segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A GRADUAÇÃO NA UFG. QUEM AVALIA QUEM?

Durante a última campanha para candidato a reitor pude discutir intensamente os problemas que cercam a graduação na Universidade Federal de Goiás. Pela análise que fizemos era perfeitamente visível a absoluta ausência de um projeto focado na adequação do nosso modelo de ensino à realidade que se transforma aceleradamente, como consequência não somente do crescimento da Universidade, mas das mudanças geradas pelo ENEM e pela Reforma do Ensino Médio e as que afetam novas gerações de estudantes e nos impõe a necessidade de experimentarmos outras metodologias e novos mecanismos de interação entre professor/aluno, e principalmente diante das tecnologias que modificam hábitos e transformam comportamentos.
É nítido que nos últimos anos a universidade passou a priorizar mais a pós-graduação. Não vou entrar nessa discussão, que já fiz em outros momentos. Repito, para que não pairem nenhuma dúvida, que considero imprescindível o fortalecimento dos cursos de pós-graduação, não somente pela necessidade de formarmos novos doutores e termos um número maior de publicações científicas. Mas pela própria essência desses cursos, que focam na necessidade de apresentar novos conhecimentos e teses, por meio da pesquisa, constituindo-se em uma necessidade estratégica para o desenvolvimento do país.
Mas tudo indica que o modelo de universidade existente no Brasil, no âmbito dessas instituições públicas que investem fortemente em pesquisa, se esgotou. A graduação perdeu espaço para a pós-graduação, por diversos fatores. Principalmente porque esta garante aos professores maior protagonismo dentro do ambiente acadêmico e possibilita uma maior visibilidade para suas competências.
A graduação é a base da Universidade. É por ela que buscamos formar nossos melhores estudantes, não somente para torná-los profissionais competentes, mas também para que daí possa sair novos pesquisadores e professores. Por isso ela não pode ser posta em segundo plano. A condição para termos bons pós-graduandos é termos muitos bons graduandos. No entanto, a maior valorização das pós-graduações terminou ocasionando um certo distanciamento de boa parte dos professores da graduação. Até por uma questão de limitação da capacidade em sua atividade, já que há implicações decorrentes da necessidade de orientar um número considerável de alunos pós-graduandos. Assim passou a haver uma sobrecarga de trabalho para aqueles professores que se deparam com essa situação. E, na medida em que algumas exigências para elevar a pontuação desses cursos impõem publicações de artigos constantemente e uma permanente aferição do que se é produzido, incluindo quantidade de orientações, torna-se extenuante e estressante a maneira como se dá essa divisão e a responsabilidade de conseguir atender às pressões que só aumentam pelos mecanismos muitas vezes perversos que são criados pelos órgãos responsáveis por definirem os critérios e avaliação desses cursos e das atividades dos seus professores.
Dessa forma, já que os critérios que avaliam os cursos de graduação não seguem o mesmo padrão nem as mesmas exigências; bem como não implicam em atrair recursos das agências de fomentos; além de não garantir as projeções e visibilidade às competências que nos últimos anos reforçam vaidades e podem significar bolsas de produtividade, inevitavelmente o interesse maior, bem como o efetivo desejo de quem já entra na Universidade pensando como pesquisador, e não como docente, faz com que se inverta a lógica como deveria ser o ambiente acadêmico. A pós-graduação assume, assim, a condição de um melhor caminho para a carreira docente.
Isso trouxe como consequência uma certa indiferença quanto à graduação. Faz-se o que se pode, até porque se é obrigatório dar um mínimo de aula, por exigência legal. Falta estímulo e a universidade não apresenta alternativas a uma realidade que não é grave somente por isso, mas porque temos a cada ano gerações de alunos que se deparam com uma estrutura de ensino secular, muito embora eles carreguem hábitos gerados por uma sociedade em acelerada mutação e por lidarem com cada vez mais novidades tecnológicas que superam os mecanismos que usamos em salas de aula.
O contraditório, lamentavelmente, é que aqueles professores que desejam se dedicar mais às aulas de graduação são vistos como inoperantes e improdutivos. O que demonstra uma perversa incompreensão sobre a importância dos anos iniciais dos estudantes na universidade, formativos principalmente para suas escolhas do que se dedicarão ser, bacharel, pesquisador ou professor. Mas é essencial que a cada escolha as competências sejam fundamentais, e, portanto os níveis de conhecimento não podem ser diferentes. Não tem sido esse o rumo tomado pela universidade, o que resulta em desestímulos e distanciamento, na relação entre boa parte dos professores com suas atividades em salas de aula da graduação. Infelizmente, o modelo de universidade dificulta medidas que alterem essa realidade, já que o foco maior é na pós-graduação.
Ocorre que as alternativas que porventura venham a ser encontradas, só serão possíveis de acontecerem se houver, efetivamente, prioridade na atenção que a graduação merece. Isso implica em procurar compreender as condições em que se encontram cada curso, o perfil dos alunos e alunas que entram nesses cursos, quantos saem por necessidade, desestímulo ou buscam outras opções mesmo dentro da universidade, analisar as suas capacidades ainda no ano inicial e encontrar novas ferramentas e metodologias que se adéquem ao perfil de uma geração dominada pela tecnologia.
Nada disso tem sido efetivamente feito. Ou acontece esporadicamente e de forma isolada. Há mais de uma década que a universidade não passa por um profundo processo de discussão curricular e de avaliação dos cursos de graduação visando uma mudança e adequação aos novos tempos. Esse enfraquecimento da graduação, e o fortalecimento da pós-graduação, refletem-se nas escolhas feitas pelos professores, que seguindo uma lógica impositiva, preocupam-se com suas carreiras. Entendo que tudo isso é responsabilidade dos que estão à frente da Universidade, que estabelecem prioridades e são submissos a critérios questionáveis superiores.
No entanto, para forçar uma outra responsabilidade, que deveria ser natural, a reitoria da UFG adota medidas que desvirtuam os mecanismos que colocam os professores na condição de mestres. Quebram-se hierarquias e as substituem por um democratismo questionável, jogando para aqueles que deveriam ser os discípulos a condição de julgarem eventuais improbidades, livrando os que deveriam ser os condutores dessas fiscalizações, os diretores das unidades, de assumirem suas responsabilidades.
Não se trata de querer blindar os professores de serem avaliados por suas competências. Mas isso deve ser feito, rompendo-se qualquer tipo de corporativismo, pelos que assumem as condições para isso. Os diretores tornam-se chefes imediatos, e devem acompanhar, juntamente com as coordenações de cursos, a rotina de seus subordinados, sejam os técnicos-administrativos ou os professores. Hierarquicamente eles são os responsáveis por isso, mas não o fazem, porque se tornam reféns de uma estrutura que nos últimos anos têm primado mais por uma horizontalidade administrativa, fazendo, inclusive com que os próprios colegas sejam os fiscais das atividades do outro que se encontra no mesmo nível hierárquico. O que pressupõe dizer que é o caminho aberto para o assédio moral horizontal, que tem sido muito comum em diversas unidades. Essa forma caótica de administrar, se apresenta com um verniz democrático, mas constrói um ambiente muito mais marcado por perseguições, vaidades, assédio, do que propriamente um espaço de construção de saberes, de formas respeitosas de conduzirem o conhecimento.
Não bastasse, portanto, as avaliações às cegas às quais somos submetidos, não podendo assim identificar o perfil do aluno/a que está nos avaliando (já que poucos o fazem), a reitoria oferece como grande mudança nesses anos em que, inoperantemente, esqueceu a graduação, a possibilidade de o estudante denunciar o professor que porventura chegue atrasado para sua aula.
