domingo, 18 de junho de 2017

A HORA É DE MUDANÇA! PORQUE PRECISAMOS MUDAR A UFG.

Desde outubro de 2016, quando publiquei um artigo neste blog, uma espécie de manifesto (https://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2016/10/minha-vida-se-completa-na-ufg-sigo-por_13.html), me coloquei na condição de candidato a reitor da UFG. Mas minhas críticas ao perfil burocrático das últimas gestões, se estendem a meses antes, por meio de diversos artigos que estão até hoje aqui registrados.
Minha candidatura, vista como extemporânea terminou por ser um balizador da existência ou não de disputa nessa eleição. O retorno de um candidato que já passara por duas vezes pela reitoria, em um momento de disponibilidade de muitos recursos e euforia como consequência disso, por meio do REUNI (Programa de Reestruturação das Universidades Brasileiras), deixou em suspense sobre a insistência ou não da minha condição de candidato. Mantive a minha coerência, e julguei que tal candidatura representava a repetição de tudo que eu via de forma crítica. Reforçou mais ainda a necessidade de termos disputa e uma discussão em profundidade sobre o que é ser uma universidade e como nos tornamos uma instituição fragmentada, burocrática e clientelista.
Com essa decisão, e a certeza que eu não recuaria, mais outros dois candidatos entraram na disputa, a praticamente um mês de abertura das inscrições da chapa. Um desses candidatos voltara ao jogo a dois dias do final da inscrição, representando uma dissidência do grupo que há doze anos controla a administração da universidade, repetindo erros e vícios acobertados por uma acomodação que afetou a universidade desde o processo de expansão. Não importava por esse tempo discutir modelo de universidade, mas disputar o elevado montante de recursos que estava à nossa disposição.
Mas, apesar de ver essa dissidência como fruto do esgotamento dessa forma de comandar a UFG, saudei o fato de haver quatro candidaturas, pois significava essa possibilidade de discutirmos os nossos problemas – que haviam sido jogados para debaixo do tapete – com mais profundidade e de forma respeitosa. Creio que estamos conseguindo fazer isso, malgrado campanhas sub-reptícias que estão sendo feitas por meio de boatos, algo que afirmo não ser prática daqueles que apoiam a nossa chapa.
Dirijo-me especificamente àqueles que porventura não tenham se alinhados com outras candidaturas. Essa Universidade padece de muitos vícios somente possíveis de serem corrigidos com uma mudança forte, e a substituição de todos aqueles que  há mais de uma década se revezam em cargos e assessorias, não se preocupando em questões elementares para uma gestão participativa, democrática e com coragem de assumir posições. Não somente não temos um modelo adequado de universidade, funcionando de maneira integrada e com princípios que há muito defendemos, baseado na multidisciplinaridade, como nos fragmentamos acentuadamente nesse processo de expansão.  Há muitos problemas.
As últimas gestões jamais realizaram planejamento estratégico, e a descentralização administrativa muito mais do que representar um estilo democrático de gestão, significa a  delegação de responsabilidade, isentando-se de assumir com coragem decisões que devem implicar em garantir a integralidade de nossa instituição. Isso tornou a UFG com um perfil nitidamente clientelista. A burocracia, que se intensificou muito, é apenas consequência desse estilo de gestão e cumpre o objetivo de reforçar o poder nas mãos do grupo que a comanda. O excesso de burocracia e a multiplicação de comissões representam alguns dos vícios que precisam ser corrigidos.
Nossa universidade nos últimos anos foi posta de ponta-cabeça. O ensino de graduação, porta de entrada das dezenas de milhares de estudantes que representam a finalidade de sua existência, foi relegado às calendas gregas, menosprezado e não teve a prioridade que deveria ter. A licenciatura, então, embora os problemas externos também contribuam, passa por um momento de crise grave. Mas nenhuma iniciativa, nem via pró-reitoria de graduação, nem via o Fórum de Licenciatura, foi tomada para atacar os problemas que afetam essa área. Sequer nos tornamos protagonistas em discussões com governos e instituições externas à universidade, para poder contribuir com políticas públicas que reforcem as licenciaturas e garantam mais seguranças àqueles que escolhem formar-se como professores e professoras. Perdemos o bonde da história em diversos momentos: não discutimos o impacto do ENEM, não nos adequamos a contento para as mudanças que vieram com o SISU e não tivemos participação na discussão sobre a Reforma do Ensino Médio. E estamos passando ao largo das discussões sobre as mudanças das Bases Curriculares. Só conseguimos avanços, que devem ser mantidos e ampliados, na política de inclusão social. Mas padecemos de medidas concretas para garantir a permanência desses estudantes e evitar a evasão.
Precisamos discutir amplamente essa universidade, e mudar por completo. Precisamos nos adaptar às mudanças que tem acontecido, e deixarmos de seguir o perfil de universidade definido pelas ondas neoliberais que percorreram o mundo e o levou a uma das piores crises desde a grande depressão da década de 1930. Que nos sirvam somente os aspectos positivos, principalmente a nossa adequação aos avanços tecnológicos. Devemos ter coragem de não aceitar imposições que nos colocam submissos e de joelhos diante de medidas que são aplicadas sem questionamentos. Sucumbimos aos controles externos, não há luta por autonomia, o que há é covardia diante de decisões que desfiguram a universidade, por medo de assumir posições e de ser processado.
