segunda-feira, 21 de maio de 2018

SOBRE AS CARACTERÍSTICAS DO NAZISMO - O QUE EXPLICA HAVER "SOCIALISMO" NO NOME DO PARTIDO DE HITLER E AS CONFUSÕES DAS "FAKE NEWS"

Por: Romualdo Pessoa

- O Nazismo foi um movimento de Esquerda?
Negativo. De forma nenhuma. Quem tem alguma dúvida sobre isso desconhece por completo a história. A esquerda, principalmente os comunistas, foram os principais alvos de Hitler logo no começo de sua jornada para consolidar o poder que havia sido conquistado. Naquela época o movimento comunista estava em ascensão, assim como a social-democracia. A divergência entre esses dois segmentos terminou por abrir a possibilidade da ascensão de Hitler, na medida em que, em função de uma crise econômica terrível – consequência da grande depressão mundial da década de 1930 – a população alemã não se sentia protegida pelo governo. Numa situação dessas é normal que sempre surja alguém, ou algum grupo, com um discurso de ódio, duro, sectário e moralista. Assim fez Hitler, somando-se a uma capacidade de oratória que ele tinha. Mas o que garantiu a sua ascensão, além desse quadro político e econômico, foi também o fato de a burguesia não ter, naquele momento, outra opção. Assim o establishment do Estado alemão optou por entregar o poder a quem para eles seria mais confiável. Repito, num quadro em que a esquerda estava em ascensão motivada pela conquista e ampliação do poder na Rússia, então transformada em União Soviética. É bom que se diga que tão logo tomou um poder, e responsabilizar um indivíduo holandês, que seria do Partido Comunista, pelo incêndio do parlamento alemão, Hitler iniciou uma verdadeira caçada a todos os comunistas. Mas nunca houve prova de que isso tivesse sido uma articulação dos comunistas. No entanto, serviu de pretexto para dar início a uma ditadura e botar em prática os planos de Hitler da construção de uma nação de raça pura. Aliás, entre os que eram considerados de raça impura estavam os comunistas, negros, homossexuais, ciganos, pessoas com algum tipo de deficiência, portanto não somente os judeus.
Incêndio do Parlamento Alemão -
Reichstag (1933)
- Porque muitas pessoas na internet costumam espalhar essa informação?
Porque a principal característica das gerações atuais é o desconhecimento da história. Assim fica fácil plantar uma mentira, difundi-la repetidamente e esperar que uns tolos acreditem e compartilhem. Vivemos a época das “Fake News”. As redes sociais se tornaram canais de expressão de ignorância, intolerância e estupidez. Apegam-se ao fato da denominação do partido de Hitler.
- Por que o partido de Hitler tinha "socialismo" no nome?
Porque o socialismo estava em ascensão e o capitalismo em crise profunda, com a grande depressão. O socialismo conquistara corações e mentes nas enormes dimensões russas e na Europa, com o advento da Revolução Bolchevique, e também as próprias experiências em curso nos EUA, para tentar tirar o país da crise econômica, tinham no planejamento do estado socialista os melhores exemplos para isso. O Walfare State, que surge logo depois da guerra bebeu na fonte do socialismo. Agora a denominação do partido, como “Nacional-Socialista, dos trabalhadores alemães” era pura retórica. Da mesma maneira como vemos hoje aqui no Brasil partidos de direita e de centro-direita usarem o nome trabalhista e socialdemocrata. Suas políticas não são voltadas para os trabalhadores, embora suas retóricas enganem com denominações assim. Mas o que define as posições são as defesas de uma sociedade menos desigual econômica e socialmente, mais solidária e com distribuição de riquezas, de forma clara na sua aplicação e não somente no nome ou no discurso. Isso é o que diferencia “direita” de “esquerda”.
- Quais as características que definiam ou não o nazismo como direita ou esquerda?
O nazismo é um regime totalitário, que abomina a democracia e refuta a diversidade. Para as concepções nazistas o que faz as pessoas diferentes do padrão que eles consideram normais, constituem-se em deformidades que precisam ser extirpadas. É um regime que se propunha a atender a uma parcela minoritária da sociedade e a tratar os trabalhadores, principalmente aqueles de origem pobre, africana e asiática, como excrescência. No caso dos judeus haviam outros elementos, além daqueles que fizeram deles párias das sociedades desde a diáspora do mundo antigo por conta das questões religiosas. A Alemanha estava em crise, absolutamente falida e humilhada. A perseguição aos judeus, apesar dos argumentos utilizados que iam nessa direção da questão religiosa, se dava muito pela necessidade de pilhar aqueles que possuíam grandes riquezas. Os judeus eram pessoas bem sucedidas, em sua maioria, em uma sociedade absolutamente falida. Hitler saqueou praticamente toda a riqueza dos judeus e a incorporou ao Tesouro do Estado alemão. Mas, sempre, nazismo e comunismo se opuseram com profundas diferenças. Afirmar que o movimento comunista prega um Estado totalitário é também desconhecer a história desse movimento, que defende, sim, que num primeiro momento haja a conquista do Estado com a centralização do Poder, mas isso se dá pela necessidade de esse Estado atender ao que é essencial, distribuir a riqueza, diminuir as desigualdades sociais e caminhar para uma transição onde ele, o Estado, não seja mais necessário. Claro que ocorreram distorções e problemas nesse percurso, e erros foram cometidos levando a um fracasso nesse objetivo. Mas o nazismo é o oposto, assume a condição de um movimento avesso à democracia popular, menospreza pobres, trabalhadores e mulheres, e sempre teve o apoio da burguesia e das grandes empresas e corporações.
A maior batalha da 2ª Guerra se deu entre
alemães e soviéticos, em Salingrado.
- O que mais as pessoas precisam saber para que essa informação esteja clara?
Conhecer a História. As pessoas não estudam mais como antes. Submetem-se a leituras curtas e rápidas, sem dar importância às fontes, às origens daquelas notícias, não pesquisam para saber se o que está repetindo e compartilhando é verdade ou não e passam a assimilar mentiras como se fosse verdades. E aí, depois que assumem essa condição, de compartilhar inverdades, passa a acreditar fielmente naquilo. Assim seu cérebro vai sendo condicionado e suas posições assumem características radicais e intolerantes. Essa é uma situação que boa parte do mundo vive hoje, e que alguns chamam de “Pós-Verdade”, como sendo uma etapa posterior à “Pós-Modernidade”. A pós-verdade é aquele momento em que as pessoas, diante de condições socioeconômicas e políticas complicadas, e diante de crises inclusive identitárias, passam a ver somente diante de si uma realidade, aquela que ele construiu para si próprio a partir de leituras feitas sem embasamento e que se tornam crenças irredutíveis. Ele não consegue ouvir mais o contraditório, e passa a rejeitar qualquer outra explicação para aquele fato que ele crê como sendo a pura verdade. É um ambiente de intolerância.
Saber lidar com o conhecimento de forma a não ver uma opinião como definitiva, estar aberto para o contraditório, acreditar que as coisas podem ter mudanças positivas a partir do entendimento entre as partes, enfim, ser tolerante em suas posições, ajuda as pessoas a ter uma visão mais clara sobre a realidade. Mas, acima de tudo, olhar para o passado. As pessoas ficam procurando enxergar o futuro, quando ele sequer existe e sua possibilidade depende do presente. Só que a melhor maneira de aprendermos e evitarmos a repetição dos erros, ou pegar bons exemplos para seguir, é mirando-se no passado, conhecendo a história. Como dizia Eduardo Galeano, “A história é um profeta com o olhar voltado para trás. Pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será”.