Ora, a responsabilidade disso é a direção da unidade e as coordenações dos cursos. Afinal, que medida se tomará contra um professor que eventualmente seja “denunciado” por um aluno/a por chegar atrasado? Se nem sequer se toma medida adequada contra os que são acusados de assédio sexual? Portanto é mais uma medida inócua, que gradativamente vai minando a autoridade do professor/a, e banalizando a relação que deve ser construída com base em competências respeitadas e hierarquicamente definidas.
Os Centros Acadêmicos devem
cumprir esse papel de fiscalizar
o funcionamento dos cursos
E criticar essa medida obtusa não significa compactuar com atitudes relapsas e irresponsáveis que porventura existam. Mas é preciso que em vez de empoderar individualmente, e abrir espaços para conflitos entre professor/a e aluno/ a reitoria deveria estimular os Centros Acadêmicos a acompanharem as condições existentes em seus cursos, do ponto de vista administrativo e acadêmico. E ele, o centro acadêmico, ser a voz dos estudantes na relação com a direção da unidade, para cobrar desta uma atitude em relação àquele docente que não esteja cumprindo sua obrigação. Como presidente de um centro acadêmico, na década de 1980, pude realizar um abaixo assinado e entregá-lo, e o fiz pessoalmente, à diretora de nossa unidade (que posteriormente veio a ser a minha orientadora no Mestrado), solicitando o afastamento de uma professora que faltava às aulas sem avisar nem dar justificativas. Pudemos fazer isso, sem quebra de hierarquias e sem que essa cobrança resvalasse para embates personalizados. O Centro Acadêmico foi o porta-voz da insatisfação de quase uma turma inteira, mas nem mesmo assim o foi em sua totalidade, já que alguns colegas não quiseram se manifestar.
Atitudes como essa certamente não receberá muita atenção porque o comportamento que existe dentro da universidade atualmente é de completa paralisia, como de resto acontece com toda a sociedade. Entretanto, essas medidas só serão sentidas com o tempo, e aí em meio à passividade já estaremos diante de uma situação que afetará nossa condição professor. Prevalecerá o estilo “amiguinho/a” da relação professor(a)/aluno(a) e seguramente, ao contrário do que pretende tal medida, prejudicará quem tem uma postura mais rígida no controle da frequência dos/as alunos/as, já que este/a estará submetido/a a um único deslize para que se proceda uma possível “vingança” de quem não aceita ser punido pelo professor por chegar atrasado na aula. O caminho será, inevitavelmente, deixar de fazer chamada e prevalecerá a cumplicidade, já existente em outras situações.
Mas, afinal, se essa medida foi tomada, significa que a reitoria tem informações sobre atrasos de professores. Ora, se isso acontece, porque por meio da Pró-Reitoria de Graduação não é solicitado informações às coordenações de cursos e direções das unidades, para que se procedam as medidas desejadas? E naturalmente isso não poderá ultrapassar a de uma conversa e de reclamação perante esse professor, para que tal fato não se repita. Afinal, existe no âmbito do regimento da Universidade, algum tipo de punição para o professor que insista em chegar atrasado? Juridicamente seria possível afastar algum professor por isso? Parece-me que não.
A universidade precisa debater reformas
mas também a saúde do professor -
Ver o significado da Síndrome de Burnout*
Portanto, a medida além de inócua é absolutamente duvidosa quanto aos resultados, além de questionável do ponto de vista pedagógico, uma vez que se inverte a lógica na relação professor/a aluno/a. Insisto que cabe às direções estarem atentas à maneira como os cursos de suas unidades estão funcionando e se os professores e funcionários estão cumprindo devidamente suas responsabilidades. Mesmo nessa circunstância, hierarquicamente definida, o caminho é o do diálogo e do convencimento, de forma a proceder à regularização de algum eventual desvirtuamento das nossas funções. É assim que deve funcionar uma Universidade.
De minha parte, assino com tranquilidade este artigo, pois não me lembro de quando tive um atraso em dia de aula. E se em algum momento isso aconteceu em meus 21 anos de universidade, o fiz com justificativa. Por outro lado, jamais fui conivente com atraso de alunos/as, dentro da exigência que é estabelecida pelo regimento. Mas não será com medidas como essa, que iremos resolver os graves problemas pelos quais passa o ensino de graduação, principalmente nas licenciaturas. Ao contrário, poderá ser fator gerador de conflitos na relação professor-aluno.
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(*) http://www.unaerp.br/revista-cientifica-integrada/edicoes-anteriores/edicao-n-2-2014-1/1464-161-454-1-sm/file

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

AS LIÇÕES DO PASSADO, AS INCERTEZAS DO PRESENTE, AS ILUSÕES DO FUTURO

* CRÔNICA PUBLICADA NO LIVRO "DEPOIS QUE VOCÊ PARTIU".


O futuro não existe. Essa pode ser uma frase forte, que transmite uma sensação de absoluta ausência de esperança. Fomos acostumados a ouvir sempre a tradicional frase: “a esperança é a última que morre”. O intuito sempre foi nos dar força para enxergarmos longe, bem além da realidade presente, em momentos de dificuldades ou de ameaças que apontam para perdas irreparáveis. Buscamos muitas vezes, espiritualmente, retirar forças de nossas fantasias sobre existências sobrenaturais, e com isso nos conformamos muito mais rapidamente com momentos trágicos e de perdas de pessoas que fazem parte de nossas vidas.
Mas, de fato, o futuro é apenas uma construção idealizada por nós. Por mais que essa constatação possa ser apresentada como uma elaboração partida de quem se encontra em estado depressivo, ou de alguém identificado como pessimista ninguém pode, a rigor, viver da expectativa do futuro.
Ou melhor, não deveria viver dessa expectativa. Pois na verdade essa tem sido uma das características do mundo contemporâneo, viver mais do futuro do que compreender o presente. Faz parte de estratégias de marketing, de construção de conceitos e ideologias que visam sustentar um conjunto de valores consolidados pelo tempo dentro da lógica de funcionamento do sistema econômico em que vivemos.
Por outro lado, e isso me fez adotar uma escolha ideológica, de combate ao pensamento que anteriormente descrevi, construímos crenças na absoluta necessidade de se desconstruir o presente, tendo como objetivo a construção de uma sociedade diferente, em que prevaleça a comum união, apontando para o futuro um ambiente mais solidário, de um ideal coletivista.
Hoje, onze meses após o desaparecimento de minha filha, vivo a me questionar permanentemente se não perdi muito tempo de minha vida preso entre essas duas realidades virtuais. A de um presente pouco valorizado, no sentido da importância de vivê-lo da melhor maneira possível, sem a obsessão do futuro. E a de um futuro, que representa uma incógnita, naturalmente, que se apresentava como uma condição para justificar a escolha de um caminho de luta para a construção de algo que o presente não representava. E por isso, tornava-se mais importante viver para o futuro do que para o presente.
Um futuro em que você desconstrói o presente, porque ele te revolta e a mudança em si já representaria uma fuga dele. E outro futuro em que você busca construir no presente, abstraindo a existência deste, sem nenhuma certeza de que ele por certo virá. Nas duas vertentes, vivemos todos à espera do futuro, que nunca chegará, simplesmente porque jamais nos conformamos com aquilo que nós mesmos construímos.
Minhas reflexões apontam na necessidade de nos concentrarmos mais sobre o passado para compreendermos o presente. Muito se diz da irrelevância disto, na medida em que o passado se foi, e jamais voltará. Mas não se trata de trazer de volta o passado, que em ultima instância significa a morte do que se foi, e sim a lembrança e o conhecimento de como construímos o mundo presente, onde erramos e acertamos, e por onde, no presente, devemos seguir para tornar nossas vidas mais prazerosas e menos sofridas.
