quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A ESPERANÇA EQUILIBRISTA – BRASIL, DA EUFORIA AO CAOS E À INCERTEZA – ÚLTIMA PARTE

Essa pretende ser a última parte de uma análise que comecei a fazer sobre a realidade política brasileira, mas que tinha como objetivo chegar a uma conclusão em um único artigo. Impossível. Assim como também será fechar essa avaliação nesta parte.
É chavão dizer que a política é dinâmica. Na verdade tudo é. A vida é movimento, e todas as ações que desenvolvemos são marcadas, cada vez mais por uma intensidade no conteúdo, pela radicalidade na forma e pelo encurtamento do tempo para suas realizações. A rapidez é a marca da contemporaneidade, mas o dinamismo é uma característica natural do nosso desenvolvimento enquanto espécie humana, e, mais do que isso, enquanto parte da própria natureza. Num mundo dominado pela tecnologia e pela profusão de objetos, é natural que o nosso tempo seja insuficiente para lidar com todas essas transformações.[1]
Isso se incorpora em nosso cotidiano. A política é um reflexo das nossas relações em sociedade. E, porquanto ela carrega fortemente a perspectiva do Poder, eleva a um patamar diferenciado as formas disseminadas na sociedade com um elemento crucial: a estratégia. Embora nos dias de hoje seja fundamental ter noções de estratégia, em qualquer situação, é na política, e na guerra – quando os elementos da política se esgotam – que o tabuleiro de xadrez requer uma competência diferenciada para lidar com as contradições que cercam um ambiente de constante disputa.
Eu não tenho muito a acrescentar a um artigo que escrevi em 2016, aqui neste Blog, em que analiso a crise brasileira inserindo-a numa realidade mais ampla, em parte como consequência da crise mundial.[2] Na época tudo se encaminhava para o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Parecia inevitável, e foi. Hoje podemos olhar para o passado, analisarmos o que escrevemos e fazer uma somatória de todos os elementos que projetamos e daqueles que se consolidaram com o passar do tempo.
A crise política brasileira, que levou a destituição de uma presidenta não tem a ver com a “crise fiscal”. Era natural que o afastamento de Dilma Rousseff ampliaria os problemas. Os déficits fiscais, ou as fragilidades nas contas públicas, foram meros pretextos para se assentar um golpe que tinha com objetivo a correção de rumos no Brasil e a proteção de poderosos grupos da política que se acostumaram a roubar os cofres públicos e a construir fortunas e consolidar poderes regionais a partir dessas práticas. Há muita complexidade por trás desses acontecimentos. E numa sociedade marcada pela alienação em relação à política, e com uma geração que se perde em um mundo virtual construindo realidades em outras dimensões, o despertar para o mundo real às vezes age como numa crise de labirintite, com tudo girando aceleradamente podendo levar ao desfalecimento. O que é a absoluta ausência da realidade.
A sociedade reagiu assim. A juventude, que em 2013 bradava nas ruas contra o aumento das passagens dos coletivos e por passe livre estudantil, de repente se viu em meio à outras demandas na política e tiveram seus desejos sequestrados. A alienação, por trás de uma pretensa combatividade revolucionária, aliás uma tendência natural na juventude, não permitiu que se tivesse a percepção dos rumos. Os meios de comunicação de massa, de imediato entraram em campo, conduziram a multidão numa direção que era conveniente com o que já se fazia em outras partes do mundo. Nas sombras agiam grupos organizados, financiados por agências de espionagem, ONGs estrangeiras e até mesmo empresas de grandes investidores, como Georges Soros, bilionário que enriquece cada vez mais à custa da desestabilização de governos que trazem como consequência a desvalorização de ações de empresas nacionais desses países que veem a economia e a política instáveis. Para os ajudarem na especulação e nas ações rapaces entram em campo as agências de classificação de riscos: Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s. Todas elas envolvidas em manipulação de informações no interesse de grandes corporações.[3]
Outras demandas, de interesses de setores corporativos, mas que coincidiam com objetivos que já estavam sendo preparados para atingir o governo brasileiro, ou a estrutura corrompida sabidamente existente, mas nunca fiscalizada e punida, foram incorporadas às manifestações, sem que a maior parte daqueles que estivesse nas ruas soubesse, de fato, por que estava lutando. O maior exemplo disso foi a execração da PEC-37,[4] na época das Jornadas de Junho em discussão na Câmara dos Deputados, que limitava às polícias o poder de investigação dos crimes cometidos, restringindo o poder do Ministério Público, que se limitaria às acusações.
