a defenestrar os governos que comandam os estados. Porque, tal qual argumenta a historiadora estadunidense, Ellen Wood, a burguesia conseguiu gerar uma cultura em meio ao povo que a torna onipresente nos momentos de crises. O povo, em sua revolta contra as condições que o mantém refém de economias recessivas, ou diante de situações em que lhe é negado a mínima dignidade de sobrevivência, com desemprego crescente, ataca de forma violenta os que governam, e o Estado, mas não se volta com a mesma virulência contra a classe que detém o controle da riqueza, dos meios de produção. Falta-lhe consciência para transformar um sentimento de ódio pelas injustiças, em razões que transforme as estruturas sociais.
Violência em larga escala, comportamentos intolerantes contra as liberdades individuais, tentativa de controle dos desejos, criminalidade tratada somente como desvio de caráter e não como uma patologia social, disrupção familiar, ódio étnico e preconceito contra as diferenças, de sexo, cor e formas do corpo, definido por valores e padrões estabelecidos pela classe dominante, tudo isso se choca e explode em tempos de crise.
Sem enxergar alternativas para um sistema cambaleante o sintoma invisível é o de uma longa transição, em que o novo demora a despontar, e o velho, já desgastado, joga as últimas cartadas num jogo viciado, enxergando no caos as poucas possibilidades de reestruturação. Como há milênios, nas longas guerras em que os que morrem são os que não possuem as riquezas, constroem-se impasses a fim de preservar privilégios, ou de ampliá-los, ao fim de destruições perversas.
Mas seja pela guerra, ou pela própria forma injusta de concentrar riquezas e distribuir miséria, a morte é uma frequentadora contumaz nos territórios pobres e periféricos. E, no entanto, como a cegar os que são induzidos ideologicamente a acreditar na crença da fatalidade capitalista, o próprio povo anseia por se ver protegido pela segurança armada a serviço da classe que lhe oprime. E este mesmo povo se distingue esculhambando-se enquanto pobres, e entronizando por meio de deslumbramentos doentios, os que despontam e enriquecem, pelos mecanismos ditos “meritocráticos”. É como concordar com um veredito decidido antes de qualquer crime, pois que senão pela recusa da própria existência, negada como real, e pela aceitação virtual de uma improvável ascensão de uma pirâmide cujo topo se limita pela riqueza, mas, principalmente, pela origem de classe.
Este mundo maravilhoso, assim cantado na magnífica voz de Louis Armstrong, “com o brilho abençoado do dia, e a escuridão sagrada da noite”, só garantirá a efetiva liberdade quando a opressão de classe desaparecer, e as desigualdades abissais não sirvam para definir critérios de caráter entre as pessoas. Só assim podemos acreditar que os bebês que vão nascer, “irão aprender muito mais do que eu jamais vou saber”. E esse algo mais, talvez seja a velha capacidade de poder dividir o que produzimos, mediante o velho altruísmo, qualidade que nos fez sobreviver em nosso processo de adaptação à ambientes inóspitos, e garantiu a sobrevivência, até aqui, da raça humana. Assim, una, etnicamente diversa, somente vista como várias pela capacidade adquirida em sistemas perversos, que impõe a poucos o controle da vida de muitos, tornando-os diferentes embora iguais.
Quando superarmos os milênios que nos separaram da nossa capacidade altruística, voltaremos a ser humanos, e a vivermos no mundo cantado por Armstrong. Aí poderemos dizer: “What a wonderful world”.
Isto é possível!


REFERÊNCIAS:
ARMSTRONG, Louis. What a wonderful world. https://www.youtube.com/watch?v=oGmRKWJdwBc
ARRIGUI, Giovanni. O longo século XX. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2012
HOBSBAWM, Eric. O breve século XX. São Paulo: Cia. das Letras, 2008
MACKINDER, Halford. O Pivô geográfico da história. São Paulo: Geousp, Espaço e tempo, nº 29, pág. 87-100, 2011.
SANTOS, Milton Santos. Por uma Outra Globalização. Rio de Janeiro: Record, 2011.
PIKETTI, Thomas. O Capital no Século XXI. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2014
WOOD, Ellen Meiksins. O Império do Capital. São Paulo: Boitempo Edtorial, 2014.
http://www.defesanet.com.br/otan/noticia/22863/OTAN-determina-reforco-militar-no-leste/
http://informacionaldesnudo.com/mapa-cuales-son-los-paises-mas-endeudados-del-mundo/

* Este artigo foi publicado em julho de 2016 com o título: "Cronicas de um mundo em transe - Atingimos o auge das contradições?"