Contudo, pensar dessa maneira tem sido analisado como sintoma de absoluta ausência de vontade de viver, na medida em que ao não enxergarmos o futuro perderíamos qualquer perspectiva de darmos valor ao que pretendemos construir. Assim, estaríamos fadados a simplesmente vivermos parados no tempo, absortos, desprovidos de vontades em realizar mudanças significativas em nossas vidas.
Vamos analisar o que pretendo dizer com o título desta crônica, partindo primeiramente desse pressuposto.
Desde a morte de minha filha tenho ficado a refletir sobre passado, presente e futuro. E percebam que desde a primeira crônica que escrevi tenho evitado usar a palavra “morte”, quando me refiro a ela, preferindo “partida”, pois embora tenha cessado a sua vida, não o foi a sua existência, enquanto permanência em minha memória. Apenas uma partida, uma “triste partida”, quase que como no poema de Patativa do Assaré, de um retorno impossível e de doídas saudades pelo que ficou.
Em minhas aulas repito sempre que a humanidade chegou ao ponto em que estamos pela capacidade que o ser humano adquiriu de construir utopias. De sonhar e lutar incessantemente para que cada sonho se tornasse realidade. Aprendi como na música de Raul Seixas, que “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Sonho que se sonha junto é realidade”. Pensar dessa maneira nos levou muito mais longe do que poderia imaginar os maiores visionários em suas épocas.
Mas o que construímos? Que tipo de sociedade edificamos com essa capacidade única dentre todos os seres vivos que habitam o planeta, de idealizar e de planejar o futuro? Podemos seguramente dizer que realizamos transformações impressionantes, inventamos coisas magníficas que de tão espetaculares nos tornamos delas escravos. Mas dentre tantas capacidades adquiridas, certamente nenhuma delas foi mais eficaz do que a criação de armas que pudessem nos destruir de várias maneiras possíveis. E, de tão inebriados ficamos que já não importava mais a vida do outro, ou até mesmo a melhor maneira de vivermos, senão a necessidade de construirmos um ambiente que se aproximasse ao máximo da idealização de um futuro marcado por essa capacidade inventiva.
Com isso tornou-se difícil construirmos um único futuro. A rapidez com que mudavam e mudam-se os valores nos impunham a necessidade de descartarmos num espaço de tempo cada vez menor aquilo que imaginávamos ser um futuro distante. Era preciso refazê-lo, pois, permanentemente. Na mesma rapidez com que se intensificavam os produtos, mercadorias, que definiriam a nossa maneira futurística de viver. Mudamos, assim, o futuro, sem jamais tê-lo vivido.
Presente e futuro passaram a se confundir. Ou, como conhecemos academicamente, o arcaico e o moderno passam a viver lado a lado, momento em que o futuro chegou para alguns e a permanência do passado caracteriza os outros. Estes passam a serem conhecidos como excluídos. Os demais, parcelas diminutas da sociedade rumam aceleradamente para um futuro que para alguns se encontra inatingível, muito embora o sistema ache várias formas de fazer com que todos, absolutamente todos, mantenham sempre a esperança de que ele será alcançável tal qual é imaginado, sonhado e até mesmo trazido para o presente de forma virtual.
Com isso, creio que mais do que viver o presente, passamos a viver para o futuro. Não importando as dificuldades que tenhamos para atingi-lo ou até mesmo jamais chegar a vivê-lo, seja pela morte que prematuramente pode inviabilizá-lo, seja porque na maneira como o mundo divide-se o futuro sonhado só é mesmo possível para alguns. O que também não garante nenhuma certeza de que ele virá, na medida em que a morte desconhece valores, crenças e condições sociais. Ela sim, é a única certeza do futuro.
Ao mesmo tempo em que deixamos o presente e vivemos em função do futuro, esquecemos o passado quase por completo. Nossa memória torna-se cada vez mais seletiva e abstraímos determinadas condições e até mesmo a história que nos trouxe ao ponto em que nos encontramos. Em meio a um mundo de incessantes mudanças vemos a todo o momento lamento de pessoas que afirmam nada mudar: “As coisas são sempre assim, nunca vão mudar”, dizem contraditoriamente em meio a um ambiente e a uma realidade sociais profundamente dinâmicos, de permanentes mudanças.
Diante de uma dor infinita e do sofrimento pela perda de minha filha, tento redimensionar meu olhar sobre o mundo e compreender melhor nossas vidas. Tenho sido amargo em minhas reflexões porque quando paramos para observar o presente somos bombardeados por um aparato midiático que busca explorar certas características que foram se tornando marcas em nossa maneira de viver. Os meios de comunicação, em suas buscas ávidas por audiência que lhes aumentem os ganhos financeiros, exploram a curiosidade mórbida que se acentuou na natureza humana, até mesmo por algumas crenças religiosas que visam apresentar o sacrifício como elemento permanente na nossa relação entre a vida, morte e a salvação espiritual.
Imagino, no entanto, que viver a vida presentemente, absorvendo o passado de forma positiva, sem, contudo, cairmos em um mundo de auto-ajuda ou auto-sacrifício, deixando de lado a obsessão futurística, seria a melhor maneira de encontrarmos um caminho menos individualista e egoísta para a humanidade. Achar o caminho não significa idealizar o futuro. Ele será construído na medida em que o presente vá sendo consolidado. O que nos falta é compreender que não haverá futuro algum se no presente algum obstáculo nos impedir de seguir adiante.
Sem minha filha, tendo a repensar minha vida a partir do universo que me cerca. Do que ficou de minha família, sem a Carol, mas com o meu filho Iago e minha esposa. De que adiantou pensar tanto no futuro de minha filha se sua vida foi ceifada. Poderíamos ter vivido de forma diferente, ser mais tolerante, construído melhor nossas relações e imposto menos sacrifício aos dias que se passaram, quase sempre vistos como um degrau para o futuro. Pensar diferente o presente, estreitar nossos laços mais com o passado, sem viver necessariamente de nostalgias, mas sem a obsessão de que o futuro é tudo em nossas vidas, pode nos ajudar a aproveitar melhor cada momento junto daquelas pessoas de quem gostamos. E até mesmo olharmos o outro com menos desconfiança.
Isso nos remete à discussão sobre o sentido da utopia. Pode parecer que assim deixo de pensar um futuro utópico e tento viver essa utopia no presente completamente destoado da realidade que é o mundo hoje. Isso é fato. Constatar isso, saber o quão difícil seja enfrentar os desafios de um mundo que se tornou extremamente complexo e demasiadamente humano, para parafrasear Nietsche, amplia as nossas angústias e nos transfere para um universo de questionamentos e incertezas que podem nos afundar numa depressão. Esta que tem sido talvez por isso mesmo, a doença mais característica dos tempos atuais e tem produzido uma geração profundamente ansiosa.
A dúvida entre viver o presente real, construir um mundo virtual ou um futuro desejável, mas profundamente incerto, é algo que nos deixa completamente inseguros e fragilizados, apesar de sentirmos a necessidade de nos apresentarmos como pessoas fortes e plenas de segurança pelo que queremos. O que queremos é o futuro. Mas será que veremos esse futuro que queremos? Essa questão não encerra esta crônica, antes nos leva de volta ao começo.

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(*) Esta crônica foi publicada no livro "Depois que você partiu", com o título: "Não verás futuro algum". Achei melhor modificá-lo, pois o tempo me fez ver que o título original transparecia uma visão de rendição ao incerto. Não era o sentido que tentei expressar em seu conteúdo, como pode ser atestado na leitura.
CAMPOS FILHO, Romualdo Pessoa. Depois que você partiu. Goiânia: Editora Kelps, 2014. 2ª edição, ampliada. Pp. 101-106.