Seguindo um roteiro previsto, já conhecido pelos fatos ocorridos em diversos países que desde quando a crise econômica se tornou visível para o mundo levou multidões para as ruas, que geraram desestabilizações em diversos governos e em alguns casos até mesmo guerras civis e assassinatos de governantes, as “jornadas de junho” se constituíram na oportunidade para que o país se transformasse no “inferno”. Mas haviam muitas brechas para que isso acontecesse e a incapacidade da esquerda de perceber o que estava acontecendo no mundo e que batia à nossa porta, desguarnecida e fragilizada, sob um aparente manto de avanços na economia, de ações na infraestrutura, de programas sociais elogiados no mundo todo. Se havia uma multidão vagando pela rua, como na figuração dada por José Saramago em “Ensaio sobre a Cegueira”, certamente alguns dirigentes políticos que comandavam o governo também se perdiam em meio ao deslumbramento do que acreditavam estarem fazendo de “mudanças”.
As chamadas jornadas de junho, em 2013, representou o começo do fim de uma era, de governos de esquerda que tentaram fazer algo de diferente, mas se perderam em meio à práticas políticas arcaicas, corruptas e comandadas por uma oligarquia ferozmente gananciosa e usurária. O que viria a seguir, numa desconstrução da política e de ações que mudaram a feição do país, teve nas eleições de 2014 o golpe fatal. Mas toda a desestruturação do governo, da economia, da política, da democracia e do país, se deveu não somente aos erros da esquerda, mas também aos seus acertos, às propostas de inclusão social de camadas marginalizadas e à tentativa de botar o Estado como condutor de políticas econômicas que visassem pagar uma dívida histórica com esses setores. Como afirmado no artigo anterior faltou a necessária compreensão que a luta de classes sempre conduz as disputas no âmbito da política. E por ações de interesses externos nos vimos mergulhados nos intestinos de uma estrutura política viciada. Como nos momentos de nossa história em que governos populares ousaram mudar seus focos, a corrupção, doença endêmica na estrutura social brasileira, tornou-se a arma pela qual os setores de direita se serviram para implodir a base política do governo e abriu caminho para a destituição da presidenta.
Mas isso se tornou possível porque faltou tomar medidas necessárias para alterar a forma de fazer política. A reforma eleitoral, a reforma do sistema político, a atuação da agência de informação para monitorar ilícitos no âmbito do Estado, além da ação da Controladoria Geral da União, e uma aproximação com o povo mediante a criação de mecanismos de participação popular, que reforçasse inclusive a própria defesa do governo. Essas ações não foram desenvolvidas, ao contrário se repetiram práticas sobejamente combatidas de uso abusivo de dinheiro público para financiamento de campanha, mediante a existência de caixas 2, e o loteamento de setores importantes do estado, principalmente alguns de valores estratégicos imensuráveis, como os de energia, transporte e comunicação, para agregar grupos políticos comandados por velhas raposas rapaces, espécies de coronéis políticos regionais, na quase unanimidade pouco merecedores de confiança. Todos eles carregando em si a essência de serem escorpiões na política.
Optou-se por garantir o poder a qualquer custo, numa disputa que envolveu, do outro lado, o que poderia ser na oposição um oponente qualificado, a social-democracia tucana. Por aspectos conjunturais da política passamos a ter uma esquerda aliada a segmentos oportunistas e conservadores para manter o poder, e uma social-democracia que se aliara à direita e confundia-se muitas vezes com a própria, pela postura virulenta de caráter absolutamente reacionário. A política brasileira caminhou visivelmente para a direita, por todos os flancos. E, como o ambiente em outras partes do mundo já espalhara o vírus da intolerância e do sectarismo político, pela intensidade da crise que se disseminava e perdia perspectivas de ser solucionada, não encontrou dificuldade de transformar a realidade brasileira, de uma euforia que ia além de nossas fronteiras, para um caos que mergulhou o país na estupidez, na intolerância, no comportamento fascista de grupos sectários e no medo, um sentimento tradicional a projetar os piores indivíduos ao longo da história humana.