(*) Íntegra da entrevista concedida ao à Jornalista Fernanda Kalaoun, do Jornal Diário de Aparecida.

GEOPOLÍTICA DO CERRADO: NATUREZA, POLÍTICA E ECONOMIA


GEOPOLÍTICA DO CERRADO - Participei da Reunião Regional da SBPC na úttima sexta-feira pela manhã. Uma boa discussão para analisar um complexo e contraditório problema: “Cerrado: Ciência, Inovação, Crescimento Econômico, Desenvolvimento Sustentável e Sociedade”. O evento, muito bem organizado, ocorreu no Instituto Federal Goiano, Campus de Rio Verde. Minha conferência teve como tema> GEOPOLÍTICA DO CERRADO: NATUREZA, POLÍTICA E ECONOMIA. Creio ter deixado mais dúvidas do que certezas. Mas é como estamos convivendo com essa contradição de nos depararmos com regiões próspera economicamente, com uma grande concentração de riqueza e com um desenvolvimento econômico em cidades pujantes cercadas por áreas produtivas onde antes era o Cerrado. Sem o equilíbrio ecológico, dependendo de fortes pulverizações de venenos para eliminar as pragas cujos predadores foram extintos, escasseando a água, mas dando a dimensão de uma realidade fugidia, que não se sustenta ambientalmente e pode trazer profundas complicações para as gerações futuras. A academia está desafiada a contribuir com os rumos dessa história. Abaixo segue um resumo do que apresentei em minha exposição. (Romualdo Pessoa)