(Nota: A primeira edição do livro foi publicada em dezembro de 2008. Um ano depois da morte de Ana Carol, em 13 de dezembro de 2007. Essa crônica faz parte da primeira edição)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

OLHANDO O FUTURO PELO RETROVISOR

(Crônica publicada no livro: DEPOIS QUE VOCE PARTIU)[1]

A morte de minha filha mexeu demais comigo e ainda me deixa confuso. Sinto-me diferente, embora mantendo as marcas que me caracterizaram ao longo de minha vida, meu jeito de ser. Mas desde o dia 13 de dezembro carrego no peito um coração abalado, fragilizado e bem mias sensível. Na mente as lembranças não são mais as mesmas, os projetos já não tem tanta importância quanto antes, a vida segue perdendo um pouco do sentido que tinha até o dia em que a Carol partiu.
Dentre todas essas sensações, e que tenho procurado relatar ao longo das crônicas que escrevi, uma que mais chama a minha atenção foi o retorno ao passado. Desde a morte da Carol tenho dificuldades para ouvir as músicas que invariavelmente as colocava para tocar. Selecionadas ao meu gosto, milhares de músicas fazem parte de um repertório que me acompanha e que me alivia do desgastante estresse do dia-a-dia dentro de meu carro. Mas não consigo mais ouvir as mesmas músicas de antes, aquelas que sempre carrego, sem sentir uma forte dose de emoção. Invariavelmente eu choro, sempre que as ouço. Por isso não tenho insistido e evito, por enquanto, ouvir esses cds. Pelo menos até o momento em que escrevo esta crônica, ainda não consegui romper este bloqueio.
Há uma explicação para isso. Minha filha era uma grande companheira de “viagem”. Para qualquer lugar que eu fosse, em qualquer momento, ela imediatamente corria para se arrumar, e insistia para sair comigo. Sentava-se quietinha no banco traseiro, sempre colocava o cinto de segurança que aprendeu a usar desde bem novinha, e ali ficava, às vezes impaciente com os meus impropérios no trânsito. Quando eu me excedia, ou notava que ela estava muito caladinha, por entre os bancos estendia meu braço e agarrava uma de suas pernas carinhosamente. Quase todas as vezes que ela saía comigo eu repetia esse gesto. E ali, em sua companhia eu ficava a ouvir minhas músicas preferidas. Ela só reclamava quando às vezes eu aumentava demais o volume. Por isso, essas músicas me fazem muito lembrar minha pequena Carol.
Estranhamente, o mesmo não acontece com aquelas músicas dos anos 70. Tenho uma vasta seleção de músicas daquela época, centenas delas gravadas em MP3, que retratam um período importante de minha vida, a minha adolescência. São essas as músicas que quase sempre tenho ouvido depois que a Carol partiu. O que me faz olhar mais o passado do que o futuro.
Não que elas não me emocionem. Também ao ouvir algumas delas, por várias vezes, chorei sozinho dentro de meu carro, pensando em minha filha e sempre estabelecendo relações entre o que no passado pensávamos do futuro. Dos sonhos, dos amores, das fantasias, da vontade de ter filhos. E o presente, um tanto vazio, causado por uma perda que nos bloqueia agora uma visão de futuro. Mas essas músicas me atraem, sinto vontade de ouvi-las, me apego agora muito mais ao passado do que às construções mentais que fazemos idealizando nossas vidas alguns anos à frente.
Isso me preocupa, claro. Tanto que já comentei algumas vezes com minha esposa e companheira, Celma, sobre o quanto eu acho estranho não sentir vontade em planejar o futuro. Minha preocupação não é propriamente comigo, mas com meu filho, que permanece vivo, saudável, e agora somente ele representa esse elo entre passado e futuro. A ele devemos dedicar todos os esforços que garantam que sua vida não será sofrida, para que ele possa viver de forma prazerosa e satisfeito em estar conosco. Se não apontamos para ele a importância de lutar por um futuro tranqüilo, alegre e proveitoso, ele pode perder-se no presente. Afinal, a falta de perspectiva de boa parte da juventude é, sem dúvida, responsável pelo aumento da criminalidade entre os adolescentes, o que tem feito aumentar o índice de mortes nessa faixa etária. Mas ao mesmo tempo precisamos demonstrar para ele que o mais importante é viver bem o presente.
Como lidar com essa dificuldade tem sido para mim um desafio. Ao perder uma filha na idade da Carol, 10 anos, não consigo deixar de racionar dentro de uma lógica que me diz que o presente vale mais do que tudo. Tanto mais quanto tenha sido sofrido nosso passado. Essa perda me indica que nossas vidas devem ser vividas intensamente, de forma positiva, livres das mesquinharias que marcam nosso cotidiano. Apesar de ter dedicado um bom tempo de minha vida à meus filhos, ter viajado, passeado muito com eles, depois da morte da Carolina ficou a sensação de que eu poderia ter me dedicado mais, aproveitado mais os momentos, brigado menos com ela. Como nos instiga sempre que a ouvimos a música de Silvio Brito cantada pelos Titãs, embora o acaso não tenha nos protegido como eles cantam, dessa enorme perda.
Tudo isso tem feito com que eu tenha mais presente as lembranças do passado do que uma imaginária construção do futuro. Sei que não posso viver dessas recordações, mas isso de certa maneira tem me aliviado nos momentos de solidão, principalmente quando sozinho em meu carro me lembro da companhia da minha “Bela”. Isso me instiga a “viajar” por entre meus absortos pensamentos e a indagar sobre como nos motivamos sempre construindo imagens idílicas do futuro. É inegável que a humanidade chegou ao patamar de desenvolvimento movido por esses sentimentos, pela utopia, por uma lógica que nos arrancava do presente e nos impunha a obrigação de trabalhar pelo futuro. Muito embora muito disso esteja ligado à ganância, a se produzir sem necessidade, motivando um consumo descontrolado, baseado na usura.
Mas, penso que isso levou ao limite de nossa frieza emotiva, relacional, comunitária. Passamos a viver um cotidiano perturbador, cuja obrigação sempre é de sermos competentes ao máximo a fim de podermos produzir o suficiente para garantir ganhos, lucros, tanto quanto possa ser suficiente para construir um futuro para nós. “Nós”, aqui entendamos bem, o “Eu” e os que fazem parte da família. Mesmo que o cotidiano perverso marcado pela obrigação de trabalhar ao extremo nos obrigue a nos afastarmos cada vez mais do que deveria ser um prazeroso convívio com nossos filhos e filhas, e parceiras, ou parceiros.
E assim seguimos construindo nosso presente. Pela lógica, nos afastamos dele a cada dia, mas não o vivemos como deveríamos. Carregamos sempre uma emotiva lembrança pelo passado e imaginamos sempre como será nosso futuro, ou como deverá ser. Entre eles o presente é uma mera passagem, fria, distante, forçada, pois sempre reclamamos de nossas atribulações, estamos sempre a rememorar o passado e a lamentar o presente, repetindo absurdamente que nada muda, que a rotina é estressante, que estamos cansados do que fazemos. Quase nunca, nos dias atuais, o presente é indicado como um momento prazeroso. Muito embora nos habituamos a responder sempre ao “como vai?” às pessoas que nos cumprimentam com um aparentemente otimista “vou bem, e você?”, tudo não passa de formalidades. Tão logo nos encontremos com outras pessoas e passemos a conversar sobre nossas vidas, principalmente no trabalho, e a analisarmos os acontecimentos à luz das imagens que a mídia nos transmite de informações, o presente torna-se sombrio, violento, injusto. Enxergamos tão somente as coisas ruins e assim vamos construindo um cotidiano em que o presente torna-se irrelevante e o que nele fazemos significa somente a construção do futuro. O resultado disso são momentos amargos, volúveis, insignificantes. Quando optamos por nos distrair, participar de algum momento festivo, e de encontro com os amigos consideramos isso como uma necessidade de relaxar, sair da rotina. Numa clara inversão do que deveria ser nossa lógica de viver.