Não temos dúvidas em dizer que mais do que crescimento, neste momento de crise institucional, econômica e política, nosso objetivo deve ser uma reestruturação interna, com foco nas pessoas, na qualidade e na identificação do modelo de universidade que nos possam dizer o que somos, para que e para quem servimos. Queremos uma universidade que reforce a inter, trans, e multidisciplinaridade, que entenda o perfil da nova geração de estudantes e que crie condições para evitar a mobilidade interna e a evasão crescente, por meio de reforma curricular e do estabelecimento de grandes áreas do conhecimento, retardando a escolha por qual curso o jovem deseja. Algo que tem sido bem aplicado na Universidade Federal Sul da Bahia, na Universidade Federal do ABC, dentre outras.
No âmbito da estrutura da Universidade, queremos mudar a política e a prática no tratamento com os trabalhadores. Em primeiro lugar recompor uma estrutura técnico-administrativa que passou por um desmonte, a partir de escolhas por contratação de trabalhadores terceirizados, o que se agravou enormemente à medida dos cortes orçamentários e da redução dos recursos para custeio. Um erro estratégico imperdoável das gestões anteriores, que optaram por dirigir a universidade por meio de contratação de empresas que precarizam o trabalho e não se preocupam com o grau de qualificação de seus trabalhadores. Criamos uma dificuldade gerencial, na medida em que a expansão da universidade não contou com a ampliação do número de técnicos efetivos, ao contrário do número de professores que se elevou nesse processo. Um crescimento exponencial predial da Universidade não acompanhado pela garantia de pessoal efetivo suficiente. O corte de recursos impõe, naturalmente, uma diminuição no número de terceirizados, cujo pagamento se dá via verbas de custeio. Sobrecarregando, assim, as atividades sobre um número de TAEs que não teve o crescimento necessário.
Além disso, não tem havido nos últimos anos a preocupação necessária com a saúde dos trabalhadores, sejam professores ou técnico-administrativos. Programas criados há mais de uma década não têm sido usados para prevenir adoecimentos, por meio de garantia de exames de saúdes regulares e de acompanhamento de possíveis situações de estresse e depressão. Tem faltado às gestões da UFG a preocupação humanista e a valorização de outro patrimônio, que não só o material: as pessoas que constroem essa universidade.
Precisamos fazer a Universidade funcionar para aqueles alunos/as trabalhadores/as que estudam à noite. A UFG não funciona para eles, a não ser os Centros de Aulas. Vamos estabelecer os turnos contínuos para garantir uma universidade funcionando nos três turnos. E assim, atenderemos também a uma demanda histórica dos servidores técnico-administrativos, uniformizando o regime de trabalho em seis horas, como já acontece na biblioteca, hospital universitário e hospital das clínicas. Faremos isso, é uma necessidade, e queremos como contrapartida mais qualidade e dedicação no trabalho, possíveis de serem verificados por meio de planejamento e relatórios anuais.
No tocante à nossa relação com a sociedade, um vazio enorme nos afastou e nos deixou sem o protagonismo que tivemos em outras épocas. A expansão nos deixou somente preocupados com as questões internas. Conformamos-nos disputando os recursos e consolidando as unidades e laboratórios, isso era natural. Mas faltou à direção da universidade se preocupar em não se fechar como aconteceu. Nossa política de extensão é burocrática, como de resto. As ações se prendem a editais, e pouco se busca de alternativas, por meio de programas, que possa nos colocar em sintonia com o que se produz na sociedade, no âmbito da cultura, das artes e dos saberes tradicionais. E fazemos pouco levando para a sociedade, principalmente para as periferias e bairros mais pobres, o que produzimos em diversas áreas do conhecimento, e principalmente nas artes e na cultura.
Queremos mudar isso, fazendo da universidade um ambiente mais vivo, mais pulsante, mais criativo e, principalmente, mais tolerante com as diferenças. Uma universidade onde a disputa a ser feita internamente se dê prioritariamente no campo das ideias. Um ambiente aonde ninguém venha ser expulso por professar opiniões, ideias ou comportamentos que represente a identidade de gênero e as escolhas político-ideológicas de cada um/a. Queremos, enfim, resgatar a essência de ser universidade, algo que estamos perdendo gradativamente.
São essas algumas das questões que destacamos, embora ainda faltem muitas outras e críticas que tenho acumulado ao longo desse processo. Bem mais do que imaginava poder fazer quando comecei a debater os problemas da UFG. Vejo hoje que nossa situação, do ponto de vista administrativo e organizacional, é mais grave do que imaginava, o que joga por terra o argumento de “ser experiente”. Os “experientes” criaram uma estrutura caótica, desorganizada e fragmentada.
Espero contar com apoio expressivo da comunidade universitária. Que não tenham receio em apostar em um jeito novo de conduzir essa universidade. O medo não é um sentimento positivo quando precisamos de transformação, reflete a acomodação e a aceitação de uma normalidade estranha. Não tenhamos receios de enfrentar os desafios de uma época que está sendo marcada pela indefinição dos rumos, e diante de uma crise política que nos afeta com muita força. Mas precisamos de coragem e determinação para superar esse momento e fazer com que a UFG aposte na qualidade como elemento a nos projetar para patamares superiores no posicionamento do ranking universitário. E, lhes garanto, não terei medo de tomar posição e de lutar com ênfase por nossa autonomia. Mantenho a minha verve, e não temerei ameaças de processos, já passei por isso e jamais me acovardei. Meu CPF estará sempre à disposição, sem receios, e manterei minha coerência com aquilo que estou apresentando nos eixos programáticos de minha candidatura. Minha história reforça isso, e pode ser atestada no artigo do link que inseri no começo desse texto.
Conto com esse apoio. Tanto eu, quanto meu colega de chapa, candidato a vice-reitor, professor Leandro Oliveira. Estamos nos propondo a diuturnamente nos dedicarmos ao objetivo de fazer da UFG um lugar melhor para se trabalhar e estudar. E a torná-la uma das dez melhores universidades brasileiras.
Um forte abraço.
Professor Romualdo Pessoa
CHAPA 1 – UFG PRA VOCÊ! DIVERSIDADE & QUALIDADE