A verdadeira caçada que se transformou a “Operação Lava Jato”, que desde o começo teve como objetivo atingir o ex-presidente Lula da Silva encontraria facilmente atos corruptos, e roubo do dinheiro público por onde investigasse, nas estruturas do Estado.[5] Os atos que se combatem agora, tornaram-se crônicos na estrutura política brasileira e se espalha pela sociedade como um caldo de cultura. No âmbito da política sempre existiu e era ignorado pela Justiça, pelos tribunais eleitorais dos estados e pelo TSE. Só passou a ser objeto intenso de correção, e de prisão de corruptos e corruptores, quando se viu a possibilidade do retorno de Lula da Silva e a continuidade por outros tantos anos dos grupos ligados à esquerda, notadamente ao Partido dos Trabalhadores.
Malgrado essa questão, e ela é óbvia a menos que não se queira enxergar a realidade, houve um erro inequívoco e que deve ser assumido pela esquerda. Sabe-se que a estrutura do estado capitalista é corrupta, por essência. A própria lógica que move a sociedade nesse regime aponta nessa direção para aqueles que anseiam ter Poder: a ganância, a usura e o individualismo. A esquerda sempre teve uma posição avessa a esse comportamento, por tanto tempo combatido enquanto oposição. Era inadmissível que persistisse uma prática que sempre foi criticada quando estivesse à frente do Estado. Até pelo próprio conhecimento de nossa história, quando os conservadores usaram do discurso, hipócrita, de combate à corrupção, meramente para destituir governos que estavam adotando medidas populares, já se saberia que em algum momento isso também se voltaria nos tempos atuais. Mas não só por isso, como também pela necessidade de inspirar nas pessoas confiança em uma nova forma de governar, que se coadunasse com o discurso apresentado pelos partidos de esquerda para combater grupos que por décadas se beneficiavam da estrutura do Estado e se fortaleciam à custa do empobrecimento de seu povo. Caia-se na mesma armadilha que derrubara Getúlio Vargas, ameaçara Juscelino Kubitscheck e destruiu o governo de João Goulart por meio do golpe que nos legou uma ditadura militar.
Já analisei aqui em outros artigos, e pontuei ainda neste também, os interesses externos que existiam na desestabilização do governo da presidenta Dilma Roussef, para conter novos governos de esquerda e atingir os países que buscavam construir uma nova hegemonia geopolítica, no caso, os BRICS.[6] A incapacidade de se fazer uma leitura e se prevenir para o que viria após as jornadas de junho, somou-se à insistência em fazer da prática política o jogo dos setores conservadores, distanciado do povo e sustentado em ações de marketing pagas a peso de ouro. Por esse caminho a oposição conservadora, de forma oportunista, se escorou para desestabilizar o país e golpear de morte uma aposta que se fazia na transformação do Brasil e na elevação à condição de grande potência mundial, que pudesse trazer equilíbrio social e distribuição de rendas. 
Mas, depois da derrota em 2014 esses setores que não tinham mais nada a perder na política, temiam perder na economia caso viesse pela frente uma nova eleição de Lula da Silva e o temor que desta feita algumas reformas profundas pudesse acontecer. Não seria como se parecia, pelas próprias características já demonstradas no jeito de governar de Lula, mas existiam muito mais questões complexas que não somente essas aqui postas, que incendiavam a oposição em sua radicalidade destrutiva da política e da democracia: as novas estratégias adotadas pelas classes dominantes, no âmbito do sistema capitalista mundial.[7] Um sistema em crise, que busca se reestruturar e que não tem pudor em destruir a democracia, caso haja uma ameaça visível aos seus interesses, não propriamente local, mas nacional, comandados pelas grandes corporações e por Estados-Nação belicistas.
Esses equívocos na forma de manter o poder e a submissão a uma casta de políticos que sempre estiveram ao lado daqueles grupos que estão no poder, em quaisquer circunstâncias, embora sendo uma contingência em governos de coalizão e como consequência de uma diminuta força da esquerda no Congresso Nacional, macularam a imagem da esquerda, potencializado pela forma como a mídia passou a retratar essa relação e com as seguidas denúncias das corrupções que irromperam de forma dura no imaginário do povo brasileiro. Levantar-se dessa derrocada não será fácil, e só será possível com a unidade em torno de objetivos que possam atender à demanda da população pobre, resgatar a confiança da classe média e ter coragem de enfrentar uma realidade de uma crise que vai para muito além do Estado brasileiro.