Deveríamos construir em nosso cotidiano momentos aprazíveis, e não somente buscar o prazer em raros instantes que passam a significar um flash, uma fotografia que retrata uma sensação de alívio em fugir do presente para lugar nenhum. O sistema, claro, reforça-se em seu caráter mutante em nos oferecer os lugares, alguns dos quais vistos como santuários, quase sempre ligados à natureza, ou ao que resta daquilo que destruímos para construir o futuro.
Vejo-me, assim, numa encruzilhada e o dilema é tentar descobrir qual o caminho a seguir, na medida em que ao olhar em frente não vislumbro o horizonte. Passo, portanto, a analisar com muito mais rigor do que antes o terreno em que estou pisando, melhor dizendo, estudo melhor o presente, o que nos cerca, as nossas relações. Corro por outro lado o risco de permanecer estático em um presente mutante, apegado a uma perda inestimável, que para mim ainda é presente, embora eu devesse vê-la como passado.
Entre a ausência de uma perda que representou uma dilaceração em minha carne e a presença de pessoas que ainda me completam, para os quais eu deveria viver mais o presente encontra-se um vazio, melhor dizendo, um lapso de tempo, que eu não consigo traduzi-lo. Não sei o que é, nem o que pode significar para mim. Sei que devo vivê-lo, atravessar essa tempestade e encontrar um porto seguro para ancorar, e aprender a ver sempre a imagem de minha filha sem sofrimento, sem culpas, mas mantendo sempre presente o amor que imensamente eu sentia por ela. E até mesmo acostumar-me a dizer, “o amor que eu sinto por ela”, pois se seu corpo já não se faz presente, seu nome, sua lembrança, sua meiguice, a Carol que tanto amamos, permanecerá sempre viva em nossos corações, em nossas mentes.
Tudo que passou no tempo, morreu. Ficou em nossas lembranças. Um artista, que imortalizou sua obra; um líder revolucionário que deixou um legado ao seu povo; um pai que nos deixou ensinamentos e lições. Mas também uma árvore que se foi, um animal de estimação que perdemos, uma oportunidade que passou, nossa infância, tantos amigos, momentos que não voltam. Tudo representa agora, afinal, momentos passados, que se foram. Morreram. Mas mesmo assim nos lembramos com alegria, apesar de não compreendermos jamais como lidar com a morte, eterna certeza a nos acompanhar.
Como lembrar de minha filha reforçando as boas lembranças de sua presença por dez maravilhosos anos em que ela esteve conosco? Em transformar meu riso em alegria e recuperar essa sensação que não sinto mais? Sorrir não necessariamente é estar alegre, não me basta sorrir, preciso sentir a alegria de poder me lembrar da Carolina, o que significa trazer o passado como lembrança a fim de motivar o presente, e assim, encontrar alguma razão para imaginar que ainda é possível sonhar, em ver o futuro e um horizonte, em transformar as lembranças de minha filha num incentivo para viver com alegria ao lado de pessoas que eu amo e que a Carol gostaria de vê-las sempre felizes.
Olho no retrovisor para buscar, no passado, exemplos que me ajudem a seguir no presente por caminhos que me façam novamente sorrir com alegria, tendo sempre comigo a lembrança da minha eternamente pequena Carol.



[1] CAMPOS FILHO, Romualdo Pessoa. Depois que você partiu. Goiânia: Editora Kelps, 2014. 2ª edição, ampliada. Pp. 73-78.
(Nota: A primeira edição do livro foi publicada em dezembro de 2008. Um ano depois da morte de Ana Carol, em 13 de dezembro de 2007. Essa crônica faz parte da primeira edição)

domingo, 12 de novembro de 2017

ENQUANTO A CHUVA CAI A ÁGUA SE ESVAI - ESCASSEZ E ESTRESSE HÍDRICO

Enfim, a chuva chegou! E como no velho niilismo nietzschiano nos vemos preso a um fim que não se acaba e estará de volta em um eterno retorno de um discurso que retomará seu recomeço no próximo período de seca.
É impressionante como recorrentemente o problema hídrico é tratado somente no limite da necessidade. Há um provérbio popular que sintetiza bem isso: “Só percebemos o valor da água depois que a fonte seca”. Naturalmente, o interesse da grande mídia comercial está na criação de um sentimento de perplexidade, e da geração de temores e medos que compõem o universo dos jornais e telejornais sensacionalistas, em sua maioria. Às vezes até aparecem boas reportagens sobre o assunto. Mas pecam pela superficialidade, e pela insistência em tratar o problema da falta de água como decorrente dos gastos abusivos, ou excessivos, por consumidores urbanos.
Podem acontecer abusos, e certamente acontecem, no uso da água nas cidades. Mas longe está desta ser a principal razão da grave crise hídrica que ameaça não somente a economia, mas como nossas próprias vidas, humanos, animais ou plantas. O mesmo pode-se dizer da forma como aparece na abordagem dos problemas climáticos, insistentemente focado no discurso do aquecimento global com um viés voltado para o interesse da reestruturação capitalista e favorecimento das grandes corporações. Desvia-se do eixo central, das questões que são, de fato, as responsáveis pela forma com a falta de água se tornará, provavelmente tendo seu auge em 2050, no pior problema da humanidade para o século XXI.
A literatura acadêmica, focada em pesquisas sobre esse tema, tem apontado há mais de uma década, não somente os diagnósticos que indicam as causas da crise hídrica seja escassez ou estresse, como também indicam as necessárias medidas para amenizar esse problema. Mas, tanto o diagnóstico, quanto as medidas a serem tomadas, esbarram na forma perversa como funciona o sistema capitalista, ou decorrente da escolha de um estilo de vida altamente urbanizado, exageradamente marcado pelo consumismo, mas, principalmente devido ao fato de todos citadinos necessitarem adquirir os alimentos necessários à sua sobrevivência. Ao contrário de sistemas anteriores, por séculos e milênios passados, em nossa época os bilhões de pessoas que vivem nas cidades não produzem seus próprios alimentos. Essa equação, aliada à lógica gananciosa e usurária que marca a vida contemporânea, dificulta a tomada de decisões que são essenciais para conter essa crise.
Com algumas indagações, que o levam a iniciar a discussão sobre o problema da escassez de água, Laurence Smith é um daqueles que veem na falta de água uma ameaça para o futuro da humanidade. Em sua obra “O mundo em 2050”, ele dedica boa parte a essa discussão.
O que nos reserva o futuro? Nossa água está acabando, a exemplo do que acontecerá com o petróleo? Nos últimos 50 anos, dobramos nossas terras cultivadas irrigadas e triplicamos o consumo de água para atender à demanda global de alimentos. Nos próximos 50 anos, teremos de dobrar mais uma vez a produção de alimentos. Será que haverá água para tudo isso?i
Apesar de, diferentemente do petróleo, retornar à superfície por meio de um ciclo hidrológico que a renova permanentemente, a celeridade com que se dá o consumo esgota rapidamente a água superficial, ou mesmo os lençóis freáticos, o que levará inevitavelmente à escassez, ou ao estresse hídrico.
Mas há uma cegueira ideológica na identificação dos problemas, ou melhor, das causas que são geradoras de um consumo elevado e com intenso desperdício desse recurso. Como questiona Smith, até onde será possível ir a nossa capacidade de produzir alimentos para abastecer cidades com milhões, ou dezenas de milhões de habitantes? Mas não somente alimentos. Tudo o que se produz depende da água, na indústria, na construção, nos usos diversificados urbanos. 