É PRA FRENTE QUE SE ANDA!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

É PRA FRENTE QUE SE ANDA!!

ENTREVISTA DO PROFESSOR ROMUALDO PESSOA AO JORNAL DO PROFESSOR – ADUFG (JUNHO 2017)(*)

1) O que te move a concorrer ao cargo de reitor?
 R – A universidade se acomodou a partir de uma euforia com uma quantidade grande de recursos aplicados pelo governo federal no processo de expansão com o Reuni. O ambiente acadêmico retraiu-se, consolidando suas unidades e laboratórios, mas faltou reforçar a essência da universidade, que se perde quando se fragmenta. Esse olhar crítico que tenho expressado em artigos publicados em meu blog (www.gramáticadomundo.blogspot.com.br) há pelo menos dois anos, me motivou e despertou uma marca que carrego comigo há décadas de lutas na universidade. O desejo de agir quando me incomodo com uma situação que não me agrada. Penso que por todos esses anos, mesmo com muitos recursos e com governos progressistas, até o segundo governo da presidenta Dilma, houve aqui na UFG um processo de desmonte da universidade, com o enfraquecimento de sua estrutura administrativa, com a substituição de técnicos efetivos por terceirizados. Ao mesmo tempo desprezou-se a importância da graduação, e dentro desta a necessidade de fortalecer as licenciaturas. Por esse tempo houve também um ensimesmamento na universidade, e, portanto uma retração na relação com a sociedade. Deixamos de ser protagonistas nas discussões de muitas questões que nos dizia respeito e que envolveu a sociedade intensamente. Tudo isso, e a certeza de que a experiência de anos de luta estudantil, sindical e acadêmica, poderia me possibilitar apresentar novos rumos, me fez deflagrar esse processo e ser o primeiro a colocar o meu nome em discussão para ocupar a reitoria da UFG a partir de 2018.
2) Nesse momento de escassez de recursos, com a conturbação política, quais serão os principais desafios de uma gestão de reitoria?
R – Em primeiro lugar ter muita disposição de lutar pela recomposição dos recursos orçamentários, bem como para garantir que aquilo que a Universidade consegue arrecadar por vários serviços prestados sejam totalmente investidos em nossa instituição. O desafio principal é não se acomodar, procurar unificar os representantes políticos goianos também nessa luta, provocar na Andifes um sentimento maior de combatividade na defesa das instituições federais e, principalmente, unificar a comunidade universitária nessa luta. Precisamos recompor e fortalecer os setores que compõem o ambiente acadêmico para que tenhamos uma universidade forte e com poder de reivindicação e destaque perante o MEC e o MPOG, mas também criar um fórum de defesa de nossa universidade, aglutinando diversos setores da sociedade organizada, governos estadual e municipal. Já fizemos isso em outros momentos de dificuldades e conseguimos passar por períodos igualmente turbulentos com determinação e não se curvando às pressões. Juntar essa luta também com a defesa de nossa autonomia. Agora, acreditamos que para termos sucesso precisamos fazer diferente de tudo que tem sido feito nas últimas gestões, na forma de lidar com as dificuldades. Ser mais proativo, ter coragem de tomar decisões e procurar se antecipar a situações de crises que possam nos desagregar.
 3) Qual a avaliação o professor faz da gestão do professor Orlando?
R – Eu prefiro não olhar somente a gestão do professor Orlando. Para mim sua gestão representa uma continuidade do que foi feito a partir das duas administrações anteriores do professor Edward. Ele foi Pró-Reitor de Administração e Finanças nas duas gestões, portanto não tem como separar sua administração das anteriores. Há diferenças de estilo, mas creio que houve continuidade à maneira como a UFG tem sido administrada nas últimas gestões. Claro que as dificuldades financeiras impactaram numa situação de instabilidade política e de cortes de recursos, mas isso se agravou também por uma opção feita de investir em contratação de técnicos terceirizados. Com isso reduzindo as verbas para custeio e não aumentando o número de técnicos-administrativos, que complica com a diminuição dos terceirizados. Além de ter acentuado uma gestão muito burocrática e excessivamente submissa aos controles que reduzem a autonomia da universidade. E também repetiu os erros cometidos anteriormente em não reforçar a graduação. Sintomaticamente temos nesse processo eleitoral tanto um ex-reitor participando que de forma inédita em nossa história deseja ser reitor pela terceira vez, como também um ex pró-reitor de graduação, que estava no cargo até o final do mês de abril. E essa foi uma área pouco valorizada nas três últimas gestões, embora haja números positivos, e que devem ser melhorados, em relação à inclusão por meio de ações e programas de cotas. Mas faltou focar na qualidade, na revisão curricular para adequar os programas dos cursos às mudanças que ocorreram desde o ENEM até ao SISU. Enfim, faltou nos últimos anos fazer da universidade uma instituição plena, com força e qualidade nos três setores que compõem o tripé acadêmico: ensino, pesquisa e extensão. Tornamos-nos uma instituição fragmentada,  clientelista e fragilizada em sua estrutura admistrativa. Vamos corrigir isso, diminuindo a burocracia, buscando estreitar as relações entre as áreas e conter a alta evasão que afeta os cursos de graduação.
4) O que o professor considera como sendo o ponto mais forte da sua candidatura?
R – A nossa vontade de fazer diferente, promovendo uma mudança completa no quadro de gestores de nossa universidade, a fim de conter certos vícios que se fortalecem com a continuidade de um mesmo grupo no comando, a disposição de refazer o sentido de ser universidade e a proposta de realizar planejamento estratégico, algo que não tem sido feito. Também retomar o protagonismo da UFG na relação com a sociedade e criar um ambiente de debate e discussão sobre problemas que são cruciais dentro e fora da universidade. Em nossas discussões com a comunidade universitária tem havido uma concordância com a necessidade de a UFG mudar de rumo. Podemos fazer mais e melhor, tendo como foco a qualidade e o respeito às diferenças.
5) Para a consulta à comunidade, a sua força de votos maior está entre estudantes, técnicos ou professores?
R – Há uma tradição, não só na UFG, mas nas eleições em outras universidades, que é a fragmentação dos votos entre os professores quando há uma grande quantidade de candidatos em disputa. Creio que isso acontecerá nessas eleições. Os estudantes, só se tornam decisivos quando vota um número elevado, em decorrência do peso proporcional, pelo fato de a quantidade ser bem maior. A não ser que haja uma votação muito expressiva, e é o que desejamos e estimularemos. Já os técnicos administrativos podem ser decisivos, já que costumam votar mais coesos. Nesse ponto, pelas propostas que tenho apresentado e que representam demandas antigas da categoria, como a flexibilização da jornada com turnos contínuos e 30 horas semanais, e a atenção à qualificação e à saúde, tem me permitido transitar com facilidade nesse segmento. Ao mesmo tempo, existem dois outros candidatos que representam o modelo de gestão que até agora não valorizaram muito a categoria e não fizeram ampliar o quadro de técnicos efetivos. Optaram por criar comissões que sempre protelaram decisões que já poderiam ter sido tomadas. Por minha história de luta desde os tempos do movimento estudantil e também por ter sido duas vezes presidente do nosso sindicato (ADUFG) e da SBPC, creio que conseguirei obter votos expressivos em todas as categorias. São trinta e cinco anos lutando em defesa da UFG, creio que haverá um reconhecimento a isso e o momento de crise reforça a necessidade de termos um reitor com perfil de luta, coragem, determinação e que consiga angariar respeito nos três segmentos que compõem a comunidade acadêmica.


UFG PRA VOCÊ! DIVERSIDADE & QUALIDADE.



*Essa é a íntegra da entrevista que concedi ao Jornal do Professor. Por razões de espaço a entrevista foi editada. Publico aqui em toda a sua integridade, as razões pelas quais nos colocamos como candidato a reitor da UFG.