Nos últimos anos o mundo se deparou com um desafio, muito além das preocupações malthusianas, mas que nos força a relembrar das teorias de Thomas Malthus.  A análise que indicava a impossibilidade da humanidade poder garantir produção de alimentos para uma população que crescia vertiginosamente, praticamente perde força quando passamos a conviver com a capacidade tecnológica que o mundo alcançou ao final do século XX, inclusive na possibilidade de produzir alimentos nas situações mais adversas. Técnicas de lidar com o solo, inovações tecnológicas que aceleram o ritmo do plantio e da colheita, insumos que aumentam a capacidade produtiva, e o crescimento da indústria química utilizada no combate às pragas (para o bem ou para o mal, veremos mais adiante), colocaram por terra boa parte das questões postas por Malthus.
Mas, por outro lado, há uma lógica que impede essa capacidade tecnológica de vir suprir a contento a necessidade que existe em quase todos os continentes, mas principalmente África e Ásia, de reduzir o número de indivíduos que vivem na mais absoluta miséria e com boa parte deles, principalmente crianças, morrendo de desnutrição. Não tem acesso aos alimentos básicos que possam garantir suas sobrevivências.
Essa lógica é a maneira como o capitalismo transforma toda essa capacidade tecnológica em potencial produtivo visando exclusivamente a ampliação dos lucros. Assim, existe sim, uma enorme potencialidade decorrente de todas as inovações que revolucionaram incessantemente os meios de produção, mas toda essa capacidade termina servindo aos interesses mais gananciosos de acumulação e concentração de rendas.
Produzir alimentos, principalmente as chamadas commodities, mercadorias que tem os seus preços fixados no mercado internacional tem atraído muitos investidores. Traduzindo em miúdos, são mercadorias, principalmente minerais e produtos agrícolas, com pouca ou nenhuma industrialização, consequentemente com baixíssima agregação de valor, permanentemente monitoradas pelas bolsas de valores.
Esses produtos agrícolas têm seus preços fixados em dólares em nível internacional, com uma produção de larga escala, como característica principal o fato de serem produzidos em grandes propriedades e quase sempre monoculturas. Seus preços são, portanto, variáveis não somente em função da cotação do dólar, moeda padrão de referência internacional, mas também porque termina também sendo submetidas às oscilações das bolsas de valores, e, consequentemente, estão sujeitas às manipulações tradicionais que ocorrem no mercado financeiro. O Brasil tem se destacado nesse setor, tornando-se a partir deste ano no maior produtor de Soja, superando os EUA. A soja, assim, soma-se ao café, suco de laranja, açúcar e carne bovina. ii
Obviamente, esses mecanismos que movem o sistema capitalista global, não possuem a menor preocupação em transformar toda a capacidade tecnológica em investimentos para conter o aumento da fome em várias partes do mundo, notadamente naquelas citadas. Em alguns lugares, como na região da Somália e todo o seu entorno, a situação aproxima-se de uma enorme catástrofe, com milhões de pessoas deslocando-se para outras regiões e boa parte delas sucumbindo à fome e perdendo suas vidas nesses trajetos.
Portanto, o interesse é meramente especulativo, com base na ganância e na garantia de lucros crescentes, como de resto é a maneira como o sistema funciona. Isso significa dizer que os investimentos possíveis de serem feitos obedecem à lógica do mercado mundial, e, portanto, a crise econômica pode alterar os rumos do capital.
Mas é sempre bom considerar que o mercado de alimentos é potencialmente lucrativo, ou, melhor dizendo, das commodities agrícolas, já não mais somente como produtos que visem atender apenas às necessidades alimentares da população, mas também porque boa parte deles passa a se constituir em matéria-prima para produção de energia, como no caso da cana-de-açúcar (embora o etanol não seja ainda uma commoditie, o açúcar o é), o milho e outros que podem passar também a serem produzidos com esse objetivo. Além de boa parte da produção de soja atender ao mercado de ração para alimentar o gado que em boa parte do mundo, principalmente Europa é criado em confinamento.
A crise econômica, que persiste na maior parte dos países, tende a ampliar a crise alimentar em algumas partes do mundo, mas a tendência deve se manter, de os investimentos continuarem sendo feitos naqueles produtos marcados como commodities porque são os que garantem mais divisas para os países como o Brasil e possibilitam maiores lucros a quem investe no mercado de produtos agrícolas. Mesmo que isso signifique uma crescente concentração de rendas, por serem produtos de baixo valor agregado. Para o Estado Brasileiro o que mais importa é o fato de essa atividade ser a principal responsável pelo superávit na balança comercial.
Como esse é um espaço com enorme potencial produtivo e com ainda uma área cultivável imensa a ser explorada, se for desconsiderado, como tem sido, a importância da biodiversidade, provavelmente poucas alterações acontecerão em relação ao crescente interesse pela aquisição de terras em áreas desse bioma, como também na Amazônia e na região de transição entre o Cerrado e a Caatinga. Essa nova fronteira agrícola já atende pelo nome de MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí, e Bahia), que tende a se acelerar quando a ferrovia Norte-Sul entrar em funcionamento.
A delineação desse quadro, já em curso, tem levado à aquisição de grandes quantidades de terras por empresas, e até mesmo governos estrangeiros, e passa a se constituir em um excelente investimento, principalmente em regiões de expansão agrícola como o Cerrado.iii