Em um dos artigos que produzi aqui neste blog, e que tinha também a água como referência, abordei esse tema diante da grave situação que passa o bioma cerrado.ii Desta feita, embora ainda procurando reforçar esse problema, por ser este o bioma que concentra uma enorme quantidade de nascentes que formam as principais bacias brasileiras, vou dar mais amplitude ao tema. Embora não seja a primeira vez que faço isso. O fiz também quando a cidade de São Paulo correu um sério risco de desabastecimento, em decorrência da diminuição do volume de água do sistema Cantareira, conjunto de barragens que abastecem aquela cidade, por meio de dois outros textos.iii De lá para cá, o problema tem se agravado, muito embora no caso específico do Estado de São Paulo, o governo tenha iniciado um conjunto de obras visando a transposição do rio Paraíba do Sul. Só que são soluções que não atingem o problema da redução dos níveis de água, e gerarão outros efeitos colaterais. No caso deste rio a situação já está crítica em alguns pontos, de diminuição do volume de águas, em função da destruição de suas margensiv e da poluição que tem afetado a reprodução de diversas espécies de peixes, alguns já à beira da extinção.v
É correto agir para evitar desabastecimentos nas grandes cidades, em todas as aglomerações urbanas, obviamente, até porque constitucionalmente a prioridade do uso da água deve ser para atender as necessidades humanas. Mas a gestão que os governos aplicam quando a questão é a água, se limita somente a isso. E não de forma preventiva, com algumas exceções, mas as medidas são tomadas quase sempre quando o problema atinge o seu ponto crucial, de estresse ou de escassez hídrica.
É bom que se diga, antes de qualquer aprofundamento nas razões dessa crise, que o estresse hídrico ocorre quando há água, mesmo que em quantidade elevada, mas é insuficiente para atender a demanda, tanto do uso urbano, quanto na indústria e agropecuária.
Pode-se definir o estresse hídrico como resultado da relação entre o total de água utilizado anualmente e a diferença entre a pluviosidade e a evaporação (a água renovada) que ocorre em uma unidade territorial, em geral, definida por um país.vi
Já a escassez decorre pela absoluta falta de água numa determinada região, que pode vir a ocorrer também como consequência dos usos abusivos e da consequente diminuição do volume de água. Ou seja, o estresse hídrico pode vir a se transformar, futuramente, numa escassez crônica.
A escassez hídrica é uma das medidas de avaliação geográfica de uma unidade territorial. Ela pode ser física e econômica. Quando a quantidade disponível de água de um país não é suficiente para prover as necessidades de sua população, existe uma escassez física de água. Se um país não tem recursos financeiros para levar água de qualidade e em quantidade suficiente à sua população, apesar de ela ocorrer em seu território, a escassez é econômica.(idem)
Objetivamente pode-se encontrar resposta para as dificuldades de diversas regiões do mundo em ter acesso à água potável, seguindo-se o processo produtivo, os mecanismos que levam à produção industrial, à criação de gado e, principalmente à agricultura, com uso intensivo de irrigação, completamente fora de controle. Neste último caso, embora a irrigação seja um elemento essencial para garantir produção de alimentos suficiente para alimentar a população, a preços acessíveis, a ausência de fiscalização sobre os métodos adotados, muitos deles feitos de forma clandestina, tem sido um fator de destruição de importantes rios. Aqui no Brasil isso é nítido, é sabido, mas não é fiscalizado como deveria. E quando há fiscalização e multas os punidos não pagam, em função do poder exercido pelos grandes produtores rurais, absenteístas em sua maioria, latifundiários e que são responsáveis por produção em larga escala de monocultura.
Canal ilegal desvia água para irrigação
 - Rio Araguaia - G1
Recentemente no Estado de Goiás, como consequência de uma forte seca provocada por uma prolongada estiagem, e que teve como efeito colateral o esvaziamento de rios importantes para o abastecimento (veremos mais adiante que a seca é consequência, não causa), levou a intensificação da fiscalização em diversas bacias, como as bacias dos rios Meia Ponte e Araguaia, a fim de garantir o direito da água à população urbana, mas esse é um problema antigo, sem que haja punição aos que desviam água sem licença, ou quando a tem extrapola o limite do que lhe é permitido.
O que se vê, de forma impune, embora sobre investigação do Ministério Público, é uma série de irregularidades praticadas por grandes produtores rurais, com desvios de águas do rio Araguaia por meio de extensos canais.vii No entanto isso já ocorre há tempos, e mesmo na reportagem citada isso é dito como se fosse natural, pois há abertura de processos, a indicação de multas, mas esse setor consegue por meio de forte articulação política, concentrada numa bancada poderosa no Congresso Nacional, se livrar de qualquer punição. E seguem cometendo irregularidades no uso da água. Não são poucos os que assim o fazemviii, e, embora essas últimas ações estejam concentradas no Rio Araguaia, elas se estendem por todo o Estado de Goiás e por diversos outros estados brasileiros, levando destruição a rios importantes da hidrografia brasileira, e ressecando pequenos córregos e riachos também por meio de outras ações destrutivas.
Captação irregular de água
 do rio Meia Ponte - GO
Poderíamos listar aqui diversos outros casos de irregularidades na captação de água para irrigação, bem como o desperdício gerado pelo uso de velhos pivôs centrais. Na região de Cristalina, muito embora haja em algumas propriedades técnicas mais sofisticadas, com uso de tecnologias modernas que controlam a emissão de água e até mesmo o horário em que isso ocorre, elas compõem uma minoria. Soma-se a esses fatores a disputa entre irrigantes e investidores de Pequenas Centrais Elétricas (PCHs), bem como de obras mais suntuosas para geração de energias, barragens que prejudicam o curso normal das águas do rio São Marcos e de outros, e afetam também espécies da fauna fluvial, em alguns casos de forma irreversível.
Mas a discussão em torno do problema da escassez de água, bem como da seca gerada pela irregularidade além do natural, do ciclo das chuvas, se dá, a meu ver, de forma enviesada. Nada, no entanto, que não siga um roteiro pré-elaborado por quem controla setores que tem interesses na criação de uma opinião consensual, no caso mais em conta o “aquecimento global”, a fim de proceder a transformações na matriz energética e prosseguir na reestruturação do capitalismo.
As mudanças climáticas estão a ocorrer, naturalmente. E não há dúvida que a ação humana contribui para acentuar desequilíbrios e potencializar transformações que, pelo tempo, demorariam mais a ocorrer, ou não se dariam com a intensidade com que acontece. Portanto, as alterações climáticas são fato, acontecem, e a ação humana tem reflexo nisso.
Contudo, a dimensão que se dá ação humana tem mais a ver com questões da geopolítica do que com a climatologia, por exemplo. Mas seja por aí, ou pela física, oceanografia, geografia, ecologia, biologia… etc… etc… etc... Explico.
Pivôs ilegais captam água
do rio araguaia
É importante considerar que as duas questões estão ligadas. As discussões em torno da crise hídrica, bem como a que envolve as mudanças climáticas.
A insistência em centrar no consumo urbano o problema da água, ou de considerar que o aquecimento global se deve principalmente a efeitos colaterais da industrialização, esconde a essência do problema, as reais causas que estão deteriorando nossa qualidade de vida no Planeta Terra. O interesse em desviar o foco, ou em construir versões sobre as causas, tem o objetivo de amenizar as responsabilidades sobre a maneira como o sistema capitalista esgota nossos recursos, destrói a natureza e impacta perversamente no clima, principalmente nas regiões com altos índices de urbanização, como decorrência de um estilo de vida que implica em consumir além daquilo que o planeta pode oferecer para produzir mercadorias.