domingo, 28 de maio de 2017

A DEMOCRACIA, A REPRESSÃO E O ESTADO MILITARIZADO

A Nota da Associação da Polícia Militar[1], em reação à reportagem sobre a agressão ao estudante da UFG, Mateus Ferreira, apresentada num programa deste domingo (28/05), é absolutamente irracional. Mostra bem que aqueles princípios norteadores da militarização das polícias, construídos durante a ditadura militar, com a criação do SISNI (Sistema Nacional de Informação), cujo objetivo, seguindo bem a orientação estadunidense incorporada nas elaborações teóricas do estrategista Nicholas Spykman, visava no âmbito da guerra fria identificar os inimigos externos e os inimigos internos.
Assim, todos aqueles que ousavam questionar os valores conservadores estabelecidos pelas políticas dos governos aliados dos EUA, e aqui no Brasil dominado pelos militares, eram considerados subversivos, perseguidos, presos, torturados e assassinados. Não se analisavam o caráter das pessoas, e a justeza de suas causas, mas identificavam naqueles que não concordavam com o regime desajustados criminosos, que eram inapelavelmente eliminados. Invertiam-se os valores, e os crimes de tortura e morte eram justificados como cumprimento aos valores patrióticos. Uma aberração, que causou mortes de gente inocente, que lutavam por uma causa justa, por democracia e justiça social.
Passados tantos anos, mesmo décadas depois do fim da ditadura militar, mantêm-se nas corporações militares aqueles mesmos valores, pelos quais se identificam nas rebeldias de jovens inquietos e inconformados com uma sociedade absolutamente desigual e injusta, como perigosos subversivos e criminosos.
Não estou pregando o comportamento agressivo e de enfrentamento com forças repressivas, até pelo caráter desigual do confronto, e por entender que as lutas em curso devem primar pelo equilíbrio e construção de outra forma de democracia, embora saiba tratar-se de uma tarefa difícil, pelas reações violentas às lutas democráticas. Também deploro a destruição do patrimônio público, porque é um patrimônio do povo e construído por meio de impostos  extraídos do suor da maioria que não sonega. Mas é indefensável usar um argumento de proteção do patrimônio quando se coloca em risco vidas de jovens, quando se adota uma forma repressiva nitidamente letal. E percebe-se que no caso em discussão, isso absolutamente não estava acontecendo, muito menos se identifica Mateus Ferreira em algum ato de depredação, conforme já mostrado por diversos ângulos no momento da agressão por ele sofrida.
O papel da polícia militar é de segurança, de garantias de defesa da segurança da população, primordialmente. Não pode ser de atentar contra a vida. Embora seja inegável que nas circunstâncias de uma atividade de risco muitos policiais perdem suas vidas. Evidente que também é lamentável ver isso ocorrer e deve-se louvar o trabalho daqueles que se dedicam com afinco a uma profissão que é de proteger o cidadão. Contudo, na medida em que se confunde um comportamento criminoso, com uma atitude de rebeldia e insatisfação social, percebe-se uma mudança nos objetivos dessa instituição, e um retorno à maneira como se procedia nos períodos mais violentos e antidemocráticos de nosso país, na ditadura militar. Não pode a democracia ser pior do que uma ditadura, mas no tocante à ação da Polícia Militar, isso está acontecendo. Por isso podemos questionar: que democracia?
A insistência na defesa desse comportamento agressivo em ações individuais e coletivas da polícia aponta em um sério e grave desvio de conduta  dessa corporação, que a afastará cada vez mais do cidadão, que já não tem mais respeito e sim medo, pela forma como se dá essa relação. E, ao se sentir protegido nas reações de seus comandos e de suas entidades de classe, individualmente as atitudes serão desproporcionais, agressivas, violentas e até mesmo com ações letais que atentam contra a vida das pessoas. Nessa direção, já não se faz mais distinção no trato entre o criminoso e o cidadão comum, mesmo que este eventualmente tenha se desviado de sua conduta pacífica. Perigosamente, marchamos para um modelo de sociedade moldada pelo medo e pelo militarismo exacerbado.
Urge, portanto, haver uma reflexão profunda nessa relação, estabelecer formas de treinamento que incorpore valores humanistas e compreensão sobre a importância dos direitos humanos. A segurança pública é essencial em uma sociedade fortemente urbanizada, em ambientes que congregam milhões de pessoas e diante de comportamentos egoístas, gananciosos e consumistas. Essa relação tem que ser estabelecida a partir de valores solidários e comunitários, o que não significa deixar de agir com rigor contra a criminalidade. Mas o que não se pode é identificar em todos ou todas que porventura sejam críticos das estruturas de poder como marginais ou bandidos.
Por essa razão, muito embora vivamos nos espaços da universidade diariamente com uma insegurança crescente, é que nos opomos à presença da Polícia Militar dentro de nossos Campi e regionais. Sabemos que precisamos de segurança, mas por esses comportamentos a presença militarizada da segurança incorreria em outras inseguranças, e certamente em algum momento isso poderia implicar em conflitos, por essa concepção formativa dos quadros policiais. Mas entendemos ser necessário encontrar um meio termo. Naturalmente, no entendimento de compreensão que a juventude é, por essência, rebelde, inquieta e contestadora, e isso é algo insofismável.
A crítica que fazemos aqui deve ser absorvida pelos que comandam o Estado e por consequência estabelecem a política de segurança pública. Para que o foco nos treinamentos dessas corporações seja o respeito às pessoas e a garantia de segurança para a sociedade. Mesmo que não se descuide da segurança patrimonial. Mas quando se estabelece como foco primeiro defender patrimônio, mesmo que à custa de agressões mortíferas contra as pessoas, isso representa uma decadência de valores e nos encaminha perigosamente para um tipo de sociedade fria, inconsequente, onde será impossível distinguir qual tipo de caráter importa defender.
Essas críticas também não podem ser recebidas de forma rancorosa, como se estivéssemos identificando em cada policial um inimigo. Não, essa lógica é o alvo de minha crítica de como se dá no sentido oposto. O que é preciso é assimilar a crítica como uma necessidade premente de se mudar a forma de tratar a juventude, de como atuar em meio à multidão, e de como proceder a uma tática defensiva nessas situações, como é prática em muitos países europeus. Não pode ser jamais uma instituição que existe para cuidar da segurança das pessoas, a primeira a exacerbar a violência. Ela deve, primeiramente, conter qualquer tipo de violência. É plenamente possível fazer isso, sem recorrer a atos que beiram a insensatez e o sadismo no confronto com os movimentos sociais. E considere-se o fato de que a forma como parte dessa juventude se prepara para a guerra, ao ir a esses atos, é consequência do histórico de repressão e de agressividade como a Polícia se comporta. E quanto mais se radicaliza nessa repressão, mais se amplia o número daqueles que assim se preparam para o confronto. Isso não interessa aos que organizam essas manifestações, não contribui para a democracia e aumenta perigosamente o risco de estarmos diante do estabelecimento de um estado policial.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