Consequentemente os impactos que decorrerão de tudo isso tende a ampliar o processo de degradação ambiental e de aceleração da devastação desse bioma. Por mais que as pesquisas desenvolvidas nas Universidades ou ONGs sérias focadas na enorme contradição presente da expressão “desenvolvimento sustentável com preservação ambiental”, possa indicar todo o rico potencial da biodiversidade do Cerrado, a resposta para investimentos e o quantitativo de lucro que advirá em atividades exploradas pelas populações tradicionais, não são suficientes para se contrapor a essa lógica gananciosa e destrutiva. Especulação, grilagem de terras e violência, tendem a aumentar, seguindo uma lógica perversa que afeta há décadas a população da Amazônia.
Cabe a todos aqueles que vivem no Cerrado e os que estudam sua riqueza natural e importância da sua biodiversidade, insistir em apontar os riscos que isso causa e a possibilidade de futuramente boa parte do bioma se tornar improdutiva e desertificada. O uso excessivo da água para irrigação, por exemplo, com a utilização de grandes pivôs centrais, a esgotarem rios, córregos e lençóis freáticos, é um bom exemplo dos desatinos que se cometem sem levar em conta os desgastes inevitáveis desses excessos, como por exemplo, a salinização do solo.
Acrescente-se a isso os interesses que estão por trás desse modelo de produção agrícola. Refiro-me agora às essas disputas exercidas por corporações gananciosas, e criminosas, que inundam o campo com produtos químicos responsáveis pela ampliação dos casos de câncer no Brasil e no mundo. São os agrotóxicos, venenos que eliminam pragas, mas que trazem junto um efeito perverso e profundamente destrutivo para as pessoas e todo o meio ambiente.iv Agora, que os representantes latifundiários tomaram o Congresso de assalto, já se discute a mudança da legislação para facilitar a comercialização desses venenos.v
Essas corporações, quase todas multinacionais, usam de todos os tipos de praticas deliquentes para burlar legislações e buscar apoio em setores políticos conservadores com o intuito de conter proibições – como ocorre em outros países – mesmo para certos produtos claramente comprovados como extremamente nocivos à vida humana. Calcula-se que cada brasileiro, em média, por ano consuma em torno de 5,2 litros de agrotóxicos, embora existam estudos que apontem para uma maior quantidade. vi
E essas Corporações atuam não somente na área de alimentos, como é de suas características, mas em outros setores geradores de disputas internacionais e guerras como o petróleo, indústria farmacêutica e de produtos veterinários. São gigantes que possuem fortes influências em poderosos Estados, principalmente os de suas origens, como os Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha etc. Muitas delas tem seus produtos também fabricados aqui no Brasil, como Basf, Bayer, Syngenta, DuPont e Monsanto.
Como defender o Cerrado em um tempo em que todos os olhares gananciosos e geopolíticos estão voltados para esses imensos chapadões de uma paisagem que dá uma impressão de pobreza, mas que esconde uma enorme riqueza? Se todas as transformações que são visíveis nos Estados centrais, ou do imenso sertão brasileiro, se deram às custas de grandes investimentos agrícolas, e com isso possibilitou um forte crescimento econômico, como frear nos dias de hoje a continuidade de um processo que se agigantou e ameaça a riqueza natural de um importante bioma?
Esse é um desafio que se apresenta para todos aqueles que são estudiosos do Cerrado, mas que compreendem também todo o processo de desenvolvimento socioeconômico de uma região até pouco tempo marginalizada. Um progresso também, notadamente conseguido à custa de uma enorme concentração de riqueza, como decorrência do modelo agrícola utilizado, que causou outros efeitos colaterais. Um deles, a expulsão de quase toda uma população rural para as cidades, potencializando um crescimento desordenado das mesmas e um cinturão de miséria em suas periferias responsáveis em grande parte pelo aumento da criminalidade e do consumo de drogas que destrói o futuro de boa parte da sua juventude e mantém as pessoas refém da violência e do medo.
Assim, são as condições criadas pela acelerada penetração em direção ao heartland brasileiro, desde a marcha para o Oeste na época varguista, até a instalação da capital federal, seccionando o território goiano, e todo o projeto de integração nacional visando o controle estratégico da grande Amazônia posto em prática por Juscelino Kubitscheck no final da década de 1950 e consolidada pelos governos da ditadura militar.
Mas foi mesmo a revolução tecnológica na agricultura o principal responsável pela transformação acelerada de um solo seco em terreno de ótimo potencial produtivo. Aliado à característica climática sem muitas alterações, dividida em duas estações, a seca e a chuvosa, propícia à atividade agrícola e à pecuária.
Desfazer essa visão do cerrado como meramente um território somente adequado à instalação do grande agronegócio, e buscar outros caminhos alternativos de desenvolvimento, que se preocupe com a conservação da biodiversidade e de outros modelos sustentáveis de produção agrícola, é a tarefa do momento da universidade, dos pesquisadores e de todos aqueles que lutam pela exploração democrática e não destrutiva das riquezas que a natureza possui, em benefício da maioria e em prol da construção de um mundo com outra compreensão a respeito da vida.

i Romualdo Pessoa Campos Filho. Professor do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG, Historiador, Doutor em Geografia, especialista em Geopolítica Contemporânea, Geopolítica da Biodiversidade, Geopolítica das Águas. Esse texto é um resumo, atualizado, de alguns artigos já publicados aqui no Blog.


terça-feira, 17 de abril de 2018

NÃO SE PODEM MATAR OS SONHOS. MAS OS ESTAMPIDOS DAS BALAS PODEM INCENDIAR A LUTA DE CLASSES.