As interferências das atividades humanas no ciclo hidrológico ocorrem em todos os continentes e em muitos países. Os impactos dessa intervenção no ciclo variam para cada região ou continente. De modo geral esses impactos são:
a) construção de reservatórios para aumentar as reservas de água e impedir o escoamento;
b) uso excessivo de águas subterrâneas;
c) importação de água e transposição de águas entre bacias hidrográficas.ix
Complexo de represas em fazend
a na cidade de Inhumas
 - águas do meia ponte - O Popular
O que aponta Tundisi é o resultado desastroso de ações que são feitas sem a devida adoção de mecanismos protetivos, bem como ausência de planejamento para garantir que um bem imprescindível não corra o risco de se acabar. A gestão dos recursos hídricos somente acontece na contracorrente das necessidades. Ou seja, não estabelece a priori políticas que antevejam os riscos da escassez hídrica. As medidas somente são tomadas quando se está no limite da utilização da água, mormente em períodos de seca.
Inevitavelmente, esse descontrole afetará o ciclo hidrológico, que por sua vez implicará em desequilíbrios climáticos e oscilação acentuada de temperaturas. Na situação atual, de aquecimento sucessivo em algumas regiões, mas o efeito não é global, já que ele ocorre de forma diferente porque a própria distribuição da água é desigual no planeta e cria desequilíbrios naturais.
O fato é que há uma relação dialética entre a crise hídrica, as constantes mudanças climáticas, em um tempo mais acelerado que o normal e o intenso desenvolvimento capitalista. No entanto, é necessário ter a compreensão exata de quais são os elementos nesse processo que são responsáveis por esse desequilíbrio.
Mesmo que não houvesse mudança climática, o mundo continuaria enfrentando o declínio no abastecimento de água per capita por causa do desenvolvimento econômico e do crescimento da população. Mesmo que pudéssemos congelar o crescimento populacional, a modernização significa maior consumo de carne, bens acabados e energia; tudo isso eleva o consumo de água per capita. Contrariando a crença popular, o crescimento populacional e a industrialização representam ao suprimento de água global um desafio ainda maior do que a mudança climática.x
Ou seja, é exatamente as condições criadas por um modo de produção acentuadamente predatório, na medida em que constitui um estilo de vida consumista baseado no crescimento econômico concentrador, reprodutor de mercadorias em larga escala, bem como em uma urbanização acelerada, e que leva a necessidade de suprir populações concentradas aos milhões em centros urbanos, que torna difícil a solução dos problemas.
Desvio de água - Rio Descoberto
- You tube
Mas, tem sido mais difícil identificar essas soluções porque o foco dos possíveis motivos geradores desses desequilíbrios se concentram nas consequências, e não nas causas. E a forma como a grande mídia comercial trata esses problemas gera mais dificuldades na identificação das causas reais. Por um lado espetaculariza a informação e por outro não responsabiliza como deve os principais agentes causadores das condições que aceleram destruição de ecossistemas e biomas.xi
Volto a insistência como se trata do fenômeno que se tornou midiático, o “aquecimento global”. Ele (o discurso, e/ou a preocupação) surge por efeito da crise econômica e do deslocamento do centro produtor de mercadorias, e naturalmente, concentrador do dinheiro, dos Estados Unidos e Europa para a Ásia. Ao mesmo tempo, o crescimento de outras economias regionais, de menor porte, que foram colocadas na condição de, agora, serem responsáveis pela intensificação da emissão de gases gerados pelo forte desenvolvimento industrial e pelo uso de matrizes que potencialmente impactariam nos efeitos climáticos, gerando um aumento da temperatura em todo o globo.
Portanto, todo o discurso que há por trás dessa questão envolve elementos de geopolítica, e ao mesmo tempo, o que é cruel a meu ver, encobre as razões naturais tanto dos desequilíbrios climáticos regionais como da escassez e estresses hídricas. Porque visivelmente abrange interesses estratégicos, tanto econômicos como na disputa por recursos naturais.
Trocando em miúdos. O problema que se acentua gravemente no Brasil, mas que afeta também outras partes do mundo por diversos continentes, a deficiência hídrica, é causada por essa forma de desenvolvimento que destrói a natureza. E as medidas, ou repercussões dessa crise, só aparecem nos períodos em que ocorre ausências de precipitações pluviométricas.
Vou ficar no exemplo do Bioma Cerrado. Esse que já foi considerado por Guimarães Rosa como “a caixa d’água do Brasil”. E que de fato pode ser assim chamado, por ser por meio de suas nascentes, córregos e rios, que se formam algumas das principais bacias brasileiras. Mas, que sabemos, o problema não se resume a um único bioma, afeta os demais de forma diferente, pela especificidade em suas características geomorfológicas.
Ocorre que nos últimos anos houve uma intensificação acelerada da produção agrícola e criação de gado, impactando fortemente nesse Bioma. A redução do mesmo decorre da exploração predatória, baseada na grande produção de monocultura em propriedades latifundiárias que usam fartamente, por meio de grandes pivôs centrais, a irrigação como forma de aumentar suas produtividades. E o Estado é o financiador dessa situação, muito embora não o faça na mesma proporção, em termos de importância na cadeia de produção alimentar, com os pequenos produtores e com a agricultura familiar (que recebeu uma certa atenção na primeira década do século XX, mas que vê isso retroceder diante da crise que afetou o país e que levou à deposição da presidenta legitimamente eleita).
Mas além de citarmos a irrigação, é preciso identificar um problema anterior. O desmatamento, que destrói aceleradamente o Cerrado e leva ao fim, além de uma rica biodiversidade, as veredas, principais fontes de água, por cujas nascentes formam-se córregos e rios. Tanto o desmatamento, como o pisoteio do gado, são fatores destrutivos que vão reduzindo a capacidade de recarga e consequentemente tornarão córregos e rios de perenes a intermitentes. Registre-se que o Centro-Oeste é o maior produtor de gado bovino do Brasil, e somando-se com a região Norte, concentram mais da metade dessa produção. Justamente as regiões que atualmente mais são afetadas pelo desmatamento.xii
UHE_batalha - rio são marcos go-mg
É óbvio que a consequência disso será a diminuição do volume de águas que verterá para os principais rios que formam grandes bacias. Aliado a isso, as intervenções que são feitas para construção de barragens, seja para Pequenas Centrais Elétricas, ou para Grandes Centrais Elétricas, causam fortes impactos também sobre a fauna fluvial e gradativamente reduzindo o tamanho e a importância daquele rio. A destruição de suas margens, ou matas ciliares, consequência do desmatamento, da extração descontrolada de areia e em muitos casos devido a garimpos clandestinos, são outros fatores que transformam a paisagem por todo o percurso de montante à jusante e vão reduzindo o volume desses rios até que em alguns casos eles cheguem à sua foz na condição de um pequeno riacho.
Essas ações predatórias são as principais razões pela redução da capacidade hídrica de uma determinada região. E isso tem acontecido numa escala criminosa no Bioma Cerrado, a ponto de, pela primeira vez a capital federal, construída bem no coração desse bioma, passar pela primeira grande crise de escassez, levando a necessidade de rodízio na distribuição a fim de evitar uma situação mais drástica de absoluta falta de água para toda a capital federal.
Nascente do córrego Santa Clara
- Araguaína TO Assentamento Gurgueia
- Desvio de água por fazendeiro
Mas embora seja óbvio para os que estudam os problemas hídricos, inclusive da gestão, onde estão as origens dos problemas, os lobbies organizados que reforçam o poder dos grandes proprietários de terras, representados por uma forte bancada de parlamentares no Congresso Nacional, pressionam os governos para que isentem as dívidas daqueles produtores flagrados em ilicitudes na exploração da água. E, sob o argumento de que a produção de alimentos é uma necessidade para alimentação de uma população crescente, reivindicam mais investimentos para ampliar a área irrigada, sob o pretexto de que há ainda no Brasil um enorme potencial hídrico a ser explorado. O que pesa, na verdade, para além dos rumos que pode ir nossa capacidade hídrica, é a ganância e os lucros que são gerados para manter a opulência de uns poucos, que estão sempre protegidos desses infortúnios, já que a escassez de água afeta principalmente a população mais pobre.