REPENSAR A RELAÇÃO UNIVERSIDADE-SOCIEDADE

A Universidade Federal de Goiás, como todas as universidades públicas, e até mesmo algumas (poucas) boas instituições privadas, cumprem um importante papel na relação com a Sociedade. Não somente por gerarem, a partir de seus preceitos básicos a que servem, a formação de jovens aptos a se tornarem profissionais competentes, essencial para que possam ter boas condições de vida, como também contribuindo com o desenvolvimento econômico e social nas regiões onde estão instaladas. A formação profissional e a pesquisa são essenciais para impulsionarem transformações socioeconômicas regionais, bem como reforçarem a competência nacional em áreas que são estratégicas para o país.
No entanto, outros elementos nessa relação são necessários, inclusive a formação humanista. É essencial que o conhecimento gerado na universidade, por meio do ensino e da pesquisa, seja levado à sociedade, envolvendo a comunidade de seu entorno, mas que vá bem além disso, ampliando o máximo possível os saberes acadêmicos produzidos.
Mas essa relação não pode ser burocrática, elitista, ou visando tão somente projetos que se adequem meramente dentro das exigências academicistas. Devemos compreender essas ações como objetivos precípuos, essenciais à universidade. Não se limitando, no entanto, a ser tão somente uma relação em que a Universidade apresente sua competência, exteriorizando sua produção e capacidade no âmbito da ciência e da produção do conhecimento. Isso é absolutamente relevante e necessário. Mas é preciso ir muito além disso.
É essencial criar uma sinergia com a sociedade em todos os sentidos, estabelecendo parcerias com organizações sociais, associações de moradores, instituições públicas e privadas, de forma a fazer com que o que produzimos seja não somente mostrado, mas usufruído pela população. E isso deve se dar em todas as áreas do conhecimento. Temos bons exemplos em algumas unidades que atuam em áreas de saúde, no Planetário etc. Mas podemos fazer mais, e melhor, também num sentido reverso, trazendo para dentro da universidade uma competência estabelecida fora dela, na experimentação da vida cotidiana dos saberes tradicionais.
Boaventura de Souza Santos
Creio que a Universidade Federal de Goiás não conseguiu nos últimos anos promover adequadamente esse vínculo, prendendo-se a uma aproximação mediante apresentação de editais com projetos que exigem o estabelecimento dessa relação. Não há crítica sobre esse caminho, embora haja em relação à quantidade de editais, que poderiam ser em maior número, mas tem sido reduzido em função dos cortes de verbas. Mas a universidade não pode buscar uma interação com a sociedade tão somente mediante esse mecanismo. É preciso criar programas que envolvam projetos de pesquisas e até mesmo as disciplinas da graduação. E também atividades que levem o que de melhor produzimos na Universidade à população de maneira geral, em especial às periferias.
Uma experiência recente pode nos servir como exemplo, embora as circunstâncias sejam diferentes, porque é uma universidade que começou recentemente do nada, com uma nova proposta. É o que tem sido feito na Universidade Federal Sul da Bahia, por iniciativa do Reitor Naomar Oliveira. Partindo de elaborações teóricas expostas por Boaventura de Souza Santos, a experiência consiste em reconhecer competências externas à universidade, de saberes tradicionais, identificadas como “epistemologia de conhecimentos ausentes”. Propõe assim uma revolução epistemológica, que passa a ser considerada como uma extensão reversa, de fora da universidade para dentro. O objetivo é consolidar uma relação que fuja de qualquer subordinação da universidade para com a sociedade, mas compreendendo uma relação de troca de saberes, de pesquisa ação. “Compreende, enfim, a promoção de diálogos entre saberes científicos ou humanísticos, que a universidade produz, e saberes leigos, populares, tradicionais, urbanos, camponeses, das favelas, provindos de culturas não ocidentais (indígenas, de origem africana, oriental etc.) que circulam na sociedade e igualmente a compõem.” [1]
Não temos aqui seguido o exemplo de outras universidades, principalmente as do Nordeste, que se envolvem fortemente com as culturas locais. Uma simples olhada nos sites dessas universidades, comparando-as com o que temos feito na UFG já é possível perceber a diferença de foco.
Propomos reverter essa situação. Entendemos que podemos fazer mais e melhor, promovendo nossas competências, mas valorizando a cultura local e regional. Produzindo ações que permitam o conhecimento do que é produzido para além dos muros da universidade e que podem ser representado em nossos espaços: música, folclore, cinema e artes.
O que é produzido de forma competente na Universidade deve ser mais conhecido e reproduzido na sociedade. Mas, ao mesmo tempo, devemos também abrir as portas da Universidade para o que é produzido de forma profissional ou até mesmo por meio de iniciativas populares em cidades onde certas festividades e folclores já se tornaram tradicionais. Propomos realizar festivais de música, teatro e folclore, transformando o ambiente acadêmico e fazendo pulsar em nossos campi e unidades regionais um pouco do que representa a arte e a cultura goiana.



sexta-feira, 5 de maio de 2017

UM TEMPO DE DESESPERANÇA. COMO ENFRENTAR ISSO?

Tenho insistido há algum tempo sobre o quadro político e social que tem nos afetado, e à toda sociedade. Minhas inquietudes ultimamente se concentraram na situação de acomodação da universidade, ambiente que deveria ser, por excelência, o oposto disso. Mas o que vemos na universidade é reflexo do que se passa na sociedade.
Nessa circunstância os arautos do caos despontam por todos os lados, mas carregam consigo uma espécie de maldade, decorrente de uma visão catastrófica do mundo e da realidade em si. Nesse ambiente de crise econômica, política e social, as pessoas ficam fragilizadas, porque, majoritariamente, não conseguem compreender todas as teias que são responsáveis por construir o tecido social no qual cada um de nós está envolvido. Muitos veem sua própria realidade como a dimensão do geral, e não a dimensão do que ocorre no geral influenciando em sua realidade.
Mas essa situação de acomodação não é fácil de ser revertida. Porque a rotina incrustrada no cotidiano de cada um impede que percebam que vivemos nossa vida de forma absolutamente repetitiva. Muitos dos que vivem nessa situação, porque a própria condição de suas atividades exige, não tem essa percepção e julgam estar dando o melhor de si para cumprir o que é exigido. Segue-se também a essa forma de se comportar alguns valores religiosos que lhes movem, pelos quais cada um deve dedicar-se a uma vida cordata, fazendo sua parte, e assim contribuirá positivamente para tornar o mundo melhor.
Essa é uma visão absolutamente individualista e nega peremptoriamente a condição do que seja viver em comunidade. E talvez essa seja uma das principais condições para a acomodação. E que poderíamos, em qualquer circunstância, também chamar de alienação social, pela qual o indivíduo perde a capacidade de perceber que ele, por sua ação, qualquer que seja, mesmo a imobilização, é fundamental para a formação da sociedade e até mesmo para a definição da política. Nessa circunstância ele, o indivíduo, ou ela, a pessoa, passa a aceitar tudo como normal, ou natural ou divino. A sua imobilidade, ou o fazer individual, conforma, e mantém as coisas numa direção retilínea e daí podemos falar de um comportamento conservador, porque passa a ver qualquer mudança como ameaçadora.
É claro que na política, no âmbito de relações democráticas, isso é aproveitado por quem disputa algum cargo ou função, cuja decisão esteja atribuída aos que serão dirigidos. Em situações de crise, como a que vivemos, há sempre uma dúvida atroz entre apostar em algo novo, o que sempre é visto com indisfarçável desconfiança, ou se definir (de forma conservadora), pela manutenção de quem possa representar a continuidade rotineira de sua situação. A acomodação leva ao medo de mudar.
Mas, por outro lado, há também parcelas significativas da sociedade que assumem postura oposta. E sentem-se seduzidas por discursos radicais, em muitos casos vazios de conteúdos que apontem em efetivas mudanças, mas que tocam fundo em revoltas incrustradas, seja por condições pessoais ou até mesmo por decepções políticas. A aceitação de tais discursos aleatoriamente, movida por sentimentos muitas vezes egoístas ou marcado por revanchismos ou mágoas, quase sempre resulta em apostas arriscadas, porque não se considera que tais decisões são podem ser movidas por olhares individualizados, com focos específicos em seus interesses particulares, mas necessariamente deve-se ver como os resultados de tais escolhas representarão positivamente no conjunto da sociedade ou da comunidade.
Ou seja, a manutenção de uma situação de normalidade, pelo medo da mudança, pode resultar na impossibilidade de se verificar erros que são cruciais para corrigir os rumos que tendem a levar às crises. Até porque isso significa, quase sempre, a concentração de mais poder naqueles grupos que se mantém à frente de instituições e do Estado. Isso pode não acontecer se a mudança significar o rompimento com práticas democráticas e o desvirtuamento de ações em prol do bem coletivo. Porque resultante em benefícios que sejam direcionados para a solução de desvios que impedem a justiça social.
A aposta cegamente no discurso sectário, moralista somente no sentido de se aproveitar das circunstâncias da insatisfação com denúncias em curso, e não como uma necessidade de mudança sistêmica nas estruturas que garantem essas práticas, e o objetivo elitista de atender a uma camada mais instruída, detentora da capacidade de formar a opinião pública, tende a resvalar para a intolerância, o preconceito, a xenofobia e a desconfiança com o ouro. Passamos assim a viver em um ambiente de absoluta fragilidade no âmbito das relações sociais. O tecido social rompe-se, o individualismo se acentua, a perda da autoridade se amplia e a violência assume um patamar de difícil controle. Alimentar esse discurso é irresponsável, e pode levar a sociedade ao caos, e a conflitos que destroem as relações e nos empurra por caminhos tortuosos.
Mas, nessa situação, em que a sociedade ou uma comunidade, já esteja submetida a uma situação como a descrita na maior parte desse artigo, que numa situação de crise ou dificuldade também é marcada pela desesperança, ou seja, quando a normalidade já assume ares de patologia, de normose, fazer com que as decisões sejam racionais torna-se bem mais difícil. A insegurança e a desesperança terminam por conduzir as decisões, e a capacidade crítica submete-se aos temores e aos medos condicionados pelo receio da mudança.
Urge sermos persistentes. Essa é uma situação semelhante à de um indivíduo que entra em um processo depressivo crônico. Somente com muita dedicação, insistência, convencimento e busca pela superação, seremos capazes de realizar mudanças que altere os rumos de situação que nos leva em direção ao abismo. E, se vivemos em estruturas democráticas, a não alternância pode ser um dos fatores que nos deixam com a sensação de que nada é possível mudar. Ou, que se mude, mantendo-se os mesmos, para que tudo continue como está.
Apostar na mudança, no novo, na novidade, não necessariamente deve ser uma aposta no desconhecido. Mas acreditando na capacidade de transformações efetivas em direções que nos levem adiante, de forma segura e que nos inspire confiança. Não podemos ficar presos ao passado, submetidos a condições em que vivemos em determinadas conjunturas, na ilusão de que se possam adotar as mesmas práticas em circunstâncias diferentes. Muito menos pode significar retrocessos, em escolhas por algo ou alguma proposta que já tenha sido experimentada no passado e que pode representar retrocesso ou grave anacronismo que pode também exacerbar crises e reduzir as possibilidades de transformações.
Como diz o saudoso Belchior: “No presente a mente, o corpo é diferente. E o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