(Resposta aos que nos tomam por tolos)
Nunca tive a vida focada em meu próprio umbigo. Sofri até chegar aonde cheguei, e aprendi a conhecer o mundo não somente com o que eu leio, mas com o que vivi. Sou Militante desde os anos 1980 e enfrentei nas ruas o ódio expresso nas armas empunhadas pelos agentes da repressão. Lutamos muito, até conseguirmos sair de um regime ditatorial, opressor que nos silenciava pela força. Sabíamos no contexto daquela luta, que em nossa sociedade prevalece nitidamente uma luta de classes, e no jogo do Poder há poucas chances para os que defendem outro modelo de sociedade, mais solidário e cooperativo, com menos desigualdades sociais.
Senti nos anos dos governos Lula e Dilma que uma ilusão estava sendo plantada aqui, e que não daria certo, da possibilidade de convivência de classe. Numa sociedade absurdamente desigual como a nossa, onde a riqueza foi construída em cima da miséria de uma maioria alienada e crente nas promessas divinas, a perversidade da elite se sobressai e não deixa margem para que haja um mínimo de avanço que melhore as desigualdades. Eu não me iludi com isso, mas estávamos contidos numa esperança. Isso se demonstra nos dias de hoje como impossível.
Os que ressoam os discursos reacionários e batem panelas de seus apartamentos chiques dos bairros nobres não são cegos, são bem vividos, se encontram num patamar de classe que os fazem ter os olhos bem abertos. A cegueira atinge os mais pobres, alienados, frágeis diante de diversos vírus que os impede de ver a realidade, em função da manipulação da informação a que são submetidos. Pessoas que compõem o escalão superior na pirâmide social sempre tiveram os olhos bem abertos, e a esperteza, para se escorar no hipócrita discurso do mérito sobre uma pobreza que vive submetida ao medo, ao poder, à violência das forças repressivas, e a uma cultura dominante que a escraviza. Eu sei o quanto essa justiça é seletiva, e sei que ela pode condenar quem ela quiser, sem provas, ou escolhendo os que serão exemplos para impedir que os de baixo tenham a ilusão de que conseguirão em algum momento mudar as coisas num país secularmente dominado por oportunistas, cafetões, coronéis e bandidos engravatados que se apropriam do Estado em busca de milhões de subsídios, mas que não aceitam uma miséria de uma centena de reais a ser pagos aos mais pobres.
Eu me contive por muito tempo. Respeitosamente, numa tentativa de convivência numa realidade que poderia ter outro caminho. Mas de agora em diante, as respostas serão num tom adequado ao nível de radicalização que se criou nessa sociedade, fruto da forma como a grande mídia golpista acentuou o maniqueísmo ao seu prazer, escolhendo quem ela considerava imputável, a ser condenado, por representar o perfil de uma população de miseráveis perigosos, que ousaram em algum momento ultrapassar a fronteira permitida entre a Casa Grande e a Senzala. Mesmo que tenha que jogar alguns dos seus na jaula dos leões. Eles são assim mesmo, além de covardes e desonestos, traem-se mutuamente.
Essa porcaria de triplex, nessa fraude que construíram, situado numa zona praiana decadente, não vale o preço da minha casa. E jamais seria uma residência para quem já possua uma idade avançada. Essa farsa não se sustenta na realidade dos fatos, a não ser em mentes doentias, de nababescos, bem situados, pervertidos, que temem o avanço dos mais pobres.
Mas isso vai mudar com o tempo, nada é para sempre. Tudo muda, no mundo. Essa troupe de reacionários precisam ser confrontados nos debates e assembleias, se é que terão coragem de aparecer, porque agora é preferível o debate tête-à-tête, como nos tempos em que enfrentávamos, sem medo, as forças da repressão. Podem vir para o debate, estaremos esperando os que queiram divergir. Mas é bom saber, eu tenho lado. E sei também que é sempre do lado que estou, da esquerda, dos indignados, que aumenta a cada vez mais o número de cadáveres, daqueles que são assinados por grupos que representam uma direita perversa e assaltante de nossos sonhos e de nossas riquezas. Aliás, já passou da hora dessa matemática ser refeita, e que possa vir uma reação a pelo menos empatar o número daqueles que são vítimas desse ódio de classe. Se é luta de classes, é preciso então que não haja somente a queda de corpos dos que defendem a liberdade, se opõem à opressão, e se colocam contra as desigualdades sociais. Basta de mártires, de mortes dos que ousam levantar as vozes contra as injustiças sociais, pelos direitos humanos e contra os “donos da terra” que secularmente assassinam os que lutam por seus direitos. Talvez tenhamos chegado ao limite da conciliação de classes, na tentativa de construir um estado justo e uma sociedade menos desigual. Como se diz no ditado popular, “a paciência tem limites”.
Nesses tempos estranhos o que falta também a muitos é estudar História. Há por demais os que estão precisando conhecer quais são os verdadeiros ladrões e vendilhões desse país. E que não se olhe para os políticos somente, eles são em sua maioria corrompíveis e corrompidos. Mas para a burguesia. Banqueiros, empresários e latifundiários, os corruptores, que construíram suas riquezas à custa da pilantragem institucionalizada, desde a época colonial. Muitos não entendem nada desse país. Ou melhor, entendem, mas sucumbem aos discursos hipócritas que escondem a realidade dos que saqueiam essa Nação. E esses saqueadores, que controlam os meios de comunicação de massas, conhecem a história, tal como eles contam, manipulando fatos e desconstruindo a realidade. Arrotam discursos moralistas, como se todos a ouvi-los fossem tolos, ou tivessem a mesma deficiência de neurônios que a si próprios. Esse país é uma zona, prostituída por uma elite perversa que recebe as benesses de um judiciário que vende sentenças e prima pela seletividade. Entramos numa rota de colisão. O erro de Lula foi ter se iludido com os canalhas da Casa Grande. Mas se cuidem, como canta Wilson das Neves, conhecido sambista carioca, falecido no ano passado, quando o morro descer, esse país vai ferver: “O dia em que o morro descer e não for carnaval, ninguém vai ficar pra assistir o desfile final, na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu, vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil (é a guerra civil)”.[1] Não irá demorar. Já está começando. Os muros altos dos condomínios fechados não será proteção. Quem viver verá. Mas, como diria Engels, não é que sejamos apaixonados por revolução, mas a classe dominante não deixa outra alternativa.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

GEOPOLÍTICA DA AMÉRICA LATINA


Íntegra da entrevista concedida ao Jornalista Renato Dias – DM. Publicada no dia 17/02/2018