Infelizmente, os governos dos Estados que compõem o bioma Cerrado, cometem desatinos quando desviam recursos que deveriam ser investidos na prevenção dessas irregularidades e punição de criminosos que não só destroem mananciais e fontes por onde nascem o líquido essencial à vida. Além de acobertarem, juntamente com uma justiça venal e uma incompetente Agência Nacional de Águas, as recorrentes irregularidades praticadas por grandes produtores, em muitos casos uma casta da qual eles próprios fazem parte. Banalisam a importância de cuidar bem dos recursos hídricos e estupidamente se escoram na ilusão de que a água é infinita.
Outro aspecto, de certa forma também de difícil solução, haja vista a incompetência dos gestores na administração pública, cujo foco é sempre a eleição seguinte, é a absoluta ausência de um planejamento adequado que identifique quais setores são estratégicos para a manutenção e fortalecimento do espaço vital seja nacional, ou regional. E no caso das grandes cidades, principalmente as capitais, as condições de crescimento levaram a uma absoluta inoperância na preocupação com o abastecimento de água na mesma proporção e aceleração com que se dava o crescimento populacional. Enquanto isso, nascentes eram aterradas, córregos transformavam-se em canais e a quase totalidade dos que cortam as zonas urbanas foram transformados em depósitos de descargas de dejetos de casas e indústrias, constituindo-se em verdadeiros esgotos a céu abertos. As águas que por ali circulam em tempos de grandes pluviosidades perdem-se na podridão e não são aproveitadas para consumo. Em tempos de seca o que prevalece são os líquidos que saem dos esgotos.
Esgoto no meia ponte
(Domício Gomes - O Popular)
No entorno das cidades, os cinturões verdes, de produção de hortifrutícolas, disputam boa parte dessa água e a usam para irrigação. Até aí se pode dizer ser um uso tolerado, na medida em que são produtores que abastecem as feiras e centrais que distribuem frutas e verduras essenciais em nossa alimentação. O problema é que não há fiscalização adequada, nem se busca usar de novas tecnologias para amenizar os gastos de água. Invariavelmente o poder público prefere grandes financiamentos para empreendimentos de produção para exportação, menosprezando a importância do pequeno produtor. Que de outra forma não consegue adequar seu sistema de irrigação às necessidades de controle do consumo de um recurso em absoluta escassez. Sem contar que alguns usam águas poluídas e produzem alimentos contaminados geradores de doenças para a população.
Mas, dessa forma, e sem o devido planejamento, a água que cruza as cidades são impróprias para o uso, e as que as circundam, ou mesmo que estão prestes a serem captadas pelos sistemas de abastecimentos, vão tendo o volume reduzido pelo uso que se faz dela para irrigação a montante. Só que essa é uma situação absolutamente previsível. Assim como é a previsibilidade de que após o período chuvoso, já que a água que escorre por esses mananciais torna-se imprópria para consumo e perde-se rapidamente nas vias impermeabilizadas, um novo período de seca, sempre com maior intensidade, virá para preocupar e gerar pânico e revolta entre as pessoas.
Rio Meia Ponte - Goiânia - O Popular
A alternativa encontrada por muitos, os que tem condições para isso, naturalmente, inclusive condomínios horizontais e empresas, é recorrer às empresas que instalam poços artesianos. Ora, como a cidade cresce acentuadamente, e se espalha por uma periferia cada vez mais distante do centro, o abastecimento de água demora a atender a essa crescente demanda. A retirada de água dos lençóis subterrâneos assume assim a condição de prover inúmeras residências do abastecimento necessário, obviamente. O que resulta disso? O aumento da retirada de água desses canais subterrâneos faz com que os mesmos se esgotem gradativamente, reduzam o volume dessas águas e forçando a que cada vez mais seja necessário aprofundar os poços para atingi-los. Ao mesmo tempo, isso vai afetar o processo de recarga de água e será também gerador do esgotamento de inúmeras nascentes, cujas águas desaparecem como decorrência da diminuição da quantidade que existem nesses lençóis e aquíferos.
E, para voltar a um tema espinhoso, que continuará por muito tempo gerando polêmica e repercussão, o “aquecimento global”, suponhamos que os céticos estejam errados, e, de fato se possa considerar essa expressão para se referir às transformações climáticas que acontecem no mundo. Não será, contudo, repito, por causa dos efeitos gerados pela industrialização, e consequentemente pela atual matriz energética, que esses desequilíbrios ocorrem. Mas pela destruição acelerada da natureza, pelo desmatamento em larga escala e a consequente destruição de nascentes, córregos, riachos e rios.xiii O maior perigo do mundo, inegavelmente, está na possibilidade de uma escassez geral da água, por não haver nenhuma alternativa para a humanidade com o fim de um líquido que é vital para a vida.
Canal clandestino de desvio de água
Não me parece que tudo que aqui escrevi seja novidade. Como já disse, eu mesmo já publiquei alguns artigos neste blog alertando para os problemas que advirão devido à incapacidade de lidar com o controle do uso da água. Acontece que, e aí termino da forma como comecei, sempre que a situação chega num ponto crônico em função do aumento do período de seca, soa o alarme, a mídia se alvoroça e confunde na explicação, cria um pânico que é natural, já que a falta de água é a pior coisa que existe para a vida. Aí temos alguns momentos de preocupação, e vemos as autoridades se debaterem com uma situação que não poderá ser resolvida no auge de uma escassez real.
O que estou a propor, portanto, é que devemos urgentemente encontrar o eixo correto para identificar as causas que estão nos levando por um caminho que pode tornar-se difícil de recompor o que se está a destruir. Claro que ainda é possível corrigir esses rumos, a ciência ajuda, com certeza. Mas é na gestão, no planejamento estatal e fiscalização severa, que devem se concentrar as principais correções.
Mas, de repente, vem a chuva! É como o soar dos sinos, alertando para um novo tempo. População, meios de comunicação (com exceções) e autoridades se quedam aliviados. Eis que a preocupação passa a ser a quantidade e a força com que cai a água, e as atenções agora voltam-se para aquelas populações, as mesmas vítimas principais da seca, que vivem em áreas de riscos e correm o perigo de serem arrastadas por enchentes causadas pelas péssimas condições da arquitetura das cidades. E boa parte desta água, como visto, não poderá ser aproveitada.
Enquanto a chuva cai, a água se esvai.
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NOTAS:
i SMITH, Laurence C. O Mundo em 2050: Como a demografia, a demanda de recursos naturais, a globalização, a mudança climática e a tecnologia moldarão o futuro. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. Pág. 71.
iv http://ranoticias.com/2017/10/29/o-paraiba-agoniza-pois-e-sangrado-em-varios-pontos-ate-chegar-onde-deveria-repousar/
vi RIBEIRO, Wagner Costa. Geografia Política da Água. São Paulo: Annablume Editora, 2008. Pág. 62.
vii https://g1.globo.com/goias/noticia/mpf-e-mp-entram-com-acao-para-proibir-que-fazendeiro-retire-agua-do-rio-araguaia-para-agricultura.ghtml
ix TUNDISI, José Galizia. Água no Século XXI: Enfrentando a escassez. São Carlos: RiMa, IIE, 2003. Pág. 14-15.
x SMITH, Laurence C. Op. Cit. Pág. 74
xi O que é um Ecossistema e um Bioma. Dicionário Ambiental. ((o))eco, Rio de Janeiro, jul. 2014. Disponível em: . Acesso em: XX (dia) xxx. (mês) XXXX (ano).

xiii https://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/nascente-de-corrego-seca-apos-desmatamento-e-povoado-fica-sem-agua.ghtml