É PRA FRENTE QUE SE ANDA!

segunda-feira, 17 de abril de 2017

UNIVERSIDADE: A LUTA CONTRA A NORMOSE

A Universidade Federal de Goiás está passando neste semestre por mais um processo de escolha de seu dirigente, o reitor, por meio de uma consulta à comunidade universitária conduzida pelas entidades de estudantes, técnicos administrativos e professores, com a anuência do Conselho Universitário.
Por incrível que pareça, embora se tratando de uma universidade, onde as ideias devem  fervilhar, onde a polêmica seja uma característica essencial e onde o sentido de mudança e transformação seja permanente, há exatos doze anos nós não passamos por um processo onde a comunidade possa fazer sua escolha entre diversos professores que desejam aspirar a esse cargo, e que apresentem uma proposta de universidade que possa ser plenamente debatida.
É preciso, então, analisar aprofundadamente porque nós chegamos a essa situação, da existência de uma espécie de pensamento único, de uma universidade que se tornou um ambiente de acomodação e onde as preocupações tem sido praticamente no sentido de garantir verbas para uma intensa expansão, ou ultimamente o que fazer com os parcos recursos que foram reduzidos, em função da crise intensa que passou afetar o Estado brasileiro a partir de 2015. Ou, até mesmo de uma luta particular para a manutenção de um staff de assessores, que deseja permanecer in perpetuum em suas estruturas de comando, tornando-a tanto mais burocrática quanto possa atender a esse desejo.
A universidade precisa, sim, de uma boa estrutura, de um ambiente que possibilite aos seus professores, técnicos administrativos e estudantes, conviverem e produzirem com excelência. Essa deve ser uma preocupação permanente. Mas ela é muito mais do que isso. A universidade deve primar pela necessidade de instigar a capacidade de criar, inovar, apresentar sempre algo de novo. Há de certo modo uma aceitação de uma normalidade que não representa o que significa ser uma Academia, no sentido dado a esse termo secularmente, onde não somente o conhecimento é importante, mas também, e, principalmente, o saber, já que é a sabedoria que garante o uso adequado do conhecimento.
Precisamos nos aprofundar nesse diagnóstico e encontrar resposta para qual tipo de universidade nós queremos. Universidade para que, e para quem.  Principalmente devido a esse momento de crise, de dificuldades financeiras, diante da necessidade de manter uma estrutura que cresceu aceleradamente sem o tipo de planejamento que identificasse a capacidade de garantir uma sustentabilidade a esse crescimento, construindo cenários que indicassem as complicações que adviriam como impacto de uma grave recessão, que era eminente diante do quadro de uma crise que é mundial.
Cabe-nos discutir agora, em que condições podemos construir um ambiente reflexivo, com respeito à diversidade, que nos garanta a continuidade de projetos que são essenciais, no âmbito da ciência e da inclusão, mas de uma universidade que não se feche em si mesma e se apresente para a sociedade como uma instituição capaz de dar respostas a muitos dos problemas que afligem a sociedade brasileira e que, naturalmente, tem reflexos em seu próprio funcionamento.
Uma Universidade que se desprenda da “normose”, que seja menos burocrática e esteja permanentemente atenta a necessidade de uma mobilização efetiva para defender seus princípios básicos, pelos quais sempre apresentou enormes contribuições ao país e ao estado. Para tanto, um novo modelo de gestão, que tenha também como foco as pessoas que compõem a comunidade universitária, o conhecimento em toda a sua plenitude inserindo nele o caráter humanista que nos torne mais tolerante com as diferenças, e o saber, que nos possibilite lidar com situações que sejam inesperadas, mas que também nos garanta ter a compreensão sobre as melhores maneiras de lidar com conhecimentos cada vez mais complexos.
Prof. Dr. Romualdo Pessoa
Candidato a reitor da UFG
Os desafios são enormes em função de uma realidade que nos envolve em crises. Mas superar crises deve também ser uma das qualidades da Universidade. E aquelas que nos envolvem diretamente, só serão possíveis de serem superadas com muita determinação, luta, desprendimento e dedicação. Componentes essenciais para torná-la viva, pujante e vigorosa. Mudar e renovar torna-se essencial para atingir esses objetivos.

É pra frente que se anda!
Por uma Universidade com diversidade e qualidade. 
UFG PRA VOCÊ!