A América Latina sofre, hoje, o esgotamento de um ciclo progressista? 
Não diria “esgotamento”, mas as políticas progressistas, mesmo que limitadas e ainda padecendo de alguns defeitos neoliberais, colocaram em xeque o velho poder tradicional, de uma oligarquia acostumada a dominar com o apoio dos EUA. Isso durou o tempo em que as ações das políticas externas estadunidenses estavam absorvidas em intensas guerras no Oriente Médio e na tentativa do isolamento da Rússia. Quando se percebeu que os países latino-americanos estavam seguindo por uma rota diferente, e por meio da liderança brasileira construindo uma alternativa na geopolítica mundial de deslocamento do poder estratégico, inclusive reforçando o poderio comercial pelo pacífico em direção à China, e incluindo a própria Rússia, as ações se voltaram para destruir os governos daqueles países que tem maior importância nessas relações políticas. As crises foram geradas por meio de ações políticas e infiltrações de agentes em manifestações, ao mesmo tempo em que grande mídia tradicional unificava seu discurso com o objetivo de desconstruir as mudanças que estavam em andamento. Como muitos desses governos administraram crises de Estado, e por ter que lidar com congressos parlamentares de maioria conservadora, terminaram por manter vícios na administração e na política. Foi por esse caminho, tradicionalmente trilhado por eles, que os conservadores deram um xeque mate na esquerda. O moralismo hipócrita, o discurso conservador religioso e a manipulação da mídia, terminou por apagar a euforia que existia na relação com a esquerda. Isso não significa esgotamento, mas uma nova etapa de um processo político que encontra sempre adversidades. Contudo, as dificuldades enfrentadas pela população, em razão de uma crise real consumir seus ganhos salariais, e á medida em que esse discurso conservador for sendo desmascarado a tendência é que haja uma retomada nessas políticas progressistas. Mas o momento, infelizmente, é de retrocesso.
Existem identidades entre as quedas de Manuel Zelaya, 2009, Honduras; Fernando Lugo, 2012, Paraguai; Dilma Rousseff, 2016, Brasil?
Sim, claro. Não há dúvidas, nem coincidências. A derrubada desses governos, bem como o desgaste imposto aos Kirchner na Argentina, fez parte de uma estratégia conservadora numa ação política para retomar o controle do poder na América Latina e botar nos governos desses países fantoches, elementos ligados aos interesses dos EUA.
O que explica a derrota do Kirchenerismo, após 13 anos de hegemonia, na Argentina?
Praticamente as mesmas razões que levaram ao definhamento do PT aqui no Brasil. Uma reação orquestrada, conforme já disse anteriormente, que passou inicialmente por uma forte campanha de desmoralização dessas forças políticas, e da esquerda em geral, por meio da intensificação na grande mídia de notícias negativas e de contrainformações com o objetivo de gerar fortes desgastes. Mais do que simples desgastes, as ações, coordenadas pela mídia, mas contando com o apoio de ONGs, órgãos do próprio Estado dominado por idéias e práticas conservadoras, e intensificada por um setor poderoso do judiciário quando viram que seus interesses corporativos estavam sendo ameaçados no Governo Dilma. Na Argentina o embate foi ainda mais prolongado, porque ainda houve uma sobrevida da Cristina Kirchner, que conseguiu suportar até locaute e intensas greves patrocinadas pelos setores “produtivos”, ou melhor dizendo, por aqueles que controlam os meios de produção.
A deposição das armas pelas Farc constituem uma estratégia correta?
A meu ver sim. Eles seriam dizimados diante de um quadro que lhes era absolutamente adverso. Principalmente com a crise que se intensificou na Venezuela e com todo o poderio bélico que foi investido pelos EUA na Colômbia. Na verdade, essa guerra servia aos interesses estratégicos estadunidense, porque através da política de combate ao tráfico de drogas, e da vinculação que foi dada dessa atividade com a guerrilha, as ações militares cumpriam outros objetivos, de através da Colômbia as ações de inteligência no combate às drogas servissem para desestabilizar os governos de esquerda.
Os EUA recomendam um golpe de Estado civil e militar, hoje, na Venezuela. Para depor Nicolás Maduro. Como analista da geopolítica mundial do século 21, o que o senhor tem a dizer?
Isso é um “deja vu”. Os EUA sempre agiram assim na relação com os países da América Latina cujos governos lhes eram e são hostis. É uma política imperialista, de envolvimento direto nos destinos de outras nações, ferindo frontalmente a autodeterminação de cada povo e de cada país. Essa é uma história cujas origens podem ser encontradas no século XIX. Pelo “Destino Manifesto”, de viés protestante-puritano, aquele país se designou como sendo o eleito por Deus para dominar as Américas, daí a célebre e malfadada frase: “A América para os americanos”. E, pouco depois, a política do “Big Stick” (o grande porrete), inserido na Doutrina Monroe, que tratava na ponta do porrete aqueles países que ousassem sair da “linha” e contrariassem os interesses estadunidenses. O que ocorre com a Venezuela já aconteceu com Cuba, com o Brasil, com o Panamá, com a Bolívia e com todos os países cujos governos adotassem uma política de alianças com inimigos estratégicos dos EUA. A guerra fria acabou, mas não essa forma dos EUA lidar com seus desafetos. Muito pelo contrário.
Raúl Castro deixa mesmo o poder, no mês de abril, em Cuba, para Miguel Díaz-Canel?
Acredito que sim, e acho que isso fez parte do acordo com os EUA durante o governo Obama, com a intermediação do Papa Francisco. Até mesmo pelo fato dele já estar bastante velho. Agora tudo depende da maneira como se dará a relação com os EUA. Com o Trump muito do que foi acordado entre os dois países está sendo desfeito. Porque sabemos que a política externa de Trump é isolacionista, e sua base de apoio é muito forte entre os anti-castristas que vivem naquele país. É possível que a saída dele sirva como um trunfo nas negociações para que o Bloqueio criminoso de cinco décadas seja extinto. Mas é preciso ainda ver como as coisas andarão nos EUA sob a batuta desafinada de Donald Trump.
Luiz Inácio Lula da Silva será preso e impedido de disputar as leições de 2018?
Veja, desde o começo dessa crise em que ficou bem claro a seletividade nas investigações de casos de corrupção que tenho dito que o objetivo é pegar o Lula. Quando falo em seletividade não me refiro somente a investigações aos que são do PT, mas aos que fizeram parte da base de apoio dos governos Lula e Dilma. Porque tudo que se está descobrindo agora, era prática corriqueira de décadas de política brasileira. As eleições aqui no Brasil sempre aconteceram contaminadas nessas relações entre empresas e financiamento de campanha. Foi assim que as oligarquias permaneceram no poder tanto tempo. Portanto isso tudo aconteceu nos governos anteriores, inclusive do PSDB, com FHC, que usou do mecanismo de compra de parlamentares para aprovar a reeleição. Ora, se o objetivo desde o começo é prender Lula, para que ele não retorne à presidência da República, e se por mais de dois anos repetidamente se acentua o desgaste numa lógica goelbesiana (uma mentira repetida por muitas vezes se passa por verdade), é evidente que isso deverá acontecer. Pode não acontecer caso o STF volte atrás na decisão de prender um investigado quando já houver uma condenação numa segunda instância judicial. Se isso não acontecer o Lula será preso. A menos que houvesse uma convulsão social e ações de desobediências civis coletiva. E isso não me parece que vai acontecer, porque o povo está anestesiado e muito cético em relação a política. Houve uma desconstrução perversa do que aconteceu de melhor no Brasil nos últimos anos e o pessimismo foi injetado no inconsciente da população. Pessimismo, aversão à política e intolerância com as diferenças. Nesse ambiente a sociedade está mais para a letargia do que para se levantar contra injustiças que se cometam contra um político que é tido, e isso é inegável, como a maior liderança política do país desde Getúlio Vargas. É claro que isso tem um tempo de validade, a desesperança leva ao desespero, e às insurgências sociais, basta pesquisar na história.
Qual a sua análise do cenário em Goiás?
Não é diferente do cenário brasileiro. E também segue uma onda conservadora. Para desespero daqueles que combateram a ditadura acabamos de ver um ex-governador biônico, base de apoio da ditadura militar, ser conduzido à condição de Secretário de Segurança Pública, isso mostra o nível do retrocesso e da mudança de foco de uma política de viés social para outra de caráter repressivo, porque é o que esse nome representou e representa. Veja também que o nome mais forte para candidato ao governo é de um elemento que comandou na década de 1980 uma associação de fazendeiros criada para eliminar lideranças sindicais rurais e camponeses que lutavam pela terra, a UDR. E faziam leilões para comprar armas com esse intuito, claramente definido e propagado. Uma candidatura que representa antigas oligarquias goianas, que se imaginava já estar soterrada com o tempo e as transformações políticas. Claro que o nome forte, porque o conservadorismo foi acionado pela campanha midiática contra os setores progressistas, não significa uma estrutura de partido forte, portanto não acredito que ele seja vitorioso. Até porque seu discurso radical de direita afasta políticos do Centro e tende a isolá-lo politicamente no transcorrer da disputa. Mas Goiás também tem uma característica de uma estrutura econômico-social fundada na exploração da terra, da grande propriedade latifundiária e do grande agronegócio, e isso por si só reforça o caráter conservador da sociedade. E culturalmente por todos os poros goianos essa tendência se manifesta e afeta até mesmo as camadas mais baixas da sociedade. Portanto, não acredito numa alternativa progressista como sendo vitoriosa nas próximas eleições aqui em Goiás, não há força política para isso, até mesmo em Goiânia que por diversas vezes elegeu prefeitos de esquerda. Essa tendência conservadora só não terá impacto maior se os partidos de esquerda conseguirem se unir em torno de uma candidatura que possa de fato competir visando chegar ao segundo turno. Se isso não for possível veremos uma disputa entre o candidato de centro-direita e um candidato de direita no segundo turno das eleições em Goiás, infelizmente.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