Retomar a força daquilo que foi construído ao longo de uma década não acontecerá em curto tempo, e dependerá de mais do que força para derrotar a base política permissiva montada por ex-aliados e o ex-vice-presidente, juntamente com toda a casta oportunista e corrupta que lhe cerca. Será preciso um novo tipo de protagonismo das forças de esquerda e uma necessária aproximação com segmentos de centro-esquerda que se oponham abertamente às medidas neoliberais e aos comportamentos reacionários e intolerantes que vicejam na política e contaminam a sociedade. É necessário resgatar a crença de que a política não pode ser retratada pelo perfil de sicofantas e corruptos que abominam e causam náuseas às pessoas honestas que labutam incessantemente para sobreviverem em meio à realidade adversa.
É necessário olhar para o mundo, e ver aqui no Brasil o reflexo da desordem mundial que intensificam os conflitos e ampliam as guerras, atendendo interesses belicistas e hegemônicos do império estadunidense e de seus aliados. Mas também que outra estratégia tem sido colocada em curso, como aqui em nosso país, e agido com eficácia na desestabilização de diversos governos por meio de ações de agentes que se infiltram em empresas e principalmente em ONGs, financiadas por organizações similares nos EUA, institutos e megainvestidores do sistema financeiro. Tudo isso tem sido fartamente demonstrado em diversos trabalhos de jornalistas e cientistas sociais, com destaque para as duas publicações de Moniz Bandeira, recheada de informações e comprovações de como essas ações se realizam.[8]
Mais do que tudo isso, é dever dessa esquerda renovada encarar com vigor a luta ideológica, e fazer as pessoas compreenderem que vivem em um sistema repleto de contradições, que perpetua a desigualdade e amplia o fosso entre os ricos e os pobres de forma crescente e cada vez mais intensa com a continuidade e profundidade da crise econômica sistêmica. Não é possível, depois de tudo que atingiu o Brasil, tentar passar uma ideia de que é possível retomar o caminho de um desenvolvimento sustentável em vias de reduzir as desigualdades, sem o forte protagonismo do Estado, mas deixando bem claro em quais condições isso pode ser possível. Mediante um embate ferrenho com uma classe dominante perversa que adota um comportamento insensível diante das dificuldades do povo. As medidas que estão sendo adotadas pelo governo de Michel Temer, isentando ricos de pagarem dívidas milionárias e impondo dificuldades aos trabalhadores é uma demonstração clara de qual é o foco desses segmentos, senão fortalecerem e ampliarem cada vez mais suas fortunas. Ou seja, como sempre, é o uso do poder do Estado em benefício dos mais ricos.
A organização popular e a luta ideológica, para que as pessoas tenham outra dimensão da realidade e reconheçam a importância da política, constituem-se nos elementos fundamentais, principalmente com o envolvimento da juventude, para nos reerguermos do limbo no qual fomos jogados pelos erros cometidos à esquerda, pelas traições de aliados impróprios e pela estupidez de uma elite perversa e insensível. Resgatar a esperança de milhões de brasileiros não será uma tarefa fácil, mas é a única maneira de retomar o caminho que o Brasil e o seu povo merece.




[2] CRISE: O BRASIL NO OLHO DO FURACÃO - DA CRISE ECONÔMICA MUNDIAL A UMA DISPUTA ENCARNIÇADA PELO PODER E À QUEBRA DO ESTADO DE DIREITO - https://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2016/03/crise-o-brasil-no-olho-do-furacao-da.html
[6] CRÔNICAS DE UM MUNDO EM TRANSE – A LOUCURA CONTINUA - https://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2015/04/cronicas-de-um-mundo-em-transe-loucura.html
[8] BANDEIRA, LUIS ALBERTO M. A segunda guerra Fria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
   ______________________. A Desordem Mundial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

LEIA TAMBÉM:

1 - BRASIL, DA EUFORIA AO CAOS E À INCERTEZA: A LUTA DE CLASSES REDIVIVA – PARTE I
2 - BRASIL, DA EUFORIA AO CAOS E À INCERTEZA – PARTE II – NA SOMBRA DA LUA CHEIA.

3 - BRASIL, DA EUFORIA AO CAOS E À INCERTEZA – PARTE III – GIGANTE COM PÉS DE BARRO - https://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2017/08/brasil-da-euforia-ao-caos-e-incerteza_14.html

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