(*) A normose pode ser definida como uma patologia social, pela qual há uma conformidade com o que é comum e consensual, muito embora às vezes indesejável, e em que se aceita a normalidade como uma fatalidade, mas pode gerar sofrimento e lento esgotamento.

domingo, 9 de abril de 2017

UFG PRA VOCÊ! DIVERSIDADE E QUALIDADE

O professor já se colocou à disputa lançando seu nome.
Romualdo Pessoa - Sim, eu quis fazer com certa antecedência porque a universidade vem de dois processos eleitorais em chapa única, tanto na reeleição do professor Edward como a eleição do professor Orlando. A universidade cresce em debates e discussões e esses dois processos foram frágeis pela ausência de um aprofundamento das questões que estavam postas em cada um desses momentos. Quem vier a disputar a eleição junto comigo deve vir com esse espírito para debater aquilo que propor para a universidade.
O que o motiva, inicialmente, então é essa necessidade do debate?
É um diagnóstico que eu tenho sobre a maneira como a universidade tem funcionado. A UFG recebeu muitos recursos em seu processo de expansão, acentuado e acelerado. Os governos Lula e Dilma destinaram montantes significativos, que foram aplicados em laboratórios e diversos cursos de pós-graduação, o que era necessário, mas por outro lado isso criou ilhas isoladas de saberes. A universidade carece de uma relação maior entre as diversas áreas. Essa situação de projetos isolados, a meu ver, não é um projeto de universidade. Ela tem que ser um todo. O processo de expansão gerou isolamento e competição entre diversas áreas. Muitas áreas de pesquisas que não são ligadas ao mercado acabam fragilizadas. Há um desequilíbrio nesse processo e precisamos discutir isso. Por último, houve uma acomodação em se pensar de que maneira esses recursos seriam melhor aplicados, de que forma o processo de expansão seria sustentado nos anos seguintes. Faltou uma discussão sobre isso e nesse momento, com recursos muito menores, em função das condições políticas e econômicas do país, é preciso refletir sobre o modelo de universidade que queremos. Uma universidade com foco nos cursos com mais aceitação no mercado ou uma universidade mais reflexiva, crítica, tolerante com as concepções diferentes e mais sintonizada com as questões da sociedade?
Fale mais sobre essa acomodação.
É sobre o perfil da universidade. Universidade para quê, para quem? É uma universidade inclusiva mas que perde sua capacidade crítica. O processo de inclusão não veio acompanhado de um processo que reflita a realidade brasileira. Um desequilíbrio entre cursos mais focados no mercado e as licenciaturas, o que possibilitou uma grande evasão em cursos fundamentais para a sociedade e para a preparação de jovens que ingressarão na universidade. Há um desequilíbrio também porque, na medida em que houve muito recurso para pós-graduação e pesquisa – as próprias contratações de professores tinham como foco fortalecer a pós-graduação – houve uma fragilização da graduação, principalmente em cursos necessários para os ensinos médio e fundamental.  Precisamos refletir sobre o perfil do formando que oferecemos para a sociedade. Acomodação é se contentar com o fato de que muitos recursos foram destinados à universidade sem discussão do perfil dessa universidade. Não houve grandes debates mesmo num dos momentos mais críticos, que foi essa transição política dos últimos tempos. A universidade não contribuiu com a discussão, nem internamente. A consequência disso foi o crescimento de um processo de intolerância também dentro da universidade, de não aceitação de opiniões diferentes e de imposição de ideias. Isso se choca com a própria razão de ser da universidade, que por essência tem que ter concepções divergentes, que tem que ser aceitas e debatidas. Não se pode impor pela força. E nos últimos anos é o que vemos, inclusive uma perda de autoridades. Tanto de dirigentes como de professores, houve agressões nesse processo todo. Carecemos de uma reformulação, retomada de rumo, naquilo que nos faz universidade, uma noção de totalidade, de necessidade de interação entre as diversas áreas e na capacidade criativa. Só a pesquisa não basta. É preciso extrair algo de novo, de inovador. Muitas teses reafirmam o que já foi dito, mas não dão passo além do que é investigado. Precisamos estimular a juventude a ser criativa e inovadora, e não há como isso acontecer se não analisarmos criticamente e com liberdade de criação.
O professor tem sido crítico a possibilidade de lançamento do nome do professor Edward. Por quê?
As gestões do professor Edward foram produtivas, principalmente quanto à expansão, o que decorreu do momento que o país viveu. Todo sistema universitário se expandiu aceleradamente, tanto institutos tecnológicos quanto universidades. Mas eu questiono a reeleição. Eu sou candidato para quatro anos. Nossa função maior na universidade não é ser dirigente ou gestor, mas ser professor. Professor Edward foi candidato a reitor com a proposta de não ser reeleito e terminou reeleito. Saiu para ser candidato a deputado federal pelo PT, não logrou êxito. Um retorno do professor Edward seria a continuidade de oito anos de gestão com mais quatro do professor Orlando, que saiu do mesmo grupo. Eu não me lembro, de todo tempo que estou na universidade, desde minha militância estudantil até hoje, de situação parecida. Um professor eleito, reeleito, que volta e que pode ser candidato a um quarto mandato. Mesmo que ele diga que não será novamente candidato à reeleição, não podemos saber, porque ele falou na primeira vez que foi candidato. Isso é ruim para a universidade.
Por quê?
Porque reforça a crítica que me faz candidato, tirar a universidade da acomodação em que ela se meteu. Aquilo que eu chamo de "normose", a doença da normalidade. Aceitamos determinadas situações como normais quando elas não são normais. Depois é que percebemos equívoco de não renovar, não mudar. A mudança faz parte da essência da universidade. Além disso a manutenção de um mesmo grupo por mais de uma década no controle cria vícios, burocratiza excessivamente determinados cargos, que são inclusive repetidos para as mesmas pessoas e não dá oportunidade para avançar. Precisamos avançar naquilo que já foi constituído. Por uma dificuldade de gestão de quem lhe sucedeu, e não encontrando nomes a altura para o processo eleitoral, volta o professor Edward, que foi reitor num momento de vacas gordas, para ser uma espécie de salvador da pátria? A universidade não precisa de salvador da pátria, uma questão inclusive em discussão no país. Precisamos de coragem para discutir nossos problemas e as condições em que esses problemas foram criados. Apesar de toda expansão, muitos problemas se originaram na maneira como se deu a gestão nesse período, inclusive nas relações internas da universidade, em que perdemos muito da autoridade e da liturgia de determinados cargos.
Que problemas, por exemplo?
As invasões(*) da reitoria, a humilhação ao próprio reitor em determinadas situações, agressões a professores. Em determinados momentos é necessário usar o estatuto da universidade para que não percamos o controle. Gerir bem a universidade evidentemente depende de uma equipe competente para isso e da capacidade de gerir pessoas, mas acima de tudo de liderança. A universidade carece de liderança, elemento fundamental. Não é só liderança na figura do reitor, mas também daqueles que estão à volta do reitor e daqueles que estão nos departamentos, unidades. Tem faltado muito assumir responsabilidades. Há um excesso de democratismo na universidade e de burocracia. O fato de a autoridade não assumir suas responsabilidades e delegar a autoridades inferiores as discussões com seus pares, para dali tirar uma opinião (inferiores no sentido de estarem abaixo hierarquicamente). Esse processo é longo e termina se perdendo. Há determinadas situações em que você precisa dar respostas imediatas. Se você não dá, a situação foge do controle. Isso tem acontecido nos últimos anos, tanto na gestão do professor Orlando como nas gestões do professor Edward. Considero também criar um gabinete de crises, para acompanhar as demandas que existem em todos os setores da universidade.
(*) Há questionamentos sobre o uso do termo “invasões”, em detrimento a “ocupações”. Quando de minha militância no movimento estudantil não tínhamos ressalva ao termo “invasão”, mas não ocupávamos por tempo indeterminado os espaços na universidade. Entendo a preocupação dos movimentos em estabelecer uma diferença, sob argumento que esses espaços são públicos. Mas discordo da estratégia adotada e fui franco nessa avaliação em minhas aulas, embora tenha respeitado e dado apoio às ocupações, até que houve a invasão da Assembleia dos professores e as agressões que se seguiram. A partir daí me mantive afastado. Na gravação falei "invasão", mas para dar um sentido diferente ao movimento.
JP – Qual avaliação o professor faria da gestão Orlando?
Ele pegou a UFG numa situação complicada, em função de débitos da gestão anterior, do professor Edward e num momento em que aconteceram cortes de orçamento, ainda no governo Dilma. Isso criou muita dificuldade de gestão, o que demandou muita habilidade não só em gerir recursos, mas habilidade política para conseguir novos recursos. E creio que um aspecto que poderia ter sido melhor conduzido na gestão do professor Orlando foi nos momentos de crise interna na universidade, em que equivocadamente alguns grupos internalizaram as lutas, quando elas deveriam ser externalizadas. Faltou um pulso mais firme nessas situações. O diálogo foi aberto, mas é inadmissível que determinados grupos ajam com radicalidade e sectarismo quando uma gestão se abre ao diálogo. E há um limite para o diálogo. A partir do momento em que a atitude radical não dialoga mais é preciso agir com autoridade, exercer o que está contido no estatuto da universidade. Faltou isso em alguns momentos, principalmente nas primeiras ocupações, o que levou essas situações se repetirem e quase fugiram do controle. Houve uma preocupação justa do professor Orlando para que não houvesse confronto de manifestantes com forças policiais, mas essa situação chegou ao ponto de quase haver necessidade de tropas dentro da universidade porque o problema não foi resolvido no começo. Ademais, a liderança não se faz no gabinete, mas na presença cotidiana em todas as partes da universidade, é preciso se antecipar a determinadas situações e estabelecer um diálogo frequente e presente nas unidades no ano inteiro. Ter contatos com professores e técnicos, saber de suas demandas, não esperar que os sindicatos peçam audiências. E também dos estudantes, que são diversos grupos, que se formam por demandas específicas, de gênero, de questão racial, de problemas sexuais. Grupos que fazem com que o movimento não tenha um centro único e as entidades estudantis sozinhas já não mais representam todos esses segmentos, porque inclusive alguns deles não querem. É preciso saber o que está acontecendo, o diálogo deve ser permanente. Conhecendo essas demandas e procurando resolvê-las, demonstrando a esses movimentos e entidades que há interesse em resolver essas questões, é evidente que você desarma qualquer ação mais radical. O reitor tem que percorrer mais a universidade.
Íntegra da Entrevista com o Prof. Romualdo Pessoa, publicado no Jornal do Professor, da Adufg-Sindicato, nº 36 – Janeiro/fevereiro de 2017.
Eleição da Reitoria da UFG – “Quem disputar comigo virá para o debate” – Prof. Dr. Romualdo Pessoa