QUE SEJAM FELIZES OS DIAS QUE VIRÃO! VAMOS INVENTAR UM 2018, COM SOLIDARIEDADE, PAZ, TOLERÂNCIA, AMIZADE E AMOR!

Não sei o que dizer do que será. Resta-me analisar o que já não é mais. Assim, na reconstrução do passado, que me pode dar a compreensão dos erros e acertos do tempo que se foi, posso melhor inventar o meu futuro. 2018, e o que mais vier.
Repito aqui, os mesmos desejos de anos anteriores, pois eles são permanentes, apenas envelhecemos um ano a mais.
Seguramente uma das coisas boas em minha vida nesses últimos anos foi a força para criar e consolidar este Blog. Gramática do Mundo, como já disse, um nome quase emprestado do historiador francês, Fernand Braudel, que criou sua Gramática das Civilizações, representou para mim muito mais do que eu pretendia que se fosse inicialmente. Transformou-se em um fórum de debate bem provocativo, como sempre fui, e sou, em minha peculiaridade, mas sempre de maneira positiva e propositiva. Através desse estímulo pude reencontrar minhas forças. E, embora as marcas do passado não cicatrizem, aprendemos a conviver com elas, e com nossas dores. Às vezes, contraditoriamente, elas nos estimulam.
Em 2018, já completando 23 anos como professor na UFG, pretendo redefinir meus objetivos. Não necessariamente,  ano novo, vida nova. Até porque o tempo é contínuo, nós, seres humanos foi quem criamos uma lógica que se impôs pela religiosidade e foi adaptada pelos interesses consumistas sistêmicos. Já não vivemos numa universidade em que a experiência conta mais do que os arroubos juvenis. Hoje vale mais a fria imposição contabilista do novo produtivismo. Sou um péssimo competidor nesse ambiente que ajudei a construir, mas que se alenta com a fluidez, e com a rapidez que caracteriza esse tempo perverso e cada vez mais insensível e individualista. A Universidade é tão somente um reflexo disso. Os idealistas não tiveram forças suficientes para influenciar nessas transformações. Ou sucumbiram ou foram derrotados.
Dedicar-me ao blog é um alento, embora academicamente seja negligenciado. Como procurei afirmar no parágrafo anterior, pouco valem nossas idéias e posições firmadas a respeito de questões que nos envolvem cotidianamente. Nos é imposto a necessidade de sempre nos referenciarmos àquilo que já foi dito, vale, portanto, o argumento da autoridade, e cada vez menos a autoridade do argumento. Mas esse blog  cumpre um papel importante para mim, para além das preocupações meramente acadêmicas, e se transformou numa catarse a aliviar os meus tormentos, de fazer libertar do fundo da minha intimidade todas as angústias motivadas pela perda de minha filha, Ana Carolina. Através do Gramática do Mundo, e tentando ainda fragilmente seguir o lema da filosofia antiga, exposta inicialmente em um poema de Horácio, no século I, antes da Era Cristã, com a expressão Carpe Diem, não me preocupo em viver obcecado com o futuro, mas buscar a compreensão do presente, de forma a vivê-lo em toda a sua intensidade.
Essa máxima permanece a guiar as minhas atitudes e a maneira como concebo a vida, embora com uma concepção materialista. Sem jamais querer eliminar as minhas memórias, as lembranças, mesmo tristes, que me marcaram e me conduziram ao presente. Bloqueei por algum tempo lembranças trágicas da internação de minha filha, até o dia fatídico da sua morte. Mas, desde 2013, principalmente após a defesa de meu doutorado – talvez algo que eu ainda devesse a ela – recuperei essas imagens, mesmo que doídas, mas já conseguindo sentir a sua presença permanentemente ao meu lado, em nossos momentos de alegrias. Carregarei para sempre suas lembranças, mas não imaginem que para mim isso significa sofrimento. São saudades, repletas de amor.
Por isso essa minha mensagem de transição entre dois momentos simbólicos (2017 - 2018), construídos seguindo uma lógica que interessa ao consumismo capitalista, apesar da crise econômica no Brasil e no mundo, mas que inegavelmente também se constitui em um momento de confraternização, e de expiação de todos os nossos problemas, eu quis produzi-la aqui. Transformo, assim, todos os meus seguidores e eventuais leitores, em personagens de minha vida, com os quais estabeleço abertamente, por essa ferramenta espetacular que é a internet (muito embora sempre sob ameaça de controle), momentos de franca discussão ideológica e intelectual, bem como compartilho todos os meus sentimentos pela perda irreparável que me consumiu e me consumirá pelo resto da minha vida, mas que aprendi a conviver com ela, superar a dor e encarar a realidade. Também as dores da vida social são terríveis, convivemos com elas diariamente, direta ou indiretamente, e não podemos viver eternamente numa caverna a olhar infinitamente para dentro de si próprio, senão esquecemos como são as coisas por aí afora, no mundo real que nos cercam e nas quais estamos envolvidos.
Continuo recebendo, principalmente nas minhas postagens mais sofridas, nas datas que mais me lembram da Carol, mesmo dez anos depois de sua morte, mensagens de amigos e amigas, e até mesmos de pessoas anônimas para mim, que só conheço pelas redes sociais, e foram e têm sido fundamentais para a recomposição de meu caminho. São, seguramente, estímulos para a superação das adversidades e me ajudam a viver a vida como expressado na filosofia antiga, nessa loucura do mundo moderno.
Isso nos dá também a convicção de que a solidariedade só precisa ser praticada, porque muito embora tenhamos a sensação de que vivemos em um mundo cruel, as pessoas, em sua maioria, têm sim, sensibilidade e expressam ainda isso de várias formas. O velho altruísmo que salvou a espécie humana em épocas primitivas permanece, ainda que hibernado pelos tempos individualistas como resquícios do neoliberalismo, e do próprio capitalismo e de algumas religiões que fogem aos próprios valores que as constituíram. Mas em certos momentos esse altruísmo se manifesta e desperta o lado sensível dos indivíduos, homens e mulheres. Talvez nesses últimos anos, além dessa palavra, uma outra devesse ser mais analisada, e mais do que isso, o que ela representa devesse ser aplicado: alteridade. Em tempos marcados pela intolerância, resgatar o altruísmo e aplicar mais alteridades em nossas relações, certamente nos ajudará a construir uma força capaz de refazer nosso mundo. Não vai ser fácil.
2017 foi, mais uma vez, um ano de crise, desta feita marcado pelo crescimento do ódio e da intolerância na relação com o outro e com o desrespeito com as diferenças. Sempre envolto nas leituras geopolíticas, que me ajudam a interpretar o mundo, e a nossa situação específica, no caso do Brasil, segui repensando os comportamentos que me acompanharam por vários anos.  Por vezes um choque, uma tragédia, em nossas vidas, torna-se capaz de nos fazer parar para refletir. Tendo não mudar minha personalidade, diante das adversidades e das cargas negativas que nos cercam, alimentadas por uma mídia insana e oportunista.  Procuro sempre seguir sendo eu mesmo, um pouco melhor da minha “ranzizesse” privada, apesar de mais velho e agora tendo ultrapassado a barreira dos 60 anos. Sim, tornei-me neste 2017, sexagenário, com muito orgulho, prazer, dores, tristezas e alegrias. 