Quando eu estava finalizando a organização e revisão do texto dessa entrevista, publicada em parte no Jornal do Professor da UFG, tomei conhecimento de uma reportagem publicada em um tabloide semanal de Goiânia, onde, de forma capciosa tenta desqualificar e estigmatizar minha candidatura, em detrimento de um nítido apoio a outro candidato a reitor, que somente agora se declara como candidato, embora já tenha sido reitor por duas vezes. Imediatamente, indignado, compartilhei nas redes sociais uma resposta me contrapondo veemente a esse tipo de ardil, em que se utiliza o péssimo jornalismo para confundir, em vez de informar honestamente. Reproduzo essa resposta abaixo:
AVISO A JORNALISTAS DESAVISADOS E/OU MAL-INTENCIONADOS: NESTE ANO A UFG VAI DEBATER SEU RUMO. E EU ESTAREI FIRME NO PÁREO.
Que tipo de jornal e jornalista escreve uma reportagem, te cita e dá informação categórica sobre você, sem lhe ouvir e saber se aquilo que diz respeito a você e a sua posição, é verdade? Certamente é daquele tipo que não merece crédito, e o que publica segue a linha do chamado “jornalismo chapa branca”, que somente apresenta a versão de candidatura oficial, não sei se pago ou por questões ideológicas. Em um caso ou outro não é jornalismo, é do típico tabloide que não está preocupado com isenção ou com verdade. Estou falando de reportagem publicada por um semanário goiano, que nitidamente faz propaganda de uma candidatura apresentada como a de um “salvador da pátria”, e alega que a minha candidatura a reitor “tende a sair do páreo”. Já postei  aqui que existe uma central de boatos, que esse tabloide repercute, tenta usar a tática de repetir uma mentira várias vezes para que assim ela se passe por verdade. Vou reafirmar aqui e peço aos amigos e amigas que compartilhem até chegar a esse despreparado jornalista e ao seu tabloide: minha candidatura é irreversível, e não faz parte de nenhum jogo, que não o objetivo de tirar a universidade da mesmice e da “normose”, da aceitação de imposição de nomes que julgam se perpetuar no comando da instituição. Se alguém se julga “salvador da pátria”, no caso, da Universidade, vamos tentar descobrir do que é preciso salvá-la. Ou seja, o que fizeram da UFG nos últimos anos que precisa ser salvo. Quem o fez? Que obsessão faz com que alguém julgue precisar retornar para “salvar” a UFG, depois de tê-la dirigido (de perto ou de longe) pelos doze últimos anos? Essas serão boas indagações para os debates que ocorrerão, para sabermos que universidade queremos. E creiam, reprodutores de boatos travestidos de jornalistas, eu estarei pronto para debater e discutir esses e outros problemas. A UFG não tem dono, e a comunidade universitária, professores, técnicos administrativos e estudantes, demonstrarão isso. Podemos fazer em nossa universidade algo diferente do que é feito nas disputas eleitorais tradicionais. E o primeiro critério é não faltar com a verdade. Estamos na luta! Porque É PRA FRENTE QUE SE ANDA!”


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