Todos nós temos nossos defeitos que cada um de nós possui e compõe a nossa personalidade, obviamente junto com as nossas qualidades. Mas adquiri uma capacidade maior de compreender os dramas e fragilidades da vida humana. Até pela acumulação de conhecimentos que busquei no estoicismo, somando-os à minha visão de mundo, baseada na dialética materialista e pela experiência adquirida da vida. 
Não sou partidário de princípios doutrinários, segundo os quais o sacrifício é um fator essencial para que o sentimento humano se realize. Não temos que, necessariamente, buscarmos o sofrimento a fim de termos nossos “pecados” expiados. Mas é inegável que ele nos trás um choque de uma realidade da qual não esperamos experimentar. Construímos nossos mundos (assim como nossos deuses) de acordo com o que queremos, e esquecemos que não podemos querer aquilo que é inusitado, ocasional. O inevitável, ou o imponderável, pode nos trazer surpresas para as quais não nos preparamos, e da fragilidade de uma vida aparentemente perfeita, desfazem-se sonhos e ilusões de futuros construídos quase que moldados por fantasias que nos são impostas por mecanismos exteriores à nossa vontade.
Converso com minha companheira, Celma, sob óticas diferentes de ver a vida. Ela, sempre otimista, construiu toda a sua resistência à tragédia que nos abateu, buscando espiritualmente forças que traduzisse sentimentos de solidariedade e de um pensar positivo que vê ao longe, além do momento em que estamos, e constrói positivamente um futuro de esperança. Assim ela vai lidando com os projetos que o Instituto Ana Carol tem construído e, principalmente o que já se tornou uma realidade consistente, a BORDANA, Cooperativa de Bordadeiras a consolidar essas certezas construídas com o olhar para adiante.
Não tento desconstruir os sonhos, mas parto de outra perspectiva. A de que o que imaginamos ser a construção de um futuro nada mais é do que a realização do presente. Dialeticamente, ele vai sendo tecido, e termina por concretizar algo que foi pensado. Mas o que seria desse “futuro” se no presente não tivéssemos construído as bases das mudanças? Ademais, não há futuro, pois o que idealizamos como sendo isso, ao imaginarmos tê-lo construído, ele já se torna presente. E, como o tempo não para, em frações de segundos já se torna passado.
Digo isso para afirmar que são as realizações do presente que possibilitam aos nossos pensamentos se concretizarem. Contudo, nada do que se constrói hoje, ou do que se imagina construir, está livre do acaso. Mas, como não podemos ficar pensando no acaso, assim como não faz sentido a obsessão pela morte, devemos pensar sempre em viver toda a intensidade do presente. Abstraindo o egoísmo e o individualismo, logicamente. Afinal, a nossa vida não se realiza isoladamente. E, principalmente, procurarmos viver cultivando a honestidade e a solidariedade.
Assim, 2018 se construirá a cada dia. Por isso, a mensagem que quero passar é a de que cada ano novo só se completa em seu final, até lá ele simplesmente é a somatória de dias, semanas e meses. E cada um de seus dias, deve ser vivido em seu tempo, na duração que lhe foi dada por essa espetacular e indecifrável condição que adjetivamos como vida. E, ao final, ele soma-se à nossa própria história.
Então, não nos basta pensar no ano de 2018. E sim na construção dele, a partir da vivência ativa e intensiva de cada dia, separadamente. Viver um dia por vez, ao invés de nos perdermos em angústias e desesperos do que fazer depois de amanhã. Isso parece óbvio, mas estranhamente não é visto dessa maneira.
Mas alguns dirão que isso é utopia. Que é ilusão se imaginar preso apenas ao que acontecerá a cada dia, na medida em que isso acarreta um efeito em sequência e, seguindo a própria lógica da vida, impõe naturalmente o pensamento no que se seguirá.
Isso também é verdade. Mas aí reside a beleza, a incógnita e o segredo da dialética. A vida em sua mais perfeita contradição. Pela qual não conseguimos jamais compreendê-la por completo, nem vivê-la a cada momento. Pois que ela nada mais é do que uma tridimensionalidade que nos cerca: vivemos o presente, a partir de coisas que construímos do passado e que seguiremos levando adiante, naquilo que se traduz como o futuro.
Que 2018 seja assim, então, para cada um de nós. Cheio de saúde, alegria, amor, amizade, tolerância e fraternidade. Que a solidariedade jamais deixe de estar conosco cotidianamente, por mais que tenhamos em nossas ideologias o sentimento de que tudo que está aí deve ser mudado na construção de um mundo novo.
Tudo bem. Mas as pessoas que vivem a sofrer, por uma condição de sujeição à lógica irracional deste mundo, têm direito a superar seus sofrimentos. Não devemos esperar as pessoas morrerem na miséria para tomar isso como exemplo de que o sistema é injusto. Devemos condená-lo, mas salvando as pessoas... e não somente as matas, as árvores, os animais. Somos nós, seres humanos, que damos sentido a este mundo. Embora contraditoriamente sejamos nós também os responsáveis pela aceleração de sua destruição. Enfim, devemos lutar pela vida. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás” (Che).
Que 2018 possa nos inspirar tudo isso, mas não vai ser fácil, diante dos momentos complexos e carregados de ódio que vivemos. Mas temos que lutar pela construção de um novo mundo a partir de nossos próprios exemplos. Que não nos limitemos à crítica, pela crítica, mas que apresentemos alternativas concretas para seja realizado o sonho das pessoas viverem seus presentes com dignidade. E façamos isso também com nós mesmos. Que consigamos viver intensamente cada dia, cada momento, e nos coloquemos um desafio: de a cada dia que conseguirmos superar, aumentar o número de amigos e amigas que nos cercam. E os entendamos em suas peculiaridades, em suas diferenças e os respeitemos assim, sem necessariamente compactuar com comportamentos agressivos, intolerantes, preconceituosos. Isso desfaz amizades, são inaceitáveis, ignora a alteridade, destrói-se o altruísmo e brutaliza as relações humanas. São comportamentos que devem ser combatidos, a fim de construirmos um mundo novo. Sim, acredito que um outro mundo é possível.
Certamente os desafios que temos pela frente não são fáceis. O novo ano não será fruto do que imaginávamos construir positivamente em 2017 e no ano anterior. Algumas coisas, necessárias para isso, fugiram do nosso controle e se perderam em meio á perversão de um governo insensível, corrupto e focado nos interesses dos mais ricos. Mas devemos lutar, sempre, acreditando que a vida pode ser vivida de forma plena, sem esquecer que não vivemos sós e que os muros não nos protegem, simplesmente escondem uma realidade que nos oprime, que precisa mudar, mas da qual é impossível fugir.
Essa vontade de lutar, que, particularmente, pude recompor nos últimos anos, deve estar imbuída do sentimento de que a transformação deve ser coletiva. Pensar somente em mim, não vai ajudar a construir o mundo melhor e mais solidário. Meu tempo de vida não é longo, o de nenhum de nós é, comparando-se ao tempo da história humana, e mais do que isso, se compararmos ao tempo de existência da terra. Portanto, se temos que lutar por algo que valha a pena, que isso se traduza em uma conquista que seja plena para a humanidade. Ao contrário do que se possa pensar, e é assim que vejo, isso não se contradiz com o lema que sugeri lá atrás. Carpe Diem! Significa que devemos aproveitar o momento, confiar o mínimo possível no amanhã, mas o que proponho na junção desses dois desejos é, ao mesmo tempo em que lutamos por um mundo melhor, viver a vida com serenidade, desprendimento, vivacidade, respeito, honestidade e compreensão. Se queremos aproveitar cada momento, podemos também plantar sementes daquilo que imaginamos ser o melhor, para cada um de nós, individualmente, e para todos e todas coletivamente.
Quem sabe assim atingiremos nosso objetivo de inventar um 2018 que corresponda ao que desejamos. Mas, além disso, construir um futuro que possa refletir o presente que idealizamos.
E o façamos tornar-se realidade.
Feliz 2018!! Um brinde à construção de um mundo novo. “Sonhos, acredite neles, com a condição de realizar escrupulosamente a nossa fantasia” (Lenin).
Carpe Diem!


“Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati. seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam, quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero”.
“Tu não procures - não é lícito saber - qual sorte a mim qual a ti os deuses tenham dado, Leuconoe, e as cabalas babiloneses não investigues. Quão melhor é viver aquilo que será, sejam muitos os invernos que Júpiter te atribuiu, ou seja o último este, que contra a rocha extenua o Tirreno: sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança, pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã”.
 "Odes" (I,, 11.8) do poeta romano Horácio (65 - 8 AC) 




(*) A idéia central desse texto eu construí no final de 2011. Adaptei-o já por diversas vezes em algumas partes, e o faço mais uma vez para torná-lo atual a mais um momento de transição em nossas vidas. Um feliz ano novo aos leitores e leitoras do blog Gramática do Mundo e aos meus amigos e amigas do Facebook. Que possamos continuar lutando pela construção de um mundo melhor.  E que em 2018 possamos avançar muito nessa direção. Um forte abraço.